 

Como Conquistar um Pai
Elizabeth Oldfield

Ttulo: Como Conquistar um Pai
Autor: Elizabeth Oldfield
Ttulo original: Reluctant Father!
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997
Publicao original: 1997
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao: Nina
Reviso: Valria Fratini
Estado da Obra: Corrigida

Decidiu ento colocar em cena a estrela do show...
Era bvio que Gifford no queria saber! Mas, ento, o que Gifford estava fazendo nas ilhas Seychelles? Teria a petulncia de, simplesmente, entrar de novo na vida de Cass, depois de t-la ignorado por dezoito meses? Ele no demorou a deixar claro que ainda a desejava. Mas como podia sentar-se ali, sem nem ao menos mencionar o filho? Ora, Cass no estava disposta a permitir que a situao continuasse assim. 


CAPTULO I

Ao ouvir o rudo de uma cadeira ser arrastada sobre o cho de tbuas, Cassandra Morrow suspirou. Em seguida, largou a mecha de cabelos loiros que segurava entre os dedos e fez uma careta para o espelho. Seu corte de cabelo teria de esperar. O rudo indicava a chegada de um fregus inesperado que, infelizmente, ela teria de mandar embora.
Depois de guardar a tesoura, abriu a porta do banheiro das senhoras e espiou o restaurante aberto, coberto de sap. Sim, um homem de cabelos escuros estava sentado a uma das mesas mais prximas  entrada, observando as guas azuis do oceano ndico.
 Est sem sorte, senhor!  Cass murmurou consigo mesma.  Chegou duas horas adiantado.
Ajeitou os cabelos com as mos, alisou a mini-blusa e limpou uma mancha da bermuda. Seria papinha de nen? Tambm secou o suor da testa. Afinal, o Paraso Esquecido podia nem sequer lembrar o hotel Savoy, em Londres, mas ela no gostaria de parecer desleixada diante de um cliente.
Fechou a porta do banheiro e caminhou por entre as mesas, franzindo o cenho. Detestava a ideia de recusar um fregus e se perguntou por que deveria faz-lo. Os horrios de funcionamento do restaurante no precisavam ser to rgidos. Alm disso, que dificuldade haveria em ligar a cafeteira, ou abrir uma garrafa de cerveja, ou mesmo servir uma fatia de bolo? Nenhuma!
E, se o atendimento fosse simptico e eficiente, havia a possibilidade de o fregus se sentir inclinado a voltar em outra hora, para fazer uma refeio adequada. Seria muito bom ouvir o tilintar da caixa registradora.
 Bom dia, cavalheiro  cumprimentou com um sorriso largo.  O restaurante s abre ao meio-dia e, hoje, estaremos servindo uma de nossas especialidades: moqueca de peixe  moda crioula. Mesmo assim, terei prazer em lhe servir um caf, ou uma cerveja, se o senhor...
Quando o homem se virou para fit-la, o sorriso morreu nos lbios de Cass e a frase ficou interminada. Sentiu-se atordoada pelo choque. Estava diante de Gifford Tait, magnata do mundo dos negcios, solteiro convicto e... o pai ausente de seu filho de nove meses de idade, que fora levado para um passeio pouco antes.
Em busca de equilbrio, suas mos seguraram com firmeza o encosto da cadeira mais prxima. Tempos atrs, Cass havia se deleitado ao estudar cada trao daquele homem. Ora, por que no reconhecera de pronto os cabelos escuros, os ombros largos, a postura calma e confiante? Porque j fazia muito tempo desde que Cass perdera qualquer esperana de que Gifford se dispusesse a encontr-la. Alm disso, jamais lhe passara pela cabea que ele fosse capaz de procur-la no arquiplago de Seychelles!
Como ele havia descoberto onde encontr-la? Por que Gifford decidira fazer uma viagem to longa, depois de dezoito meses do mais absoluto silncio? Uma torrente de perguntas comeou a se formar na mente de Cass. Provavelmente, por alguma razo, ele finalmente tomara conscincia da paternidade, mas... o que teria em mente?
Estaria disposto a brincar com o beb, a fim de ser perdoado pelo perodo de abandono? Ou s queria verificar se seu filho estava sendo bem cuidado? Talvez a ideia de uma criaturinha pequenina e rechonchuda houvesse despertado nele o desejo de ser um pai dedicado. Baixando os olhos azuis, Cass descartou tal possibilidade.
Soltou o encosto da cadeira e endireitou os ombros. Tanto fazia o motivo do sbito interesse de Gifford, pois estava chegando tarde demais. Se ele esperava que ela fosse se atirar aos seus ps, com lgrimas de gratido, estava redondamente enganado.
E como ele se atrevia a aparecer sem avisar? Que direito tinha Gifford de entrar no restaurante e apanh-la de surpresa? E escolher justamente um momento em que ela estava suada e corada por ter acabado de esfregar o cho, vestindo roupas que s usava em casa e, pior, completamente fora de forma. Com um movimento furtivo, Cass encolheu a barriga. Claro que no tinha a menor inteno de impression-lo. De jeito nenhum! Mas, se estivesse melhor arrumada, certamente teria se sentido mais segura para enfrentar aquele encontro inesperado.
	Eu no...  comeou a falar.
	O que voc est fazendo aqui?  Gifford interrompeu. Durante o vo dos Estados Unidos para a Europa e de
l para Seychelles, pensara em Cassandra Morrow o tempo todo. Recordara o envolvimento que tivera com ela no passado, como vinha acontecendo com frequncia irritante, nos ltimos tempos. Tais lembranas sempre traziam a sensao de desconforto e arrependimento, mas, ver-se diante dela era como ser atingido por um forte golpe fsico.
Cass deu-se conta de que havia se enganado. A pergunta formulada de olhos estreitos indicava que ele estava to surpreso quanto ela. E, a julgar pela linha dura formada pelos lbios sensuais, ele tambm no estava exatamente feliz pelo encontro. Gifford Tait no fora atacado por repentinos sentimentos nobres. Sua presena ali era mera coincidncia, uma brincadeira do destino.
	Estou ajudando Edith na administrao do Paraso Esquecido  Cass respondeu, surpresa ao constatar que sua voz soava normal e controlada.
Ento, lembrou-se de que fora capaz de agir com a mesma tranquilidade fingida, em outra ocasio no passado. 
Aparentemente, a capacidade no a abandonara.
	Trabalha aqui?  Gifford inquiriu.
	Sim. Fao de tudo um pouco. Hoje, por exemplo, a encarregada da limpeza tinha hora marcada com o dentista e eu limpei o restaurante.
Gifford examinou-a da cabea aos ps: os cabelos revoltos, a blusa molhada de suor, a bermuda amarrotada, os ps metidos em chinelos. Quando a conhecera, ela s vestia roupas sbrias e sofisticadas, calava sapatos de salto alto e usava os cabelos impecavelmente presos. Cass costumava ser a verdadeira imagem da elegncia. As nicas vezes em que a vira desarrumada fora quando haviam ido para a cama juntos. E, em tais ocasies, ela sempre lhe parecera muito desejvel. Como agora. Franzindo o cenho, Gifford lembrou-se de como fora bom fazer amor com ela, como tudo parecia perfeito, quando estavam juntos.
	Compreendo  ele falou, fazendo Cass se sentir ainda mais embaraada pela aparncia descuidada.  E quem  essa Edith?
	Era namorada do meu tio, Oscar. Ele morreu de cncer, h trs meses.
	E esta a pousada de seu tio? Lembro-me de voc ter me contado que ele era dono de uma pousada em Praslin, onde voc costumava passar as frias, mas pensei que ele tinha vendido o lugar no ano passado.
	Foi o que Oscar pensou, tambm, mas o negcio foi desfeito no ltimo minuto e s agora apareceu um novo interessado, embora a venda ainda esteja em fase de negociao. Edith  uma pessoa adorvel, mas muito ingnua e inexperiente. Quando meu tio foi a Londres, no ltimo inverno, havia acabado de descobrir que tinha os dias contados. Sabendo que Edith se veria perdida no momento de vender a pousada, pediu que eu a ajudasse.
	Por saber que voc  supereficiente?
	Por saber que sou a nica pessoa organizada na famlia  Cass respondeu, perguntando-se se o comentrio de Gifford fora sarcstico. Afinal, ela no fora nem um pouco eficiente, dezoito meses antes.  Concordei em ajudar  distncia, mas quando um novo interessado apareceu, Edith telefonou, pedindo que eu viesse para c. Estava desesperada por ajuda e eu precisava de uma mudana de ares.
Cass parou de falar, percebendo que comeava a tagarelar, o que era uma tendncia antiga, sempre que ficava nervosa. Disse a si mesma que no tinha motivo para ficar nervosa, pois era Gifford o vilo naquela histria.
	Ento, decidiu tirar frias?
	Pode-se dizer que sim. E voc? Est passando frias aqui, ou veio de Mah, s para passar o dia?
Mah era a maior das cento e poucas ilhas que formavam o arquiplago de Seychelles. Tambm era l que se situava a capital, Victoria. Sossegada e praticamente virgem como as demais ilhas, Mah contava com o maior nmero de hotis, bem como grande variedade de atraes e atividades.
Sendo um esportista entusiasmado, Gifford certamente desejaria velejar, esquiar e mergulhar. E, para isso, o melhor seria se hospedar em Mah. Cass rezou para que isso fosse verdade, pois se quisesse recuperar o equilbrio, precisaria de uma boa distncia entre eles. E nada melhor que o calmo mar azul a separ-los, para reduzir as possveis visitas de Gifford a Praslin.
	Detesto desapont-la, mas estou aqui mesmo, em Praslin  ele replicou em tom seco.
	No Club Sesel?  Cass perguntou, referindo-se ao  melhor hotel da ilha, situado a trs quilmetros do Paraso Perdido.
No ouvira o ronco de nenhum automvel e, se Gifford chegara a p, s poderia ter vindo de l. Ele sacudiu a cabea.
	No.
	No?  ela repetiu, sentindo-se grata.
Os outros hotis da ilha ficavam a, pelo menos, onze ou doze quilmetros dali, o que no era muito, mas melhor do que nada.
	No estou hospedado em um hotel. Aluguei uma casa. Cheguei ontem,  noite.
	Onde fica a casa que alugou?
Gifford usou o polegar e apontou por cima do ombro.
	Ali.
Os olhos de Cass voaram na mesma direo. Seguindo pelo gramado rente  praia, chegava-se a uma pequena colina, onde fora construdo um luxuoso bangal, cercado de rvores e arbustos, com espetacular vista para o mar, churrasqueira e um salo de ginstica que mais parecia uma academia. O lugar era considerado cinco estrelas no mercado imobilirio.
	Est falando da Maison d'Horizon?  Cass inquiriu em um fio de voz.
Gifford assentiu.
	Decidi me dar um presente.
Cass desviou os olhos para o chal de madeira onde estava instalada.
	Mas, ento, somos vizinhos!
	Exatamente  ele confirmou, seco. Cass engoliu em seco.
	Quanto tempo pretende ficar?  perguntou.
	Dois meses. No me culpe  ele acrescentou, notan-do-lhe os olhos arregalados.  A culpa  sua se decidi vir para Seychelles.
	Minha culpa?
	Eu me lembrei de voc falando da vida calma e pacfica das ilhas e...  Gifford desviou os olhos para o mar  estou precisando relaxar. Agora, que estou aqui, vejo que voc no exagerou na descrio.
Ora, a presena dele na ilha no era mera coincidncia! A prpria Cass, com sua lngua comprida, fora a culpada! Agora, estavam condenados a viver, ao menos por algum tempo, separados por alguns metros de areia e grama!
	O expediente de quatorze horas dirias finalmente cansou voc?  perguntou, sabendo que ele no s jogava duro, mas tambm trabalhava duro.
	No, embora eu estivesse mesmo exagerando no  trabalho. Tive problemas de sade e estou convalescendo 
Gifford explicou de maneira sucinta, deixando claro que no pretendia entrar em detalhes.  Poderia me servir algo para comer, alm de caf?
	O que disse?  Cass inquiriu, incrdula.
Enquanto conversavam, ela se perguntava quando ele iria mencionar o beb. Gifford o ignorara at ento, mas no poderia continuar a faz-lo. Porm, ela no estava disposta a facilitar as coisas, entrando no assunto sobre o filho.
	A imobiliria deveria ter providenciado mantimentos para os meus primeiros dias aqui, mas s vo mandar as compras mais tarde. Como no encontrei nada para comer quando cheguei, ontem  noite, estou faminto.
	Edith  quem cuida da cozinha e ela saiu  Cass replicou.
Embora Gifford erguesse as sobrancelhas em uma expresso de splica, Cass se manteve impassvel. No era mais a namoradinha apaixonada e ansiosa para satisfazer todos os desejos dele. Se ele tombasse de fome ali mesmo, azar!
	No precisa ser nada complicado. Po com manteiga basta. Ou uma fruta. Deve ter alguma fruta, na cozinha.
Se tiver um pacote de batatas fritas murchas, eu aceito  ele acrescentou com um toque de desespero.
Cass sacudiu a cabea.
	Sinto muito.
	Depois de passar dois dias viajando, no estou disposto a andar por a, atrs de comida  Gifford resmungou.  Ns dois sabemos que a despensa no pode estar completamente vazia. Portanto...
	Que tal ovos mexidos?  Cass sugeriu, irritada.
Trat-lo mal no seria boa ideia, uma vez que Cass poderia precisar da boa vontade de Gifford, no futuro. Assim, o melhor seria controlar o mau humor e manter o relacionamento em bases civilizadas, o que no seria a tarefa mais fcil do mundo.
	Excelente!  ele aceitou.  No est pensando em me envenenar, est?
	E correr o risco de ter o restaurante fechado pelas autoridades de sade? No vale a pena  ela respondeu com sarcasmo.
	Est se esquecendo de uma coisa.
	De qu?
	Quando cheguei, voc me cumprimentou com "Bom dia, cavalheiro". Portanto, agora, deveria dizer "No vale a pena, cavalheiro"  Gifford comentou, irnico.  J ouviu falar que o cliente tem sempre razo? Ou no est interessada em ganhar o prmio de funcionria padro do ano?
	No sou funcionria. Sou voluntria.
	Seja qual for a sua posio, sou um fregus, o que me d direito a ser tratado com cortesia.
Cass estreitou os olhos. Gifford a estava provocando. Em outra poca, ela se divertira com o senso de humor afiado que ele possua, mas no agora. Sua vontade era mand-lo para o inferno, mas tratou de controlar os impulsos.
	Espere sentado  murmurou.
Os lbios de Gifford se curvaram. Ele sempre admirara a audcia de Cass.
	Insolente, como sempre  comentou.
	No tenha a menor dvida disso  ela confirmou, antes de se afastar.
Enquanto preparava os ovos, na cozinha, Cass refletiu que havia se enganado ao pensar que, quando reencontrasse Gifford, ele no lhe despertaria qualquer reao. A verdade era que os olhos cinzentos, os traos viris e o fsico atltico continuavam a perturb-la.
Irritada, ordenou a si mesma que pusesse um fim quele tipo de pensamento. Gifford poderia obter nota dez em termos de atrativos fsicos, mas no que dizia respeito a calor humano, respeito e considerao, zero.
Lembrando-se de que ele comentara algo sobre problemas de sade, Cass se perguntou o que teria acontecido. Ento, deu de ombros, decidindo que se ele no estava disposto a dar maiores detalhes, ela tambm no tinha disposio de perguntar.
Uma vez preparados os ovos e as torradas, Cass arrumou a bandeja e voltou  parte externa do restaurante. Gifford voltara a observar o mar, adotando a postura tensa de algum que tem muitos problemas a lhe ocupar a mente.
	Servio rpido  ele comentou, ao v-la.
	Vai enviar uma carta de recomendao  Secretaria de Turismo?
	Com cpias para o primeiro ministro e para o presidente de Seychelles.  Quando Cass terminou de arranjar a comida sobre a mesa, Gifford inquiriu, sorrindo:  Vai completar o servio com uma pequena reverncia?
	No abuse da minha pacincia  Cass advertiu.  Sei que est se divertindo, mas at eu tenho meus limites.
	Uma gorjeta generosa no faria voc mudar de ideia?
	Eu no faria uma reverncia, nem se voc se ajoelhasse e implorasse... Pensando melhor, quer tentar?
	No  o meu estilo.
	Foi o que pensei.
Gifford percebeu que Cass havia colocado duas xcaras na mesa.
	Vai me fazer companhia?
Ela assentiu. Afinal, precisavam conversar sobre o beb.
	Estou precisando de um descanso. Voc se importa?
	De maneira alguma. Fique  vontade.
Cass serviu o caf e, s depois de se sentar de frente para Gifford, percebeu que ele estava mais magro, alm de um tanto abatido. Bem, isso poderia ser resultado da longa viagem, ou do choque provocado pela constatao de estar prestes a se ver confrontado com o filho que havia ignorado at ento.
- Voc disse que o restaurante s abre ao meio-dia, mas vejo que tudo j foi perfeitamente organizado  ele comentou, olhando as mesas em volta.
	Fui acordada ao amanhecer e, assim, pude comear o dia bem cedo  Cass explicou, esperando que ele perguntasse quem a acordara.
	As segundas-feiras costumam ser muito movimentadas?
	No. Os dias de maior movimento so as teras, quintas e sbados, quando servimos almoo para grupos de aproximadamente vinte turistas, em excurso. Os outros dias so calmos. A estrada ainda  de terra e cheia de buracos...
	Percebi, quando estava no txi  Gifford a interrompeu, franzindo o cenho e pousando a mo na coxa.
	A perspectiva de um passeio to difcil desanima os fregueses  Cass continuou.  Alguns hspedes do Club Sesel, bem como campistas, se arriscam a almoos ocasionais, mas so as excurses que proporcionam o maior lucro do restaurante.
	O que essas excurses incluem?
	Uma caminhada pelas trilhas do Valle de Mai, na mata que ocupa o corao de Praslin, almoo no Paraso Perdido e algumas horas na praia de Anse Lazio, ao norte da ilha, onde os turistas podem nadar e mergulhar.  um lindo lugar. Voc deveria ir at l, um dia desses.
	Talvez eu v. Seu tio estava contente com o movimento do restaurante?
	Sim. Oscar era um ex-hippie, que s queria ter o suficiente para viver. No dicionrio local, no existe uma palavra para "estresse" e ele escolheu o lugar perfeito para passar o resto de seus dias.
	E quanto  pousada? No h movimento de hspedes?
	Oscar raramente se preocupava em anunciar a existncia da pousada. Alm disso, no dava importncia aos reparos necessrios. Por isso, aqueles que se aventuravam a se hospedar aqui, jamais pensavam em voltar, ou indicar o lugar para conhecidos. O restaurante  excelente porque Edith  tima cozinheira, mas os chals precisam de reformas generalizadas  Cass explicou, apontando para os trs chals agrupados em torno de um gramado oval.
	Esto todos desocupados?  Gifford inquiriu.
	Estou instalada no mais prximo. Os outros esto desocupados desde que cheguei aqui e no recebemos nenhum pedido de reserva. Edith mora em um apartamento, no andar de cima do restaurante.
Tendo terminado de comer os ovos mexidos, Gifford pousou os talheres no prato.
	Estava uma delcia  elogiou.
	Obrigada.
	Sou eu quem deve agradecer. Sinto-me mais humano, agora.
Afastando a cadeira da mesa, ele estendeu as pernas e se espreguiou.
O movimento fez a camisa subir, deixando  mostra parte do abdome firme e coberto de plos negros. No mesmo insante, o corao de Cass disparou, pois ela se lembrou da sensao que a invadia quando deslizava as mos por aquele corpo viril.
	Est aqui sozinha?  Gifford perguntou, interrompendo-lhe os pensamentos perturbadores.
Se ela estava sozinha? Finalmente, ele encontrara um meio de mencionar Jack. Aleluia! Mas, o que Gifford imaginava que ela poderia ter feito? Abandonado o filho aos cuidados de algum, para desfrutar do sol tropical? Francamente! Ora, ao evitar fazer uma pergunta direta, Gifford estava jogando com ela. Muito bem, Cass tambm sabia jogar.
	Sozinha?  repetiu com ar inocente.
	Est acompanhada por um homem?
	Homem?
	Stephen veio com voc?  ele esclareceu com uma pontada de irritao.
	Stephen?  Cass repetiu com uma risada.  No!
Gifford referia-se a Stephen Dexter, presidente da fbrica de artigos esportivos que fora comprada no ano anterior pela TaitHill Corporation. Cass trabalhara para Stephen como secretria, assistente pessoal e, por ltimo, gerente administrativa.
	S Edith cuida da cozinha, ou voc tambm ajuda nisso?
Cass teve de pensar antes de responder, pois estivera distrada com a lembrana da lealdade e generosidade de Stephen, como amigo, e na sua total incapacidade para os negcios. Fora a incompetncia dele que levara a companhia ao declnio vertiginoso, criando a necessidade urgente da venda e, por consequncia, inserindo Gifford Tait na vida de Cass.
	As vezes, ajudo em tarefas menores, como lavar  verduras, mas Edith planeja o cardpio e prepara os pratos. Por que ela est demorando tanto?  Cass indagou,  pensativa.  Edith foi visitar a irm e levou...
Parou de falar ao se dar conta de que estivera prestes a dizer que Edith levara Jack no carrinho, para ser mimado e admirado. Aparentemente, todos os habitantes de Seychelles adoravam crianas. Porm, Cass estava decidida a no entrar no assunto. 
Aqueles longos meses de silncio haviam deixado claro que Gifford considerara a gravidez como sendo culpa dela e o beb, sua responsabilidade. Uma responsabilidade que Cass aceitara de bom grado. Agora, no entanto, era uma questo de princpios esperar que ele mencionasse a questo.
	Edith deve estar chegando a qualquer momento  falou.
	Quem quer que esteja interessado em comprar o restaurante deve acreditar ser possvel arrebanhar clientes  Gifford comentou.
Cass cerrou os punhos, frustrada. Por que ele se recusava a falar de Jack? No passado, Gifford sempre fora muito direto em suas conversas e discusses. s vezes, sua objetividade chegava a ser cruel, como ela mesma tivera a oportunidade de sentir na pele.
Estudando-o com ateno, Cass se perguntou se ele estaria envergonhado por no ter respondido suas cartas, nem ter entrado em contato, ou oferecido ajuda. Estaria Gifford disposto a pedir desculpas e mergulhado em constrangimento?
	E o que parece  replicou, refletindo que ficaria profundamente satisfeita quando ele finalmente reunisse a coragem necessria para pedir perdo pelo comportamento desprezvel que apresentara com relao ao filho.
	O interessado j trabalhou no ramo de hotelaria?
	Sim, na Africa do Sul.
	O que o trouxe para c?
	No fao ideia. Foi Edith quem conduziu as primeiras reunies, e embora eu o tenha conhecido h duas semanas, tudo o que sei  que se chama Kirk Weber e que veio de Johannesburgo.
	Como ele ?
	Est na casa dos quarenta, tem boa aparncia e  simptico. Edith costuma se referir a ele como "sr. Maravilha".
	Disse que ele ainda no fechou negcio com Edith?
Cass assentiu.
	A venda deveria ter sido concluda h um ms, mas Kirk est encontrando dificuldades na transferncia do dinheiro.
	Talvez ele tenha mudado de ideia.
	Acho que no. Ele garante que o dinheiro est a caminho e telefona com frequncia para se certificar de que no h outro interessado na compra.
	E Edith diz a verdade?
	Sim.
	No deveria.
	Talvez voc tenha razo  Cass concordou, pensativa.
	E claro que tenho razo!
Ao mesmo tempo em que falava, Gifford bateu com a mo na mesa, derrubando uma faca. Cass esperou que ele se levantasse e, com os movimentos atlticos e geis de que ela se lembrava to bem, recolhesse o talher do cho. Porm, ele ficou onde estava. Com uma pontada de irritao, ela apanhou a faca e colocou de volta na mesa.
	Sua faca  falou por entre os dentes.-
	Voc  muito gentil.
	Faz parte do servio.
Os lbios de Gifford se curvaram em um sorriso divertido.
	E voc resistiu ao impulso de me cortar em pedacinhos. O sorriso de Cass foi sarcstico.
	Por pouco.
	Voc est... diferente  ele comentou, examinando-a da cabea aos ps.
Mais uma vez, Cass encolheu a barriga. Desde que chegara na ilha, um ms antes, vinha se exercitando todos os dias, mas ainda no havia recuperado a antiga forma.
	Ganhei alguns quilos que estou tentando perder, mas isso no deveria ser uma surpresa, no acha?
	Diz isso por estar vivendo praticamente dentro de um restaurante?
"Digo isso porque tive um beb", Cass teve vontade de gritar.
	Seus seios esto maiores  Gifford murmurou, antes de fixar o olhar no dela.
O corao de Cass, disparou diante da constatao de que ela ainda era atraente aos olhos de Gifford. Por um lado, sentiu-se satisfeita e lisonjeada. Porm, no poderia se esquecer de que fora justamente aquela atrao que havia criado tantos problemas no passado. Dali por diante, seu relacionamento com Gifford deveria ser totalmente impessoal.
Estava prestes a dizer que no apreciava aquele tipo de comentrio, quando o viu franzir o cenho. Aparentemente, Gifford j se arrependera da observao que fizera e, provavelmente, no o agradava o fato de ainda sentir algum tipo de atrao.
	Phyllis e eu nos distramos com a conversa e nem percebemos o tempo passar  algum anunciou, provocando um sobressalto em ambos.
Uma mulher na casa dos cinquenta anos, de pele morena e rosto muito bonito apareceu na porta da cozinha. Usava os cabelos negros e lustrosos presos no alto da cabea e um vestido florido.
	Ol, Edith  Cass cumprimentou-a, olhando em volta.
Onde estaria Jack?, perguntou-se.
	Sua majestade est descansando na varanda  a outra informou, como se houvesse lido seus pensamentos. Ento, encarou o visitante.  Bom dia.
	Bom dia  Gifford respondeu.
	Cass abriu o restaurante mais cedo e lhe serviu algo para comer? Deve ser um cliente muito especial  Edith comentou com um sorriso.
Ligeiramente embaraada, Cass se perguntou se deveria revelar a identidade de Gifford. Limitara-se a dizer que o pai de Jack vivia em outro pas e, como em Seychelles os relacionamentos entre homens e mulheres costumavam ser casuais e passageiros, a informao fora aceita sem perguntas. O nome de Gifford nunca fora mencionado.
	Este  o sr. Tait  falou.  Ele alugou a Maison d'Horizon.
Edith soltou uma risada bem-humorada.
	Ah, voc  mesmo especial!  declarou com seu forte sotaque, antes de se virar para Cass.  J perguntou a ele se...
	No e nem vou perguntar  Cass a interrompeu depressa.
	Ora, querida, Bernard no se importava e tenho certeza de que o sr. Tait...
	Gifford, por favor  ele pediu com um sorriso.
Edith retribuiu o sorriso. Era evidente que havia simpatizado instantaneamente com ele.
	Tenho certeza de que Gifford no vai se importar  completou.
	Eu me importo  Cass retrucou, tentando enviar com o olhar uma mensagem para que a outra se calasse.
	Do que esto falando?  Gifford inquiriu.
	De alguns pequenos favores  Edith esclareceu.  Bernard  o francs que alugou a Maison d'Horizon antes de voc. Tem mais de setenta anos e veio para c a fim de tirar frias da esposa, que no lhe d sossego, e para desenhar retratos dos pssaros das ilhas. Era to gentil. Cass cerrou os dentes, pois sabia o que viria a seguir.
	Escute, eu...  comeou a protestar, mas a mais velha no se deixou intimidar.
	Bernard costumava vir ao restaurante na maioria das noites, e quando soube da nossa dificuldade em conseguir copos, passou a fornec-los para ns. No sei quem  o responsvel pelos suprimentos do bangal, mas sei que compram muitos copos. E, tambm, por causa da idade, Bernard no usava os aparelhos da sala de ginstica e...
	Gifford  fantico por exerccios e, com certeza, pretende usar os aparelhos  Cass falou, apressada.
	Mesmo assim  Edith continuou , no vai se exercitar o dia todo, vai? Cassie est decidida a perder alguns quilos, embora eu ache isso bobagem, pois na minha opinio ela est tima.
Gifford voltou a estudar Cass da cabea aos ps.
	Tambm acho  murmurou.
	Bernard permitia que ela usasse os aparelhos sempre que desejasse e...
	Voc gostaria de tomar os copos emprestados de novo e Cass gostaria de usar a sala de ginstica  Gifford concluiu em tom ligeiramente tenso.
Escolhera Seychelles para sua recuperao porque as ilhas ficavam bem longe de casa. Pretendia se manter annimo, ficar sozinho. Jamais lhe ocorrera encontrar algum conhecido por ali, muito menos, Cass.
Edith sorriu.
	Voc se importa?
	Claro que no.
	Pronto!  a nativa exclamou, virando-se para Cass.  Vou preparar o almoo. At mais tarde.
	At logo  Gifford respondeu.
	Edith no falou por mal  Cass comeou, assim que a outra desapareceu na cozinha.  No ser necessrio...
		No h problema algum. Avise-me quando quiser ir apanhar os copos. Podemos combinar um horrio para voc usar a sala de ginstica todos os dias.
Cass se sentiu constrangida, pois Gifford hesitara antes de concordar e ela no queria depender dele para nada. Ainda assim, estava ansiosa para perder os quilos que ganhara.
	Obrigada  limitou-se a dizer.
	Aqueles aparelhos devem ter custado uma verdadeira fortuna  ele comentou.  S vi uma bicicleta computadorizada igual quela em uma academia carssima, em Aspen. Era...
Enquanto ele falava, Cass bebeu o resto de seu caf. Estava magoada por Gifford no ter sequer perguntado do filho. Seria possvel que no se importasse nem um pouco, que no sentisse a menor curiosidade? Ou compaixo?
A mgoa logo se transformou em raiva e, batendo com a xcara na mesa, Cass se ps de p. Quisesse ou no, Gifford seria confrontado com o filho de uma vez por todas.
	Voltarei em um minuto  declarou, antes de se afastar.
Atravessou a cozinha, onde Edith se ocupava das panelas, e foi at a varanda. No carrinho, Jack dormia profundamente. Cass sentiu um aperto no peito. Amava o filho com todas as foras.
S ento se deu conta de que a semelhana entre Jack e Gifford era ainda maior do que ela havia percebido antes. Ambos tinham os mesmos cabelos escuros e sobrancelhas grossas, bem como as mesas linhas determinadas no queixo. Porm, pensou consigo mesma, ela trataria de garantir que seu filho crescesse com um corao bem mais generoso que o do pai.
Com um gesto decidido, soltou o freio do carrinho e comeou a empurr-lo. Querendo ou no, Gifford seria apresentado ao filho imediatamente.
Ao atravessar a porta que separava a cozinha do restaurante, imobilizou-se. A mesa estava vazia. Um mao de notas fora colocado sobre um pires, mas Gifford se fora.
Certamente, a perspectiva de ser confrontado com o filho fora assustadora demais. Por isso, fugira. Fugiria da ilha, tambm?
Cass sacudiu a cabea irritada, pensando que tal soluo seria a melhor para ela.

CAPITULO II

A cabeleireira sorriu para o beb no carrinho.  Mame no est linda como uma princesa?  perguntou.
Jack soltou uma risadinha animada e emitiu sons alegres.
Cass riu.
 Ele parece mais preocupado consigo mesmo, mas j estou me sentindo muito melhor  falou, voltando a examinar a prpria imagem no espelho.  Obrigada.
A chegada inesperada de Gifford, na vspera, tivera seu lado bom, Cass pensou, ao atravessar o saguo do Club Sesel. Tendo sido interrompida em sua inteno de cortar ela mesma a franja crescida, acabara decidindo visitar a cabeleireira. Em outras tentativas, havia se empolgado com a tesoura e depois, claro, se arrependera. Agora, porm, ao se olhar no espelho, sentia-se genuinamente orgulhosa da prpria aparncia, constatando que poderia at mesmo ser confundida com uma hspede do hotel.
A porta da gerncia se abriu, despertando-lhe a ateno. Um homem ia sair da sala, mas deu meia-volta e voltou a fechar a porta. Cass franziu o cenho. De cabelos loiros e bem cortados, vestindo um terno cinza impecvel, o sujeito se parecia muito com Kirk Weber. Cass no sabia onde ele costumava se hospedar quando se encontrava na ilha. Nem fora informada de sua chegada, nos ltimos dias.
Empurrando o carrinho atravs das portas do saguo e colocando os culos escuros para se proteger do sol forte, Cass se perguntou se a presena de Kirk significaria que a compra seria finalmente selada. Torceu para estar certa em sua previso.
	Ei, Cass!  uma voz estridente chamou.
Cass virou-se e deparou com a mulher de cabelos vermelhos e curtos, penteados com gel, que lhe acenava. Vestia um traje de banho de lam dourado e se encontrava ao lado da piscina.
	Ol, Vernica  Cass cumprimentou-a e esperou que se aproximasse.
Durante as duas ltimas semanas, Vernica Milne havia se tornado freguesa regular do Paraso Perdido. Chegava em seu carro alugado, ao meio-dia, ou ao anoitecer, fazia uma refeio leve e, ento, sentava-se no bar, onde passava horas lanando olhares sedutores para Jules Adnis. Jules era o barman nascido em Seychelles que, com seus traos bonitos, cabelos longos que exibiam mechas claras produzidas pelo sol e sorriso arrasador, fazia jus ao sobrenome. Quando Jack estava por perto, Vernica tambm brincava muito com ele.
Como falasse o tempo todo sem parar, como uma metralhadora, Vernica tornava-se extremamente cansativa depois dos primeiros cinco minutos de conversa, mas Cass sentia pena dela. Por trs das maneiras alegres e entusiasmadas, evidentemente foradas, parecia haver uma alma infeliz e perdida.
	S queria avis-la que vou almoar l, hoje  Vernica informou.  Jules estar no bar?
	Deveria, mas j sabemos que ele costuma perder a hora e s acordar quando j  tarde demais... quando no se esquece de que  dia de trabalhar no almoo  Cass respondeu de bom humor.
	Ele  irresistvel. Assim como este garotinho!  a ruiva falou, beliscando de leve a bochecha do beb.
Jack soltou gritinhos alegres.
	Voc tem filhos?  Cass perguntou.
	No. Tenho uma butique e nunca tive tempo para pensar em formar uma famlia. Agora, estou sozinha. Meu divrcio foi homologado no ms passado. Esta  a primeira vez que tiro frias sem meu marido e ser a primeira vez que voltarei para uma casa vazia.  Baixou os olhos para o dedo sem aliana.  E claro que posso me casar de novo e ter um filho. Estou entrando na casa dos quarenta e ainda no  tarde demais.
	Certamente  Cass concordou em tom de dvida.
	Acho que Jules gosta de mim  Vernica confidenciou com uma risadinha maliciosa.  E devo confessar que gosto dele, tambm.
Cass sentiu uma pontada de preocupao. Apesar do corte de cabelo ousado e das roupas caras e modernas, Vernica parecia estar muito mais perto dos cinquenta do que dos quarenta anos. Jules tinha vinte e cinco.
Alm disso, era um dom-juan despreocupado, que flertava com a maioria das mulheres que conhecia, o que parecia mero hbito. Cass acreditara que isso fosse bvio, mas talvez Vernica no quisesse enxergar. Recm-divorciada, a outra poderia estar se sentindo muito solitria e ansiosa demais por ateno masculina.
	Jules tem namorada  Cass informou no tom mais gentil possvel, no querendo magoar Vernica.  Na verdade, ele tem vrias. Agora, preciso ir. Vejo voc mais tarde.
	At daqui a pouco  Vernica se despediu, mas seu sorriso era dirigido a Jack.
Cass empurrou o carrinho para a estrada de terra e, assim como acontecera durante a noite quando ela no conseguira dormir por pensar em Gifford o tempo todo, seus pensamentos se fixaram nele novamente.
Na vspera, ao descobrir que ele fora embora do restaurante, a reao de Cass fora de alvio. Porm, ela no havia demorado a descobrir que ele continuava na ilha. Uma luz acesa na manso, na noite anterior, alm de uma porta batendo pela manh, haviam sido provas conclusivas de sua permanncia ali.
Irritou-se ao pensar que, embora jamais houvesse planejado se tornar me solteira, ela conseguira superar todos os traumas e se adaptar  sua nova vida. Chegara a fazer bons planos para o futuro, mas Gifford aparecera e a deixara confusa.
	Eu pretendia enviar fotografias suas para  o seu pai, quando voc completasse um ano  falou com o beb no carrinho.  Se ele no respondesse, eu mandaria outras, quando voc fizesse dois anos. Se, mesmo assim, ele no se manifestasse, eu o levaria para os Estados Unidos, poria voc em cima da mesa do escritrio dele e diria: "Querido, este  o seu filho e herdeiro". O que, certamente, o obrigaria a nos dar alguma ateno!
Jack bateu palmas e riu.
	No espero que ele seja um pai presente todos os dias  Cass continuou , mas acredito que toda criana tem o direito de conhecer o pai e quero que ele demonstre alguma considerao, como se lembrar do seu aniversrio e lev-lo em viagens de frias, quando voc j estiver crescido.
	D-d!  Jack replicou, animado.
	Eu tinha planejado dizer tudo isso a ele quando voc estivesse com dois anos e comeasse a perceber que todas as outras crianas tm pai. Acontece que seu pai decidiu aparecer agora.
O beb enfiou o polegar na boca e sugou-o ruidosamente.
Bem, poderia ter existido alguma outra razo para Gifford ter desaparecido do restaurante de maneira to abrupta, Cass refletiu. Era possvel que ele estivesse ansioso para voltar para a companhia de uma mulher, que havia deixado na cama. Afinal, como ela bem sabia, Gifford era um macho de sangue quente, com todos os apetites de um homem saudvel. Embora estivesse na ilha para convalescer, nada o impedia de estar acompanhado.
Enquanto alterava a posio do carrinho, para impedir que Jack tomasse sol demais, Cass se perguntou se Gifford teria viajado para Seychelles com Imogen Sales. Quanto mais pensava na atitude dele, na vspera, mais convencida ficava de que Gifford estava escondendo alguma coisa. Seria o fato de estar ali com a atriz que a substitura na vida dele com uma rapidez insultante?
Poucos meses antes, Cass vira a atriz americana em um filme, na televiso. Fez uma careta o se lembrar dos cabelos negros e sedosos que mais pareciam comercial de xampu, o rosto de traos perfeitos e o corpo repleto de curvas generosas. No pde deixar de lembrar, com uma pontada de satisfao perversa, da total falta de talento e expresso de Imogen.
Com expresso sombria, Cass admitiu que no a agradava a ideia de apresentar Jack e discutir questes to pessoais diante de outra mulher. Por outro lado, pelo bem de seu filho, teria de estabelecer uma via de comunicao satisfatria com o pai dele, independente da presena de terceiros por perto.
Foi subitamente invadida por uma onda de tristeza. No passado, havia se considerado eficiente para julgar o carter das pessoas. Acreditara que seu amante era um homem responsvel e confivel, mas tudo no passara de iluso.
	Como pude me enganar tanto?  resmungou e voltou a mergulhar no silncio, sentindo-se bombardeada pelas recordaes do passado...
Fora Henry Dexter, pai de Stephen e, na poca, presidente da companhia, quem chamara a ateno de Cass para a Tait-Hill Corporation pela primeira vez.
	Esses dois vo longe  ele havia declarado em uma manh, ao entrar na sala do filho e atirar uma revista sobre a mesa.  Leia o artigo de capa e veja como so ambiciosos, como se mantm bem informados... e como do duro no trabalho.
	Sim, papai  Stephen respondera, antes de colocar a revista de lado, sem dar a menor ateno.
Cass lera o artigo, pois era a nova secretria de Stephen e estava sempre disposta a ler todos os relatrios e memorandos que o jovem chefe deveria ler, mas no tinha disposio para analisar. 
E fora assim que ela descobrira que Gifford Tait e Bruce Hill, dois americanos formados em administrao de empresas, antes esquiadores defendendo o seu pas em competies mundiais e colecionando medalhas e trofus, haviam verificado que o esporte carecia de equipamento de melhor qualidade e decidiram satisfazer tal demanda.
Ao longo dos anos seguintes, a profecia do velho Dexter se tornara realidade. A Tait-Hill havia crescido, passando a produzir equipamentos para outras modalidades de esportes e abrangendo outros ramos de negcios, como o imobilirio, uma companhia de bales a gs e um empreendimento orado em um milho de dlares na rea de informtica.
Aps o derrame sofrido por Henry, a Dexter's iniciara o seu declnio. Sendo uma firma tradicional e um tanto antiquada, produtora de tacos para crquete, raquetes de tnis e sapatos para corridas, cujo nome era garantia de alta qualidade, seu futuro comeou a parecer instvel. Ento, haviam recebido uma carta da Tait-Hill, sugerindo reunies para a discusso de uma possvel fuso.
Apesar da insistncia de Stephen em que ele mesmo seria capaz de reverter o quadro pouco satisfatrio da companhia, seu pai havia decretado que a Tait-Hill deveria assumir o comando da companhia. Pouco tempo depois, Gifford chegara  Inglaterra.
Depois de uma semana estudando relatrios de balano, nos escritrios londrinos, e examinando informaes financeiras, todas fornecidas por Cass, Gifford pedira a ela que o inteirasse dos detalhes sobre os planos de ao da companhia.
	Por que eu?  ela perguntara, pensando na irritao que Stephen no havia disfarado, minutos antes, em sua sala.
	Porque voc  a pessoa mais eficiente que encontrei aqui  Gifford respondera com um sorriso.  E porque gosto de voc.
Cass no contivera uma risada. Desde o primeiro dia, haviam trabalhado muito bem juntos e, com isso, descoberto que partilhavam o mesmo senso de humor.
	Tambm gosto um pouquinho de voc  confessara.
	S um pouquinho?  ele protestara, fingindo-se zangado.  Preciso colocar meu charme em ao.
	Voc tem charme?  Cass inquirira, erguendo as sobrancelhas.
	Voc no percebeu?
	Talvez algum sinal, de vez em quando.
	O que significa que vou ter de comear do nada. Que assim seja!
Nos dias seguintes, Cass passou a gostar muito de Gifford Tait. Ele sabia o que queria e, se necessrio, assumia postura autoritria. Ao mesmo tempo, porm, era modesto, divertido e uma excelente companhia. Exalava vitalidade por todos os poros, alm de ser extremamente sexy, fazendo Cass se esquecer de todos os homens que havia conhecido at ento.
Quando, inesperadamente, Gifford tivera de voltar para os Estados Unidos para resolver negcios urgentes, ela se sentira estranhamente perdida e pensara nele o tempo todo.
	Sentiu minha falta?  Gifford perguntara ao retornar, uma semana depois.
	Sim  Cass respondera com sinceridade.
	Tambm senti sua falta. Calculo que vou precisar de um ms para me inteirar da situao da Dexter's e...
	Tanto assim?
Gifford sorrira e confirmara:
	Tanto assim. Por isso, gostaria de saber se voc dispe de tempo, nos fins de semana, para me mostrar Londres.
	Ser um prazer.
Assim, visitaram museus e galerias de arte, assistiram a espetculos no Covent Garden, navegaram pelo Tamisa, at Greenwich, e partilharam jantares  luz de velas.
O relacionamento se tornou mais profundo. Longe do escritrio, Gifford segurava a mo de Cass todo o tempo e, quando a deixava em seu apartamento, em Putney, despedia-se com beijos apaixonados.
O tempo voou. Quando se deram conta, tinham apenas mais uma semana juntos.
	Como voc decidiu dar incio aos seus negcios?  Cass perguntou uma noite quando, depois de visitarem uma das fbricas da Dexter's, descansavam na saleta da suite de Gifford, no hotel.
	Tudo aconteceu por pura sorte  Gifford respondeu, enquanto abria uma garrafa de vinho.  Bruce e eu tnhamos muitas ideias, mas nos faltava dinheiro e conhecimento tcnico para coloc-las em prtica. Ento, um fabricante de artigos para esqui me viu na televiso.
	Voc estava esquiando?
	No, comentando.
	 comentarista?  ela inquiriu, surpresa.
	Era. Houve um tempo em que eu tinha um programa de esportes, na televiso, mas abandonei a atividade h algum tempo.
	Por qu?
	No me agradava ser famoso. Como o programa era exibido no pas inteiro, eu j estava me transformando em celebridade. Acontece que detesto ser abordado por estranhos na rua, ou ser perseguido por reprteres que s querem bisbilhotar minha vida particular. Esse industrial me contratou para promover seus produtos. Bruce e eu aproveitamos a oportunidade para expor nossas ideias. O fabricante gostou, nos deu um emprstimo e espao em sua fbrica. Ento  Gifford estalou os dedos , abracadabra]
	No pode ter sido to simples!  Cass protestou, incrdula.
	No foi  ele admitiu com um sorriso maroto.  Sendo jovens e novos no mercado, custou-nos muito sangue, suor e lgrimas conseguir reconhecimento de nossa capacidade. Agora...
	Agora, sua vida  boa?
Gifford estendeu a mo e afagou os cabelos de Cass.
	Neste exato momento, a vida  muito, muito boa  murmurou.
Cass sentiu o corao disparar ao reconhecer nos olhos dele o brilho do desejo. Provavelmente, tratava-se do reflexo do brilho exibido por seus prprios olhos.
Ento, ele se reclinou no sof.
	Seu chefe no tem inclinao para sangue, suor e lgrimas. Gosta de ver o nome gravado na melhor vaga do estacionamento da empresa, mas se ressente de ter que ir ao escritrio todos os dias.
Cass hesitou, pois sua lealdade a impeliu a mentir em defesa de Stephen. Porm, Gifford saberia que estava mentindo.
	Desde que nasceu, Stephen foi designado sucessor do pai. Trata-se de uma tradio familiar, mas ele no possui real interesse pelos negcios.
	Um interesse que voc, mesmo sendo uma simples funcionria, tem de sobra. Voc sabe de tudo o que acontece em todas as reas da companhia. Foi por isso que pedi que voc me acompanhasse no trabalho.
	Pediu? Para mim, soou como uma ordem.
Ele sorriu.
	Tem razo. Eu exigi, pois percebi de imediato que Stephen seria intil. Voc praticamente o carrega nas costas! Espero que ele esteja lhe pagando um bom salrio.
	Para ser sincera, meu salrio  to alto, que seria tolice sequer pensar em mudar de emprego.
	O qu, exatamente, se passa entre vocs?  Gifford inquiriu, estudando-a com ateno.   evidente que so muito prximos e Stephen me deu a impresso...
	Que impresso?
	De que vocs tm um envolvimento pessoal.
Cass caiu na risada.
	No! Voc entendeu mal. Trabalho para Stephen j faz bastante tempo e, embora seja alguns anos mais velho que eu,  como um irmo caula para mim.
	Um irmo caula egosta e petulante  Gifford comentou, sabendo que o outro havia, deliberadamente, se esforado para lhe dar a impresso errada.
	s vezes  Cass concordou , mas Stephen tambm  gentil, amvel e divertido. O pai o domina, enquanto a me o mima demais.  filho nico e, quando nasceu, os pais j tinham idade avanada.
	Pais e mes so capazes de criar todo tipo de problemas para os filhos  Gifford comentou, pensativo.  Bem, ento, voc e Stephen so apenas amigos. Bom.
	Por que isso  bom?
	Porque significa que voc no tem nenhum relacionamento srio.
	Como pode ter tanta certeza?
	Durante todas essas semanas, voc no mencionou ningum, nem telefonou para algum, enquanto viajvamos. No tenho a menor dvida de que no lhe faltam pretendentes, mas... Existe algum?
	No momento, no.
Embora j tivesse vinte e sete anos, Cass havia se envolvido com seriedade apenas uma vez, mas o namoro terminara mais de um ano antes.
Otimo! Assim voc no ter nenhuma objeo a fazer amor comigo.
Cass perdeu o flego.
	Fazer amor?  repetiu.
	E inevitvel.
	Voc acha?
	Tenho certeza.  Gifford se aproximou, retirou o copo da mo trmula de Cass e colocou-o sobre a mesa.  Essa foi a principal razo pela qual exigi que voc me acompanhasse no trabalho.
	Ento, premeditou tudo isso? Voc  muito sutil!
	Sou mesmo!  ele concordou com um sorriso que fez o corao de Cass derreter. Ento, segurando-lhe o rosto entre as mos, fitou-a nos olhos.  Mas voc tambm acha inevitvel acabarmos juntos, na cama. Certo?
Ela engoliu em seco. Por que mentir?
	Certo.
	Voc me quer e eu quero voc. Quero tanto que j no consigo pensar em outra coisa. No faz ideia de quanto estou sofrendo.
Cass sorriu.
	Est tentando despertar a minha piedade e me fazer dar fim ao seu sofrimento?
	Seria um ato de profunda generosidade  ele murmurou, sorrindo e, ento, beijou-lhe os lbios.
Atordoada de prazer, Cass se deu conta de que desejara Gifford desde o primeiro instante. Rendeu-se ao beijo com abandono, deixando-se seduzir por aqueles lbios sensuais e experientes. Quando deu por si, estava no quarto. Parte de suas roupas encontrava-se espalhadas pelo cho.
	Voc  linda, Cass  Gifford murmurou, admirando-lhe a nudez com olhar fascinado e faminto.  Linda  repetiu com voz rouca.
Cass deu um passo  frente e, com dedos trmulos, comeou a desabotoar a camisa de Gifford.
	Minha vez  anunciou.
Ele sorriu e ajudou-a na tarefa de despi-lo.
Inteiramente nus, os corpos colados um ao outro, deixa-ram-se cair na cama, perdidos em carcias e beijos. Amante terno e sensvel, Gifford sabia, assim como nos negcios, exatamente o que queria e como alcanar seus objetivos. Por isso, proporcionou a Cass um xtase to intenso, que ela se surpreendeu com a reao de seu prprio corpo. Jamais experimentara prazer to profundo.
O resto da semana passou depressa, entre visitas s fbricas, leitura de relatrios e momentos de intensa paixo.
	Precisamos conversar  Gifford anunciou durante o caf da manh, no dia de sua partida.
Ele havia deixado o hotel de luxo que Cass reservara e se instalado no apartamento dela, muito mais humilde. Naquela manh, haviam despertado muito cedo e feito amor com desespero. Quando o despertador tocara, haviam sado para uma corrida, um hbito que Gifford fazia questo de manter. 
Na volta, Gifford entrara no banho enquanto Cass preparava o desjejum. Porm, ao entrar no banheiro e ver a gua escorrendo pelo corpo atltico, ela no resistira  tentao. Livrando-se das roupas, juntara-se a ele no chuveiro, para mais uma sesso de amor e paixo.
	Conversar sobre o qu?  ela perguntou.
	Sobre ns.
O corao de Cass deu um salto. Era loucura, mas ela se perguntou se ele a pediria em casamento. Embora s se conhecessem havia dois meses, Cass sabia que o amava. E, tambm, suspeitava que Gifford havia se apaixonado por ela. A palavra "amor" no fora mencionada, nem promessas haviam sido feitas. Ainda assim, era como se fossem almas gmeas, pois se entendiam perfeitamente e sua vida sexual era mgica.
	Sobre ns?  repetiu com um sorriso.
Gifford era o homem pelo qual ela havia esperado a vida toda.
	Nosso relacionamento  muito... quente, mas acho que devemos esfriar os nimos  ele falou com certa hesitao. Ensaiara seu discurso diversas vezes, mas era difcil repeti-lo, embora o instinto de autopreservao lhe dissesse ser necessrio.  Como voc sabe, vou recomendar a Bruce a compra da Dexter's. Isso significa que vamos nos encontrar com frequncia, no futuro. Sei que soa como
clich, mas realmente acredito que negcios e prazer no devem se misturar.
O corao de Cass quase parou, mas seu sorriso se manteve firme nos lbios.
	Concordo plenamente  declarou.
Gifford se ps de p.
	Tambm no acho boa ideia deixar que nosso relacionamento se torne mais srio. Preciso ser honesto com voc.
Tenho verdadeiro pavor de me sentir preso a algum. No nasci para a vida domstica. Gosto de ser independente,livre para ir aonde quiser, quando quiser. Gosto de poder velejar, esquiar, ou viajar a negcios sem...  parou de falar de sbito.  Voc concorda?  perguntou, como se s ento houvesse registrado as palavras dela.
	Sim. E nunca sequer me ocorreu que nosso relacionamento pudesse se tornar srio.
	No?
	Claro que no!  Cass confirmara com uma risada.  Ns nos damos muito bem e essas semanas foram deliciosas, mas no creio que devssemos pensar em nada mais duradouro. Quando  vida domstica, tambm no me sinto pronta para isso. Ao menos, no por um bom tempo.
Gifford passou a mo pelos cabelos, demonstrando surpresa e alvio. Teria esperado que ela argumentasse em contrrio, ou que explodisse em lgrimas? Ora, aquela era a primeira vez que Cass levava um fora, mas nada no mundo a faria chorar.
	Voc disse que chamaria um txi para me levar ao aeroporto  ele a lembrara.
	Agora mesmo.
Ah, como fora tola!, Cass refletira, depois da partida dele. Com sua beleza mscula, inteligncia e polpuda conta bancria, Gifford era o tipo de partido que dezenas de mulheres disputariam com unhas de dentes. 
No entanto, aos trinta e seis anos. permanecia solteiro. Portanto, era evidente que se tratava de um solteiro convicto- Quanto a serem almas gmeas, tudo no passara de uma iluso infantil.
Como prova disso, um ms depois, Cass havia se deparado com uma foto de Gifford em um jornal americano. Estava ao lado de Imogen Sales e o artigo dizia que a atriz havia admitido que existia algo mais que amizade entre os dois.
Cass jogara o jornal no lixo, recusando-se a se entregar ao sofrimento. Gifford Tait seria apenas mais um passo no seu processo de aprendizado sobre a vida e, com o tempo, seria esquecido.
Duas semanas mais tarde, porm, o mdico confirmou a suspeita de Cass: estava grvida...
Quando Cass chegou ao Paraso Perdido, Jack dormia profundamente. Depois de deixar o carrinho na varanda, ela entrou na cozinha.
Edith preparava o almoo, enquanto Marquise, a adolescente tagarela que limpava o restaurante e ajudava a servir os fregueses, colocava flores frescas nos vasos.
	Gostei do seu novo corte de cabelo  Edith elogiou.
	Est muito elegante  Marquise concordou. Cass sorriu.
	Obrigada. No que posso ajudar?
	Pode ir at a manso e apanhar os copos  Edith declarou.  E, enquanto estiver l, pode aproveitar para pedalar um pouco.
	O grupo de excurso deve chegar a qualquer momento  Cass lembrou, relutante.
Embora soubesse que teria de confrontar Gifford mais cedo ou mais tarde, no se sentia pronta para isso.
	Os turistas vo demorar, pelo menos, uma hora. E eles so o motivo de nossa necessidade de mais copos. Marquise e eu ficaremos de olho em Jack.
Desistindo de discutir, Cass foi at seu chal, vestiu um macaco de ginstica e shorts. Enquanto isso, planejou seu discurso. Comearia sugerindo que Gifford certamente gostaria de v-lo. E trataria de aparentar calma e tranquilidade. Embora desejasse criticar-lhe a atitude ausente, no poderia correr o risco de transform-lo em um inimigo, pelo bem de Jack.
Enquanto se dirigia  manso, Cass admirou a paisagem. Lera em um guia turstico que, ao visitar Praslin pela primeira vez, no final do sculo dezenove, o general Charles Gordon, heri de Khatroum, acreditara ter descoberto o Jardim do den, mencionado na bblia. Sorrindo, Cass refletiu que no era difcil compreend-lo.
Com suas montanhas cobertas de vegetao verdejante e flores coloridas, Praslin era, sem dvida, a mais bela das ilhas. Assim como a mais segura, lembrou-se. Ali, os crimes eram muito raros e as pessoas nem sequer pensavam em trancar as portas de suas casas.
Ao atingir os degraus de pedra que levavam  entrada da manso, o sorriso de Cass morreu em seus lbios. Talvez o confronto se tornasse mais fcil se ela houvesse levado Jack, permitindo que o garoto usasse seu charme, que no era nada desprezvel. Quem sabe o melhor a fazer fosse dar meia-volta e voltar  tarde. 
Tal atitude seria uma grande covardia, alm de significar voltar para o restaurante sem os copos, mas...
Cass imobilizou-se. Gifford caminhava na esteira. Ao v-lo pela janela, perguntou-se se haveria algum com ele. Imogen Sales, por exemplo. Ao pensar na atriz de corpo esguio, Cass baixou os olhos para o ventre ligeiramente protuberante. Por nada no mundo enfrentaria um encontro como aquele!
Dando a volta na varanda, foi espiar pela porta. No havia ningum ali, alm de Gifford. Mais tranquila, obser-vou-o com maior ateno e notou que seu passo era irregular e incerto. Aproximando-se um pouco mais, percebeu que, do joelho para baixo, a perna esquerda apresentava-se atrofiada e deformada. Cicatrizes feias cobriam-lhe a pele. Era como se o tornozelo de Gifford houvesse sido esmagado e reconstrudo novamente, mas de maneira imperfeita.
De repente, ele a viu e praguejou baixinho. Pensara estar sozinho. Precisava ficar sozinho, pois no queria ser observado, examinado. Mais que tudo, no queria despertar a piedade de ningum.
Saiu da esteira e apanhou a bengala que deixara apoiada na parede.
	Desde quando voc tem o hbito de ficar espiando os outros?  inquiriu, irritado.
	Eu no...
	Pedi que me avisasse antes de vir!  Gifford lembrou-a com olhar frio.
	Pediu?
	Sim.
	Desculpe. Eu me esqueci.
	Sua memria deve ser pssima!
	Voc tem razo e j pedi desculpas  Cass falou com voz firme.  No precisa ser to agressivo.  Ento, baixou os olhos.  O que aconteceu com sua perna?
	A viso lhe faz mal?
	No.
	Duvido  Gifford zombou com amargura.
	Est falando com algum que passou muitas horas da adolescncia nos cinemas, se assustando com aliengenas, criaturas mutantes e mortos-vivos. Se voc tivesse serpentes em vez de cabelos, ou vertesse uma gosma verde pelos poros, eu certamente faria uma careta. Mas, uma perna atrofiada? Isso no  nada!
Gifford no conseguiu conter uma risada e sua raiva se dissipou.
	Sofri um acidente de automvel  explicou, enquanto
vestia a cala jeans.
Cass sentiu uma pontada de ternura. Dezoito meses antes, Gifford fora um atleta em sua melhor forma. Possua um corpo perfeito. Agora... S ento, deu-se conta do que. ele estivera tentando esconder.
	Era do acidente que estava falando, quando disse que teve problemas de sade?  perguntou.
	Sim. Passei algum tempo no hospital.
	Quanto tempo?
	Quase cinco meses. Minha perna foi esmagada e no foi fcil recuper-la. A certa altura, os mdicos chegaram a falar em amput-la.
	Ah, no!
	Foi exatamente a reao que tive.
	Deve ter sido um acidente muito grave.
	Sim, dos piores  Gifford confirmou e Cass reconheceu uma sombra de tormento em seus olhos cinzentos.  O carro saiu da estrada, atravessou um riacho e bateu contra uma grande rocha. A lataria ficou totalmente destruda. Minha perna ficou presa nas ferragens e meu p, praticamente dobrado ao meio, sob um pedal. Estvamos a uma boa distncia da cidade mais prxima. Por isso, apesar de o motorista do automvel que vinha logo atrs ter telefonado imediatamente para o servio de resgate, o socorro demorou um pouco a chegar. Ento, ainda tiveram de cerrar as ferragens com todo cuidado para me tirarem de l.  Gifford contou, enquanto secava o suor com uma toalha.
	Voc estava dirigindo?
	Sim.
	Algum mais se feriu?
	Imogen ficou abalada, mas no sofreu nem um arranho. E, felizmente, nenhum outro veculo foi envolvido. Imogen  Imogen Sales...
	A atriz  Cass completou, desejando que ele acabasse logo de se secar e vestisse uma camisa, pois a viso do peito largo e dos ombros fortes estava provocando reaes indesejveis em seu corpo.  Eu sei. Vi uma fotografia de vocs dois juntos, no jornal. Por outro lado, no li nada sobre voc ter sofrido um acidente, nem ouvi nenhum comentrio na Dexter's. Stephen no disse nada, assim como Ron Myers.
Ron Myers era o americano de meia-idade que fora enviado para gerenciar a companhia. Embora Gifford houvesse garantido que ele e Cass voltariam a se encontrar, isso nunca acontecera. Ela jamais soubera se ele optara por se manter distante, ou se estava envolvido em outras negociaes. Ron Myers assumira o controle da Dexter's e, apesar de manter o legado do nome respeitado no mercado, passara a revitalizar as vendas e superar a concorrncia.
	Eu no queria que a imprensa tomasse conhecimento do acidente. Por isso, pedi  minha famlia e amigos que guardassem segredo. Ron sabe de tudo, assim como o pessoal de Boston, mas imagino que no tenha contado nada a Stephen. Sei muito bem que os dois esto muito longe de serem amigos. Stephen no conseguiu superar a mgoa provocada pela deciso do pai de entregar o controle da companhia para outra pessoa.  Mantendo o tom casual, Cass mudou de assunto.  Imogen est com voc, agora?
	No  Gifford respondeu de cenho franzido.  Foi um relacionamento breve.
	Como o nosso.
Fez-se um momento de silncio, antes que ele replicasse:
	Acho que sim.
	Trouxe uma nova namorada para c?
	Quem voc pensa que eu sou? Don Juan? No, estou sozinho. Imagino que voc tenha vindo buscar os copos e...  Parou de falar e deixou os olhos passearem pelo corpo de Cass. Alm de ter quase destrudo sua perna, o acidente parecera ter abalado sua libido, tambm. Agora, porm, seus hormnios estavam em ebulio.  Para fazer exerccios?
	Bem... sim.
	Fique  vontade. Vou procurar os copos.
Apoiando-se na bengala, Gifford desapareceu por uma porta. Cass tirou o short e comeou a pedalar, perguntan-do-se se ele usara a bengala na vspera, para ir ao restaurante. Ento, franziu o cenho. Se no houvera outro veculo " envolvido, como o acidente acontecido? Nos passeios que haviam feito juntos e nas visitas s fbricas, haviam se revezado ao volante e Gifford provara ser um motorista habilidoso e consciente, mesmo tendo de dirigir no lado esquerdo da pista.
Pedalando mais depressa, Cass admitiu para si mesma que, por mais que desejasse odi-lo, no conseguia. Gifford era inteligente, divertido e incrivelmente sexy. Alis, essas haviam sido as razes pelas quais ela se apaixonara por ele. E, agora, sentia profunda simpatia.
	No encontrei uma caixa  ele anunciou, ao voltar com os copos em uma sacola de plstico , mas acho que esto seguros, aqui. Eu os embrulhei em panos de prato e...
Ao dar o passo seguinte, a perna de Gifford cedeu sob o peso de seu corpo e ele tombou para a frente. Com um movimento rpido, Cass pulou da bicicleta, postou-se diante dele e espalmou as duas mos em seus ombros.
	Cuidado!  exclamou, enquanto tentava lhe devolver o equilbrio.
Seus olhares se encontraram e, no mesmo instante, ambos tomaram conscincia da proximidade de seus corpos. Rapidamente, Cass deu um passo para trs, apanhando a sacola de plstico das mos dele.
	Voc est bem?  perguntou.
	Sim. Devo ter tropeado em alguma coisa.
	Provavelmente  Cass concordou, embora no acreditasse em tal possibilidade.  Vou buscar a sua bengala.
	No  necessrio  Gifford retrucou em tom rude.
	Tudo bem, mas no precisa ser grosseiro!
	Desculpe. Tem razo. Acho que preciso da bengala. Deixei-a na porta da cozinha.
Cass deu-se conta de que o homem que, antes, se sentira to  vontade consigo mesmo e com o mundo havia perdido o seu referencial. Embora no admitisse, Gifford ainda no superara o trauma causado pelo acidente.
	Devem estar sentindo a sua falta, no trabalho  comentou, ao voltar com a bengala.
	No muita. Dois de meus assistentes assumiram o meu trabalho, enquanto eu estava no hospital, e provaram sua capacidade e eficincia. Esto no controle de novo. Cheguei a voltar para o escritrio, mas era cedo demais e, agora, meu mdico insiste em que devo relaxar e me concentrar em fortalecer minha perna, durante uns dois meses. Ento, voltarei ao normal e poderei retomar a vida que tinha antes.
Cass estudou-o por um longo momento. A quem ele estava tentando enganar? Gifford jamais retomaria a vida ativa de antes.
	J terminou seus exerccios?  ele perguntou.
Ela consultou o relgio e descobriu que j era quase meio-dia. 
 No, mas preciso ir. Hoje  dia de recebermos o  grupo de excurso e preciso ajudar a servir.  Cass hesitou. Planejara conversar com Gifford sobre Jack, mas a surpresa  provocada pela perna ferida afastara o assunto de sua  mente.  Alm disso  acrescentou com calma aparente ,preciso alimentar o  beb.
Gifford franziu o cenho.
	Que beb?
	Jack... meu filho.
O silncio se arrastou por um longo momento.
Stephen fez comentrios, mas achei que, mais uma vez, estava fantasiando  ele comentou, devagar.
Raras vezes em sua vida, Gifford sentira cime. Agora, porm, o sentimento parecia estar abrindo um buraco em seu peito. Como fora tolo ao terminar seu relacionamento com Cass!
	Stephen?  ela repetiu, confusa.
	Conversei com fele por telefone, no final do ano. Liguei para saber como voc estava passando...
	Ele no me contou.
	Disse que voc havia se mudado para o apartamento dele.
Cass assentiu.
	O proprietrio do apartamento que eu alugava decidiu, de repente, vender o imvel. Como Stephen tinha espao sobrando, sugeriu que eu me mudasse para l.
	Havia espao suficiente para voc e... Jack?
	Sim.
	Jack... o filho dele  Gifford murmurou, pensativo.  Voc precisa ir.
Cass fitou-o, atordoada e confusa. Jack... filho de Stephen? Do que ele estava falando, afinal?
	Ir?  repetiu.
	Sim, precisa alimentar o beb e ajudar a servir os turistas.
	Ah, sim... Certo.
Como se no enxergasse o que fazia, Cass vestiu o short e apanhou a sacola com os copos.
	At mais  Gifford despediu-se.
	At mais  Cass replicou, antes de sair.

CAPITULO III

O olhar de Cass se desviou da expresso chocada de Edith, sentada a uma extremidade da mesa, para o sorriso largo de Kirk Weber. A nica maneira garantida de algum se esquecer prontamente de seus prprios problemas, pensou, era se ver diante de um problema maior, de outra pessoa.
Como Jack havia dormido a noite inteira, enquanto ela permanecera acordada, a maior parte do tempo, tentando compreender as palavras de Gifford, Cass se levantara tarde, naquela manh. Depois de alimentar Jack enquanto tomava seu prprio desjejum, havia se ocupado da contabilidade do restaurante. Ento, passara mais de uma hora brincando com o filho, at que os olhos do garotinho comeassem a se fechar. Em seguida, fizera-o dormir e, quando considerava a ideia de fazer uma limpeza no bar, Kirk chegara.
O pedido dele por uma reunio imediata fizera Cass sentir profundo alvio. Finalmente, calculara, o dinheiro havia sido transferido. Porm, poucos minutos depois, seu alvio se dissipava.
	Voc no pode fazer isso!  Edith protestou, dirigindo-se a Kirk, antes de voltar a encarar Cass.  Ele no pode fazer isso, pode?
Cass pousou a mo sobre a dela, desejando poder oferecer mais do que um mero gesto de conforto.
	Posso, sim  Kirk declarou.  No possuo uma fbrica
de dinheiro e seria idiota se pagasse mais.
	Eu no...  Edith comeou a falar, apenas para ser interrompida.
	E pegar ou largar.
	O Paraso Perdido  um lugar charmoso, alm de ter excelente localizao  Cass interferiu.  Os chals precisam de reformas, mas...
Kirk se levantou.
	Voltarei amanh.
Cass tambm se ps de p.
	O que est fazendo  antitico.
	Negcios so negcios.
	Isso no  negcio.  jogo sujo!
Ele passou um brao em torno da cintura de Cass.
	Ora, ora, querida Cassie, no leve esse assunto para o plano pessoal  murmurou.
	Solte-me  ela ordenou com firmeza.
	Querida...
	Solte-me!
Ainda sorrindo, Kirk obedeceu.
	Gostaria de conhec-la melhor  anunciou.
	E eu gostaria que voc agisse com maior honestidade!
Ele olhou por cima do ombro de Cass e falou:
	Voc tem um visitante. Estarei aqui amanh, s cinco e quinze, para ouvir a sua resposta.
Ento, se foi.
Aflita, Cass se perguntou o que fazer. Prometera ao tio ajudar Edith, mas permitira que a mais velha casse em uma armadilha perigosa.
De repente, lembrou-se da referncia a um visitante e virou-se. Deparou com Gifford que, apoiado na bengala, entrava no restaurante.
Cass massageou as tmporas, tentando afastar a dor de cabea que se iniciara havia pouco. O dia no estava indo muito bem e, no momento, ela no se sentia disposta a confrontar Gifford.
Porm, ao v-lo alcanar os degraus, um instinto a impeliu a ajudar.
	No preciso de enfermeira  ele reagiu com irritao, fazendo Cass recuar, sem dizer nada.  Quem era o sujeito com quem estava abraadinha?
	Kirk Weber, mas...
	O interessado em comprar o Paraso Perdido? Pensei que...  Gifford parou de falar ao perceber Edith sentada a uma mesa no fundo do restaurante, de ombros vergados e olhos vermelhos.  Algo errado?
	Tudo!  ela respondeu, sem esconder as lgrimas.
	Quando Kirk apareceu, pensamos que tinha vindo fechar negcio  Cass explicou.  Mas, na verdade, ele veio nos dizer que, embora o dinheiro esteja disponvel, ele no pretende pagar o preo estabelecido.
	Quanto ele est oferecendo?  Gifford inquiriu.
	Metade.
	Uma reduo e tanto.
	Chega a ser um insulto!  Cass protestou.  Antes de colocar a propriedade  venda, Oscar pediu que fosse avaliada. O preo estabelecido foi o que os avaliadores determinaram.
Gifford sentou-se diante de Edith.
	Esse tal de Kirk j no tinha concordado em pagar o preo pedido?
	Sim  Cass respondeu , mas quando mencionei nosso acordo anterior, ele disse que no assinou nenhum documento contendo o valor combinado.
	E isso  verdade?
	No posso dizer com certeza, antes de consultar os advogados, mas Kirk  bastante esperto. Ele sabe que, mesmo tendo o direito de process-lo, Edith no tem condies de tomar nenhuma atitude drstica.
	E verdade  Edith confirmou entre lgrimas.
	Perguntei a Kirk se ele ainda est interessado em comprar a propriedade  Cass explicou , ou se essa  a sua maneira de sair do negcio. Ele respondeu que quer comprar, mas ao preo justo.
	Disse que o preo justo  cinquenta por cento, e sorriu enquanto falava!  Edith lembrou, indignada.  Tambm falou que eu deveria me sentir grata!
	Grata?  Gifford repetiu.
	Kirk alega que ningum mais se interessaria em comprar o Paraso Perdido  Cass falou.  E advertiu Edith para que aceite a oferta, antes que ele decida que cinquenta por cento  demais.
	Ele nos deu vinte e quatro horas para decidir  Edith murmurou com olhar perdido.  Talvez eu deva aceitar e...
	No!  Gifford protestou com veemncia.
	Pode ser pouco, mas  melhor do que nada. E eu preciso do dinheiro  ela declarou com um soluo, antes de se levantar.  Est na hora de cuidar das panelas.
Com isso, Edith desapareceu na cozinha.
	Esse sujeitinho est aplicando um golpe barato  Gifford concluiu.
Cass assentiu.
	E eu deveria ter percebido as intenes dele desde o incio  murmurou, sentindo-se culpada.  Agora,  evidente que a dificuldade para transferir o dinheiro era mentira e que, durante as ltimas quatro semanas, Kirk tratou de se certificar de que era mesmo o nico interessado.
	Lamento dizer que voc est certa.
	Em vez de considerar o negcio praticamente fechado, eu deveria ter procurado os advogados e me inteirado de detalhes. Alm disso, deveria ter exigido maiores informaes sobre Kirk.
	Voc no tem culpa se o sujeito  um oportunista  Gifford declarou, passando um dedo pelo rosto de Cass.  Portanto, pare de se castigar pelo que aconteceu.
	Mas eu deveria ter sido menos ingnua!  ela insistiu, perturbada pelo contato suave.
	Em se tratando de um profissional, como est bvio que ele , seria impossvel saber. Kirk colocou vocs em um beco sem sada. S nos resta fazer o mesmo com ele.
	Como?
Gifford se recostou na cadeira. A partir do momento em que se certificara de que Cass no tinha qualquer intimidade com o sul-africano, Gifford fora tomado por uma profunda necessidade de toc-la.
 Porm, ao faz-lo, havia se sujeitado a uma estranha agonia. Ainda assim, de maneira perversa, sentia o contato, bem como o impulso de confort-la, como sendo a coisa mais natural do mundo.
	Quando ele voltar, amanh, diga-lhe para pegar os cinquenta por cento e... por falta de expresso melhor, guard-los. Isso vai acabar com o blefe.
	E se ele no estiver blefando?  Cass argumentou, preocupada.  Se Edith perder a oportunidade de vender, pode demorar muito tempo para aparecer outro comprador. Afinal, no  qualquer pessoa que se interessa em ser dono de uma pousada como esta.
	S um maluco?  Gifford sugeriu com um sorriso maroto.
Cass tambm sorriu.
	Talvez. Kirk nunca me pareceu muito normal!
	Ele no tem nada de maluco. Muito pelo contrrio. E um patife de duas caras, aplicando um golpe sujo. Mas nem tudo est perdido, pois podemos for-lo a beber do prprio veneno.
Cass limitou-se a fit-lo com expresso de gratido. Por ter trabalhado com ele antes, sabia que poderia confiar no julgamento de Gifford. Era mesmo muita sorte poder contar com ele em um momento como aquele.
	Por que Edith est to desesperada pelo dinheiro?  ele perguntou.
	Porque comprou uma casa em Grand Anse e...
	Grand Anse  a vila  beira-mar pela qual passei, quando vim do aeroporto para c?
	Sim.
	E Edith comprou a casa, contando com o dinheiro de Kirk?
	Exatamente.
	Como voc permitiu tamanha tolice? Pensei que fosse mais esperta, Cass! Afinal, a primeira tentativa de venda foi um fracasso.
		No permiti coisa alguma!  Cass se defendeu,  magoada pelo tom de crtica.  Edith fez o negcio sem me
consultar, antes mesmo de eu chegar na ilha. Pelo que  entendi, ela sempre gostou daquela casa e, assim que recebeu
a oferta de Kirk, tratou de obter um emprstimo bancrio.
Gifford resmungou um palavro.
	Edith  muito inocente  Cass continuou.  Aparentemente, acreditou que o dinheiro da venda do Paraso Perdido se materializaria em uma ou duas semanas.  claro que j teve de pagar a primeira parcela do emprstimo, o que ocasionou um verdadeiro rombo em sua conta bancria. Ela no vai conseguir pagar as prximas prestaes e, se colocar a casa  venda, provavelmente tambm vai demorar para encontrar comprador.
	Mesmo assim, voc deve dizer a Kirk que a proposta de cinquenta por cento  inaceitvel e que o Paraso Perdido s ser vendido pelo preo integral. Trata-se de um jogo e nada  garantido, mas...
	 o que voc faria?
	Sim.
	Ento, darei um jeito de convencer Edith. Gifford ergueu uma sobrancelha.
	Acha que ela vai concordar?
	Provavelmente  Cass respondeu com um sorriso.
	Pelo que estou percebendo, Edith depende de voc para tudo, assim como Stephen  ele comentou com uma careta.  A propsito, Kirk sempre se veste como se houvesse acabado de sair de uma loja?
	Sim. Ao menos, estava vestido assim todas as vezes em que o vi.  Cass baixou os olhos para a bermuda desfiada que estava usando.  Ele me faz sentir uma desleixada.
	Uma desleixada muito desejvel.
O comentrio trouxe  tona lembranas perturbadoras do passado e Cass tratou de mudar de assunto.
	O que o trouxe aqui?
	Vim para o almoo.
	Ah...  ela murmurou, sem conseguir esconder a decepo, pois chegara a acreditar que ele fora at ali para conhecer o filho.
	Vejo que no ficou muito entusiasmada. Sei que no sou santo e que tenho meus defeitos, mas no sou to mau assim.
	No?
	No. Minha encomenda de mantimentos chegou e, agora, tenho o suficiente para me alimentar em casa, mas voc mencionou que Edith  boa cozinheira e decidi experimentar.
Virando-se, Gifford se ps a ler o cardpio escrito a giz em um pequeno quadro negro ao lado do bar. Fora at ali porque sentira uma necessidade insuportvel de ver Cass, mas nada o faria confessar tal segredo.
	Estou em dvida entre o frango ao curry e o peixe ao molho de tomate. Qual dos dois recomenda?  perguntou.
	Os dois.
	Voc no ajuda muito! Veja, seus fregueses esto chegando.
Cass virou-se e reconheceu o carro alugado de Vernica.
	Veja quem encontrei no caminho  a ruiva anunciou entre risinhos, arrastando Jules pelo brao.  Meu barman favorito!
O jovem se desvencilhou dela.
	Infelizmente, serei obrigado a abandonar a minha freguesa favorita e cuidar do bar  declarou, antes de desaparecer na cozinha, revirando os olhos.
	At mais tarde  Vernica despediu-se, animada e, em vez de se dirigir  sua mesa habitual, bem prxima ao bar, aproximou-se de Cass, embora fixasse o olhar interessado em Gifford.  Bom dia.
	Ol  ele replicou.
	Esta  Vernica Milne  Cass apresentou-a.
	Vai almoar aqui?  a ruiva perguntou a Gifford.
	Vou.
	Sozinho?
	Sim.  Eu tambm  ela o informou com um sorriso colegial. Posso me sentar com voc?
Gifford virou-se para Cass com uma mensagem clara no olhar: "Livre-me dessa, pelo amor de Deus!"
Cass exibiu um sorriso largo. Embora ele no fosse o completo vilo que ela havia imaginado, Gifford a conquistara, a levara para a cama e, ento, lhe dera o fora.
	Tenho certeza de que vocs vo se dar muito bem 
declarou.
Os dois pediram salada de lagosta, mas enquanto Vernica apenas petiscava, Gifford devorou seu prato e pediu a conta. Ao entregar o dinheiro a Cass, lanou-lhe um olhar furioso.
	Seu troco, senhor  ela gritou, ao v-lo sair.
	Fique com ele  Gifford retrucou sem olhar para trs.
Cass riu baixinho. Durante o almoo, Vernica falara sem parar, flertando com ele ostensivamente. Ao mesmo tempo, parecera no se dar conta de que o interesse era unilateral.
	Sujeito simptico  elogiou, sentando-se ao balco do bar e segurando a mo de Jules.  Mas voc  muito mais simptico.
Embora o barman guardasse silncio, Cass poderia jurar que o ouvira gemer.
Depois de acomodar o monitor da bab eletrnica na areia, Cass se sentou de frente para o mar. A lua cheia e os milhes de estrelas, alm da brisa agradvel, tornavam a noite perfeita.
Cansada, abraou as pernas e apoiou o queixo nos joelhos. Fora um dia cheio. Kirk Weber havia lanado sua bomba sobre Edith, Vernica passara o dia todo no Paraso Perdido, brincando com Jack e, mais tarde, infernizando Jules, um grande grupo de turistas decidira jantar no restaurante e beber cerveja at tarde. Agora, Cass tentava se concentrar em descobrir a melhor maneira para informar Gifford quem era o verdadeiro pai de seu filho.  
Durante dezoito meses, acreditara ser ele um monstro sem corao, mas acabara descobrindo que Gifford simplesmente no sabia sobre o beb. Por qu?
Cass havia enviado duas cartas. A primeira, informando-o sobre sua gravidez, fora levada por Stephen, em uma de suas visitas comerciais a Boston. A segunda, descrevendo o recm-nascido forte e saudvel, fora endereada para o escritrio da Tait-Hill, com um selo "confidencial" no envelope. Ela havia calculado que Gifford no quisera ler as cartas de uma mulher por quem j no estava interessado.
A ausncia de resposta havia lhe parecido um sinal claro de que ele no queria saber dela, ou do beb. Agora, j no tinha tanta certeza.
E, ainda, tinha de descobrir que tipo de comentrios Stephen fizera, insinuando ser ele mesmo o pai da criana.
Cass se perguntou como Gifford reagiria  revelao.
Ao mesmo tempo em que desejava ardentemente que pai e filho tivessem um relacionamento ntimo e constante, a ideia de ter de falar e se encontrar com Gifford com frequncia no era nada atraente. Se, um dia, ele decidisse, se casar, ela talvez tivesse de ser apresentada  felizarda! Ainda assim, Cass sabia que, pelo bem de Jack, seria capaz de exibir um sorriso brilhante e agir com civilidade.
Um rudo na gua arrancou-a de seus pensamentos. Estreitando os olhos, Cass se deu conta de que algum nadava,  luz do luar. Quando o nadador se aproximou da praia, ela o reconheceu. Era Gifford.
Rapidamente, calculou que ele a vira e que no haveria tempo para fugir. Assim, permaneceu exatamente onde estava. Poucos minutos depois, Cass sentia o corao disparar. Saindo da gua com apenas um diminuto calo de banho, com gotas prateadas escorrendo preguiosamente pela pele bronzeada, Gifford mais parecia um deus do mar.
	A gua est tima  ele comentou, ao se aproximar.
	S esta praia  boa, deste lado da ilha. As demais so repletas de algas e corais  Cass explicou.  S o vi h pouco. Faz tempo que est nadando?
	Mais ou menos meia hora. Fui at o outro lado das pedras.
	Sozinho, a esta hora?  perigoso! Poderia ser atacado por cibras, ou ter se deparado com um tubaro!
	Se algo assim acontecesse, voc se importaria?
	Claro  ela respondeu, embaraada por ter demonstrado tamanha preocupao.  Afinal, voc  um ser humano.
	Ora, obrigado!
	Tambm poderia ter sofrido de indigesto  Cass acrescentou com um sorriso maroto.  Praticamente, engoliu o seu almoo sem mastigar.
	Sobrevivi a isso, tambm  Gifford declarou em tom seco, apanhando a toalha que deixara sob um arbusto.  Embora Vernica seja capaz de matar qualquer um de tdio. No s fala como uma metralhadora, mas tambm  uma verdadeira devoradora de homens.
	Ficou com medo?
	Apavorado. Cass soltou uma   risada.
	Foi por isso que foi embora to   depressa?
	Foi.
	Vernica realmente exagera no assdio aos homens, mas acabou de se divorciar e est muito solitria.
	Muito bem, compreendo o fato de ela estar atravessando uma fase difcil, mas eu me recuso a almoar com ela novamente. Fui claro?
	Clarssimo! Sua perna di?  Cass perguntou, mas logo notou a tenso tomar conta dele.  Desculpe. Acho que fiz uma pergunta idiota.
Depois de fit-la por um momento, Gifford respondeu:
	Sim, di um bocado.
	E, mesmo assim, nadou por meia hora?
	Foi a primeira vez que consegui nadar por tanto tempo, desde o acidente.
	Costuma nadar, em casa? Gifford sentou-se ao lado dela.
	Meu mdico recomendou a natao, mas...
	Voc no obedece porque no tem piscina em casa e acha que a viso de sua perna vai fazer os outros banhistas sarem correndo e gritando  Cass completou.
	Precisa ser to detalhista?  ele inquiriu, irritado.
	Sinto muito, mas no consigo evitar.
	Fui ao clube algumas vezes, mas percebi que as pessoas ficavam espiando e que aqueles que me reconheciam lanavam olhares piedosos, lamentando que uma tragdia to grotesca fosse acontecer justamente com um esquiador de tanto sucesso.
	Ento, voc se sentiu constrangido e no voltou a nadar? Bobagem!
	Aprecio a sua franqueza.
	Mentira. Acha que estou me metendo onde no fui chamada e est furioso.
	No estou furioso, mas gostaria de mudar de assunto. Est pensando em nadar?
	No. Vim para c porque estava sem sono e queria pensar.
	Edith est cuidando do beb?
	No. Eu trouxe a bab eletrnica  Cass explicou, apontando para o monitor a seu lado.  Se ele chorar, estarei no chal em questo de segundos.
	Quando me falou sobre sua vinda para Seychelles, voc disse que queria mudar de ares  Gifford lembrou.  Estava tentando se afastar de Stephen?
	Sim.
Depois de um dia como aquele, Cass no se sentia disposta a dar a notcia a Gifford. Preferia esperar por um momento tranquilo, quando seria mais fcil escolher as palavras certas.
	Vocs dois tiveram uma briga?  ele inquiriu.
	No exatamente. Ainda somos amigos, mas quando eu voltar, o que s vai acontecer depois que o Paraso Perdido for vendido, conforme prometi a Edith, vou me mudar para o meu prprio apartamento.
	O caso de vocs est terminado?
	Nunca houve nada entre mim e Stephen. Gifford ergueu a cabea de sbito, o olhar alerta.
	No?
	No. Stephen se mostrou ansioso para me ter como colega de apartamento, com meu prprio quarto, quando engravidei. Mas, assim que Jack nasceu, o entusiasmo dele se dissipou.
	Stephen no gostou de ser acordado no meio da noite?
	Ele detestou a experincia, assim como no gostou de ouvir o beb chorar durante o dia, nem de ver a cozinha repleta de loua por lavar. Stephen sempre cuidou muito bem da casa e quando Jack cresceu um pouquinho e comeou a mexer nas coisas, babar e, s vezes, vomitar no carpete, Stephen foi ficando mais e mais incomodado. Por isso, quando eu voltar para a Inglaterra, ficarei na casa de meu pai,
	em Cambridge, temporariamente.
   Temporariamente?
Tenho algum dinheiro guardado e pretendo comprar uma casa em Devon,  beira-mar, e abrir uma pequena pousada. Assim, Jack poder ficar comigo o tempo todo. Ele
a minha prioridade.
	Quer dizer que se demitiu da Dexter's?
	Pedi demisso h seis semanas, antes de vir para c.
	Bem que desconfiei que voc no estava exatamente e frias  Gifford comentou com um sorriso.
	Depois que Jack nasceu, concordei em trabalhar meio perodo, por insistncia de Stephen, mas sempre detestei a ideia de deixar meu filho no berrio.
	Stephen queria que voc continuasse trabalhando porque reconhece a prpria incompetncia.
Cass assentiu.
No vai ser fcil para ele, cuidar dos negcios sozinho.
Talvez ele decida deixar a companhia... para profundo lvio de todos.
E possvel. Stephen mencionou o desejo de fazer um rso de decorao, embora o pai v ficar furioso se no houver mais nenhum Dexter na Dexter's  Cass concluiu com um sorriso maroto.
	Seu pai vai gostar de ter voc por perto, ao menos, por algum tempo  Gifford falou, lembrando-se de que Cass lhe contara sobre o pai vivo, que morava sozinho.
	Ah, vai, embora v se esquecer de que estou ali, pela metade do tempo  ela corrigiu com um sorriso carinhoso.  Papai  o tpico professor distrado.
	Ele voltou a se casar?
	No! Ele e mame eram muito devotados um ao outro. Agora, papai  devotado  memria dela. Acho que sempre ser.
Apesar de j fazer dez anos que a me de Cass havia morrido, o pai jamais manifestara o menor desejo de se unir a outra mulher.
	Seu pai  diferente do meu  Gifford falou com expresso tensa.  Meu pai teve trs esposas, sendo minha me a primeira, e uma coleo de namoradas nos intervalos. Quando eu o visitava, na infncia, nunca sabia quem viria me receber na porta.
	Eu no sabia  Cass murmurou, surpresa.
	Quando ficamos juntos, no costumvamos falar sobre nossas famlias. Conversvamos sobre trabalho e fazamos amor. Era demais!
	Era, pelo pouco tempo que durou  Cass replicou em tom seco.
	Deveria ter durado mais  Gifford murmurou, afa-gando-lhe a mo.  Eu gostaria que tivesse durado.
	Ora, no me venha com esse tipo de conversa!
	No acredita? Pois, deveria  ele declarou e se inclinou para beij-la.
O toque dos lbios de Gifford provocou uma corrente el-trica que percorreu todo o corpo de Cass, fazendo cada partcula de seu ser tomar vida. Ela estremeceu, sentindo o reconhecimento instantneo de seus corpos. Ergueu as mos na inteno de empurr-lo, mas naquele exato momento o beijo tornou-se mais intenso.
O sangue ferveu em suas veias e suas mos imobiliza-ram-se. Dezoito meses antes, Gifford fora capaz de excit-la com facilidade surpreendente. Agora, estava obtendo o mesmo efeito. Cass nunca mais fizera.amor, desde sua ltima vez com ele. Apesar de atordoada e frustrada por descobrir que ainda desejava aquele homem, viu-se obrigada a admitir para si mesma que ainda o amava.
Voc tambm no acha que deveramos ter ficado juntos por mais tempo?  ele perguntou, quando finalmente
interrompeu o beijo.
Por nada no mundo Cass confessaria quanto sofrera pelo trmino precoce daquele relacionamento.
Voc s pode estar brincando!  exclamou.
Gifford fitou-a em silncio. Ento, com gestos delicados, forou-a a deitar-se na areia, inclinou-se sobre ela e voltou a beij-la. Como se tivessem vida prpria, as mos de Cass deslizaram pelos ombros dele, at pousarem em sua nuca. Embora soubesse que sua submisso contradizia o que acabara de dizer, alm de no fazer o menor sentido, ela se descobriu incapaz de reagir.
Ao sentir a mo dele sobre um de seus seios, estremeceu, ao mesmo tempo em que uma onda de calor tomava conta de suas entranhas, tornando o desejo quase insuportvel.
	No estive imaginando coisas  Gifford declarou ao descolar os lbios dos dela.
	O que disse?  Cass indagou, abrindo os olhos.
	Cheguei a me perguntar se no estaria exagerando em minhas lembranas da qumica entre ns dois. A resposta  no.
	No?
	No. Trata-se de uma qumica poderosa, que ainda exerce seu efeito, como antes.  como se...
	M!
Ao ouvir o grito metlico que soou a poucos metros de onde estavam, Cass deu um pulo. Gifford virou-se.
	Que diabos...
	 Jack  ela falou apressada, pondo-se de p.  Ele est chorando.
	O que estivera fazendo, afinal? Enquanto limpava a areia da bermuda, Cass concluiu que fora um misto de solido, desejo contido e... sim, amor, o que a levara a um comportamento to absurdo. Mas, como era mesmo o ditado? "Gato escaldado tem medo de gua fria". Ora, seria possvel que ela no houvesse aprendido nada de seus erros anteriores? No havia jurado que seu ex-amante seria mantido a distncia e que seu relacionamento se manteria em terreno neutro?
	Ele no me parece nem um pouco feliz  Gifford comentou ao ouvir um segundo grito.  Est com fome?
	Acho que no. Jack se vira de barriga para baixo, mas ainda no aprendeu a desvirar. Ento, acorda, descobre que no tem como se mover e chora. Provavelmente,  o que est acontecendo agora. Preciso entrar  Cass explicou, apanhando a bab eletrnica.
	Vou com voc at o chal. Jack no poderia ter escolhido momento mais perfeito.
	Como?  Cass inquiriu, fitando-o pelo canto do olho.
	Com seu choro potente, seu beb nos impediu de ir adiante, de...
	J entendi  ela o interrompeu.
Assim como entendia que Gifford tambm se arrependera do breve interldio. Assim como ela, fora tomado pela atrao fsica, mas agora se sentia aliviado por ter tido uma chance de escapar.	
Ele me parece bastante zangado  Gifford comentou, quando chegaram ao chal.
Com um sorriso maroto, Cass assentiu em concordncia. Durante os poucos minutos que haviam transcorrido at ento, os gritos de Jack haviam aumentado em frequncia e volume.
Boa noite  ela se despediu e entrou.
Com passos rpidos, atravessou a sala escura e entrou no quartinho minsculo, onde a luz suave de um abajur iluminava o bero de pinho. Dentro dele, o beb, de bruos, agitava braos e pernas em uma tentativa intil de se libertar da posio incmoda.
	Est tudo bem, pipoquinha  Cass murmurou com voz carinhosa.  Mame est aqui.
Quando o retirou do bero, Jack emitiu um ltimo soluo e se acalmou. Por alguns momentos, ela se limitou a desfrutar da deliciosa sensao de ter o filho nos braos. Ento, depois de beijar-lhe a testa, inclinou-se para devolv-lo ao bero.
	Agora, trate de dormir de novo  sussurrou, embora o garotinho emitisse um protesto indignado.
Estava embalando Jack para faz-lo dormir, quando se deu conta da presena de Gifford, parado na porta. A constatao inesperada agitou-lhe as emoes.
	O que voc quer?  inquiriu em tom rude.
	Entrei para lhe dizer que se quiser fazer exerccios amanh de manh, aparea...
As palavras morreram em seus lbios. Embora no entendesse nada sobre bebs, Gifford esperara encontrar uma criana muito pequena e indefesa. Aquele, porm, era um garoto forte e saudvel, j capaz de manter as costas eretas. Alm disso, Stephen Dexter tinha cabelos loiros, enquanto o garotinho era moreno... como ele.
Que idade ele tem?  perguntou a queima-roupa.
Com o corao aos saltos, Cass constatou que no teria
a chance de esperar pelo momento adequado para fazer a grande revelao da melhor maneira possvel, conforme havia planejado.
Nove meses.
Gifford fitou-a por um longo momento. Ento, olhou para o beb e voltou a encar-la. Sua mente mergulhou em um caos de ideias e emoes.
	Meu Deus!  murmurou, afinal.  Ele  meu filho. Cass engoliu em seco.
	Sim.
Ele voltou a olhar para Jack. S depois do que pareceu uma eternidade, voltou a falar:
Por que no me contou? Tenho um filho, mas durante nove meses voc o escondeu de mim.
	 Nem sequer tentou me informar de que sou o pai. Como pde fazer isso?
O tom de voz rude e furioso assustou Jack, que comeou a chorar.
	Calma, pipoquinha, calma  Cass apressou-se em murmurar, aconchegando o filho contra o peito.  Informei voc, sim!  sussurrou, igualmente furiosa.  Escrevi duas cartas. Lembra-se?
	Nunca recebi carta nenhuma.
	No as rasgou?
	No.
	Tem certeza?  ela desafiou.
	Absoluta.
	Bem, eu as enviei para voc  Cass insistiu, embalando Jack, que parecia se recusar a parar de chorar.  Mandei a primeira...
	Esquea  Gifford interrompeu.  No conseguiremos conversar agora. V at a manso, amanh e leve o beb.
CAPITULO IV

	Cuidado com as orelhas  Cass advertiu. Ento, enfiou a blusa pela cabea de Jack e ajeitou-lhe os bracinhos pelas mangas. Segurando-o pelas mos, colocou-o de frente para o espelho.
	Veja s, que gato!  elogiou com um sorriso.
O garotinho agitou-se e emitiu gritinhos de alegria, em sua roupinha que imitava o uniforme de um marinheiro.
	Como o sol est muito forte, vai ter de usar isto  Cass falou, encaixando o pequeno bon de beisebol na cabea do filho.
Imediatamente, Jack ergueu a mozinha para tir-lo. Assim, Cass repetiu a ordem, ao mesmo tempo em que lhe entregava um carrinho de plstico a fim de distra-lo. Deu certo.
Como era dia de excurso, depois do caf da manh, Cass havia arrumado as mesas, ajudado a lavar verduras e preparado uma imensa travessa de salada de frutas. Cumpridas suas tarefas, informara Edith de que precisava falar com Gifford.
	Voltarei bem antes do meio-dia  afirmara.
	Mas, agora, vai trocar de roupa, no vai? Cass baixara os olhos para as roupas largas.
	Claro!
Edith soltara uma risada maliciosa.
	Foi o que pensei. Vocs dois parecem um tanto... ntimos.
	Ns nos conhecemos h muito tempo  Cass explicara em tom vago, antes de sair apressada, pois no se sentia disposta a dar maiores explicaes no momento.
Examinou o prprio reflexo no espelho pela ltima vez. Por sentir que precisava de toda a confiana possvel a fim de enfrentar aquele encontro, lavara e secara os cabelos, alm de maquiar o rosto com cuidado especial. Tambm fora cuidadosa na escolha do vestido: um modelo decotado, de tecido branco bem leve, que lhe realava o bronzeado, alm de disfarar a barriguinha saliente.
Pegou o filho e saiu com ele nos braos. O caminho at o bangal era ngreme e irregular, o que dificultava o uso do carrinho.
	Quando conheceu seu pai, ontem  noite, voc estava berrando como um desesperado, o que no foi a melhor das apresentaes  falou ao garotinho, enquanto caminhava ao sol.  Hoje, trate de se comportar. Precisa ser um menino bonzinho, conquistar seu pai e faz-lo amar voc. Compreendeu?
Jack atirou-se para um arbusto, tentando arrancar as florzinhas coloridas. O movimento brusco quase o fez cair dos braos da me e perturbou a paz de dois passarinhos, que voaram assustados.
	Est se transformando em um destruidor  Cass resmungou.
Jack riu.
Depois de ajeitar o filho nos braos, Cass suspirou. Embora houvesse passado metade da noite ensaiando o que tinha a dizer a Gifford, sentia-se mais insegura do que nunca. Depois das doze horas que ele tivera para digerir a ideia de ser pai, qual seria a recepo reservada a ela?
Iria Gifford se mostrar interessado no filho... ou ressentido? Agiria com apatia, ou estaria disposto a assumir a responsabilidade da paternidade? Por mais que a ideia de manter contato constante com ele a afligisse, era exatamen-te o que Cass desejava. Pelo bem de Jack, claro.
	Ser que seu pai est se exercitando?  perguntou a Jack, mas logo descobriu que a sala de ginstica encon-trava-se deserta.
Deu a volta na casa e constatou que tambm no havia ningum na cozinha, no escritrio, ou na sala de estar. Voltando  frente do bangal, Cass perguntou-se se Gifford estaria dormindo, apesar de j passar das dez e meia. Talvez ele houvesse cansado de esperar e fora nadar no mar.
S ento percebeu que a porta da frente encontrava-se aberta. Tocou a campainha e esperou. Ningum apareceu. Bateu na porta. Nada.
	Ser que ele saiu?  perguntou a Jack, que riu com alegria, sem fazer ideia da importncia daquele encontro em sua vida.
Cass entrou e chamou:
	Gifford?
No obteve resposta, mas ouviu o barulho de gua. Certamente, ele estava tomando banho e no a ouvira chegar.
	Vamos avis-lo de que estamos aqui  Cass falou ao filho.
Seguiu pelo corredor, at chegar  suite decorada com luxo e bom gosto.
Gifford estava no banheiro, de lado para a porta, barbeando-se. Aparentemente, acabara de tomar banho, pois os cabelos apresentavam-se molhados e gotas de gua brilhavam sobre seus ombros. Concentrado no que fazia, no percebeu que tinha companhia.
Diante da viso do corpo bronzeado, coberto apenas pelo short, Cass sentiu o corao acelerar. Seu olhar fascinado tornou-se prisioneiro dos msculos bem desenhados,  medida que lembranas vivas de momentos de paixo invadiam-lhe a mente.
	M!  Jack gritou, agitando os bracinhos.
Sobressaltado, Gifford virou-se e os viu. No mesmo instante, sentiu um n na garganta. Na vspera, quando vira o filho, no sentira qualquer lao entre eles, nenhuma ligao gentica, ou impulso afetivo. Nada, exceto curiosidade.
Mais tarde, sentado na varanda, bebericando uma dose de usque, conclura que no possua motivo para sentir qualquer coisa. 
Afinal, no estivera presente quando do nascimento de Jack e, durante os primeiros nove meses de vida do menino, nem sequer soubera de sua existncia. O que significava, calculou, que era tarde demais para sentir alguma coisa, pois o momento de estabelecer um vnculo emocional havia passado.
Agora, porm, descobria que no era tarde demais. As emoes agitavam-lhe o peito e, embora ele no fosse capaz de defini-las, elas o faziam ter vontade de gritar para o mundo que aquele garotinho lindo e saudvel era seu filho.
	Desculpe-me por ter entrado  Cass falou, subitamente consciente de que invadira a casa e o espionara por algum tempo , mas toquei a campainha, chamei e...
	No ouvi voc chegar. Pensei que ouviria. Foi por isso que deixei a porta aberta  Gifford falou e sorriu para Jack.  Voc parece bem mais feliz, hoje.
Por um longo momento, Jack fitou-o com ar solene. Ento, estendeu os bracinhos para ele.
Cass ficou surpresa. Embora fosse amigvel e carinhoso. com pessoas que conhecia, seu filho costumava demonstrar desconfiana com relao a estranhos, especialmente, homens. Ora, seria possvel que os laos de sangue fossem assim to fortes? Bem, de uma maneira ou de outra, Jack parecia mais que ansioso para se ver nos braos do pai.
	Seu filho  ela declarou, estendendo-lhe a criana.
Gifford hesitou.	
	Meu filho  murmurou com voz grave, antes de segur-lo.
Enquanto observava os dois, Cass sentiu um n formar-se em sua garganta. Gifford olhava para Jack com a mesma emoo que ela sentira pelo filho, quando ele nascera. Assim como ela, parecia fascinado pelo milagre da criao e pela ideia de que ajudara aquele ser humano a se tornar real.
	Voc  um lindo garotinho  Gifford murmurou com voz rouca e, quando ergueu os olhos, as lgrimas os tornavam muito brilhantes.
Uma onda de alvio e alegria tomou conta de Cass. O pai ausente no era indiferente, ou hostil. Aceitara o filho e j mostrava sinais de afeio pelo menino. O que era um bom comeo. As sementes de um relacionamento profundo acabavam de ser plantadas.
	Tambm acho  ela concordou , mas sou suspeita.
Gifford devolveu-lhe o sorriso.
	Eu tambm  falou.  Mas estou sentindo uma dor horrvel.
	Sua perna est doendo?
	No. Jack agarrou os plos do meu peito e est puxando ... acho que est tentando me matar!
Cass soltou uma gargalhada.
	Trate de distra-lo  sugeriu, ao mesmo tempo em que tirava o bon da cabea de Jack e o estendia para ele.
Acabou de acordar?  perguntou a Gifford.
	No. Estou de p desde sete horas.
E passei a noite inteira em claro, pensou em silncio, refletindo sobre as implicaes de ter um filho.
	Mas, quando estava tomando meu caf, lembrei-me  encrenca em que Edith se meteu, com a venda do Paraso Perdido  continuou.  Ocorreu-me que um guia para idiotas, sobre compra e venda de imveis, poderia ser til. Quem sabe, tambm, um guia para idiotas, sobre como administrar m pequeno negcio. Calma!  protestou, quando Jack comeou a agitar o bon de um lado para outro.  Ento, fui at o escritrio para fazer algumas anotaes e acabei me distraindo.
	Pretende escrever esses guias?
	Sim, mas, em primeiro lugar, farei um esquema geral para mostrar a um editor. Talvez no d em nada, mas ao menos me dar o que fazer, enquanto estiver aqui.
	Nunca acreditei que voc fosse conseguir ficar muito tempo sem fazer nada  Cass confessou com um sorriso maroto.
Gifford deu de ombros.
	 melhor do que assistir ao Pernalonga na tev a cabo. Aceita um caf?
	Sim, por favor. Quer que eu fique com Jack, enquanto voc se veste?
Gifford assentiu, entregou-lhe o beb e, depois de vestir uma cala jeans e uma camisa de mangas curtas, levou-a para a cozinha.
	Imagino que Jack v querer brincar enquanto conversamos  ele falou, exibindo trs bolas de tnis amarelas, dentro de um tubo de plstico.  Que tal? 
	Perfeito  Cass concordou, sentando Jack no tapete e entregando-lhe as bolinhas.  So todas suas.
Jack apanhou uma delas e atirou-a na direo de Gifford.
	Muito bem!  o pai encorajou, antes de chut-la de volta.
O garotinho observou a bola passar por ele e, ento, dis-traiu-se com o tubo de plstico.
	Tpico da idade  Cass comentou.
	Ontem  noite, voc mencionou uma carta  Gifford falou, j preparando o caf.
	Duas.
Cruzando os braos sobre o peito, ele voltou a encar-la. A expresso tranquila deu lugar ao olhar tenso e frio.
	 verdade que as enviou para mim?  inquiriu.  Ou, quando descobriu que estava grvida, decidiu no me contar porque achou que isso complicaria as coisas, pois eu havia apenas lhe prestado um favor?
	No decidi nada disso!  Cass protestou com firmeza.
	Hoje em dia, muitas mulheres consideram os pais de seus filhos como descartveis. Esperam que o companheiro as engravide para, ento, dizer adeus.
	No sou assim. Acredito que toda criana precisa de um pai que lhe d amor e segurana, alm de ajud-la a crescer e se tornar um adulto confiante e equilibrado. E no costumo mentir!
Gifford examinou-a com olhar desconfiado, antes de servir o caf.
     Era obrigado a admitir que seu cinismo e desconfiana se deviam ao seu velho e querido pai.
	Acredito em voc  declarou.
	No tem porque no acreditar..
	Minha acusao foi injusta e eu peo desculpas. Sei que sua integridade no lhe permitiria tomar uma atitude absurda como essa.
	Obrigada. Como j disse, enviei duas cartas. A primeira dizia que eu estava grvida. A segunda avisava voc sobre o nascimento de Jack. Dei a primeira a Stephen, para que entregasse a voc quando fosse a Boston. Ele me garantiu que a havia entregado.
	No me entregou coisa alguma. Contou a ele sobre o contedo da carta?
	No, pois achei que o assunto s dizia respeito a mim e a voc  Cass falou e franziu o cenho.  Talvez Stephen tenha perdido a carta e no teve coragem de me contar.
	Duvido. Meu palpite  de que ele adivinhou que a carta continha alguma informao importante para mim e, simplesmente, decidiu no entreg-la. Ele pode ter resistido  tentao de pagar um mercenrio para me matar, mas nunca escondeu seu dio por mim.
Cass assentiu em concordncia.
	Stephen se ressente do fato de que voc, fazendo parte da Tait-Hill, comprou a Dexter's e, com isso, exps a ineficincia dele. Assim como se ressente do fato de voc ser bem-sucedido em tudo o que faz.
	Para no mencionar quanto ficou irritado ao descobrir que voc e eu nos entendamos to bem. Embora no fosse seu namorado, Stephen era possessivo com relao a voc e me via como um intruso. Foi por isso que, quando telefonei, ele no escondeu o prazer que tinha em me contar que voc havia se mudado para o apartamento dele.
	Disse que telefonou para Stephen, para saber de mim?
	Sim. Estava me sentindo mal pelo modo como... terminei o nosso relacionamento.
	Achou que foi abrupto demais?  Cass sugeriu.
	Sim, mas no acreditei que tivssemos futuro e...  Gifford parou de falar, como se sentisse incerteza quanto ao que pretendia dizer.
	Tambm no acreditei  Cass mentiu.
	Certo. Bem, de qualquer maneira, telefonei para saber como voc estava passando.
	Por que no falou diretamente comigo?
	Voc no estava no escritrio e, por alguma razo, a telefonista transferiu a ligao para Stephen. Ele deu a entender que vocs dois estavam juntos e que logo... formariam uma famlia.
Cass franziu o cenho.
	Se falou com ele no inverno, eu estava grvida.
	Isso mesmo. Depois da minha conversa com ele, lembrei-me do que voc disse sobre ele ser como um irmo mais novo e disse a mim mesmo que Stephen no fazia o seu tipo. Por outro lado, achei que o relacionamento poderia ter mudado e, pelas indiretas que ele havia dado antes, acreditei que Stephen sempre estivera interessado em voc. Ento...  Gifford parou de falar quando Jack soltou um de seus gritinhos.  O que houve, pirralhinho?
O tubo de plstico havia rolado para longe e o beb esticava-se para tentar alcan-lo, mas a perna dobrada  sua frente impedia qualquer progresso. Endireitando as costas, Jack estendeu os bracinhos e gritou a plenos pulmes:	-.
	D!
Cass foi at l e entregou o tubo ao filho, antes de recolher as bolinhas espalhadas.
	Ele est louco para engatinhar, mas ainda no descobriu como faz-lo. Por isso, anda muito frustrado.
	Sei como ele se sente  Gifford declarou em tom brusco.  Quando enviou a segunda carta?
	Em maro, quando Jack completou um ms.
	Foi em maro que sofri o acidente. Enviou a carta para o meu apartamento?
	No tinha o seu endereo e, assim, mandei-a para o escritrio.
	Provavelmente, minha secretria a colocou junto aos cartes estimando as minhas melhoras, que ela levou ao hospital. A verdade  que logo me cansei de abrir cartes contendo personagens sorridentes de desenho animado, com mensagens piegas e encorajadoras. Por isso, acabei jogando tudo fora, sem abrir a maior parte dos envelopes. Sei que no deveria ter feito isso, pois as pessoas s estavam tentando ser amveis, mas...
	Estava sentindo pena de si mesmo?
	Acho que sim  ele respondeu, deixando evidente no olhar um misto de dor, resignao e cansao. Ento, virou-se para Jack, que tentava mastigar o tubo plstico.  Quando no respondi suas cartas, voc deveria ter telefonado.
Cass assentiu.
	Pensei nisso vrias vezes e, uma vez, cheguei a discar o nmero de seu escritrio, mas...
	Mas o qu?
	No queria persegui-lo, nem fazer o papel de vtima. Gifford exibiu um sorriso amargo.
	Esse risco nunca existiu.
Os dois permaneceram em silncio por um longo momento, observando o filho que brincava.
O fato de ele no ter respondido as cartas certamente havia parecido uma sequncia lgica para a maneira abrupta como havia encerrado seu relacionamento com Cass, Gifford refletiu. Porm, dera-se conta de que estava se apaixonando por ela, pensando at mesmo em casamento... e fora tomado por uma necessidade desesperada de fugir. Afinal, sua experincia com casamento, ou melhor, com os casamentos de seu pai, havia produzido um efeito arrasador.
	Jack se parece comigo  comentou.
	Sempre me perguntei se voc notaria a semelhana, quando o visse. E voc percebeu.
	Sim, embora tenha sido difcil aceitar a verdade. Ontem  noite, fiquei surpreso ao descobrir que Jack no se parecia nem um pouco com Stephen.
	 Ento, quando voc me contou a idade dele... foi quando me dei conta de que Jack deveria ser meu filho.  Gifford sacudiu a cabea.  Foi um choque to grande, que custei a acreditar.
	Quando descobri que estava grvida, tambm fiquei chocada.
	Posso imaginar. Faz ideia de quando aconteceu?
	Na manh em que voc partiu para os Estados Unidos.
Seus olhares fixaram-se um no outro.
	Quando voc tirou a roupa e entrou no chuveiro, comigo  Gifford lembrou-se. Voc me pediu para fazermos amor e eu estava to excitado que nem pensei em...
	Cometemos um erro  Cass o interrompeu, pois no queria relembrar aqueles momentos erticos.
	Quando descobriu que estava grvida, no pensou em... abortar?
	No, mas quando no recebi nenhuma resposta sua s minhas cartas, fiquei imaginando se voc tinha esperana de que o seu silncio me levasse nessa direo.
	Eu jamais tentaria uma manobra to baixa!  ele protestou, ofendido.  Voc dizia que no se sentia pronta para casar, ao menos, por algum tempo.
	Mudei de ideia. E uma prerrogativa feminina  ela falou em tom casual.
Apesar de, dezoito meses antes, Cass ser uma mulher feliz com sua carreira profissional, jamais lamentara, nem por um momento sequer, o nascimento de Jack. Mesmo que a chegada do filho houvesse virado sua vida de pernas para o alto.
	Fao questo de lhe oferecer ajuda financeira  Gifford declarou.
Como j imaginava que tal oferta seria feita, Cass tinha a resposta pronta:
	Obrigada. Aceitarei ajuda para as despesas com Jack, mas no quero nada para mim.
	Voc deixou seu emprego para ficar com ele  Gifford argumentou, com uma pontada de impacincia.  E essa ideia de administrar uma pousada pode no render muito dinheiro.
	Darei um jeito.
	Por que "dar um jeito", quando tenho dinheiro sobrando? Posso, perfeitamente...
	No!
	Precisa ser to teimosa?
	Quero ser o mais independente possvel. E muito importante para mim  Cass insistiu.
	No se sente inclinada a ser sustentada por um homem?
	No, obrigada.
Gifford ergueu as mos em um gesto de rendio.
	A escolha  sua. No fao ideia de quanto  necessrio para alimentar e vestir uma criana. Acha que cinco mil dlares por ms, depositados na sua conta bancria, sero suficientes? Providenciarei a quantia retroativa  data em que Jack nasceu.
	Cinco mil  dinheiro demais!  Cass protestou.
	Posso pagar e  importante para mim  Gifford anunciou em um tom que no deixava lugar para discusso.
Ela suspirou.
	Calcularei meu oramento mensal e, ento, voltaremos a discutir o assunto.
	Est bem. Voc disse que no teve um caso com Stephen. Quer dizer que nunca teve qualquer intimidade com ele?
	Nunca.
	Quando disse que tinha um filho, imaginei que vocs dois haviam tido um envolvimento passageiro.
	Achou que eu havia precisado de consolo, depois da sua partida?  Cass desafiou.
Gifford franziu o cenho. Embora a reao de Cass ao trmino do relacionamento entre eles houvesse parecido bastante tranquila e casual, Gifford sempre se perguntara se ela no estivera fingindo. Mas, talvez, fosse apenas seu desejo que ela houvesse fingido. Talvez ele estivesse apenas enganando a si mesmo.
	Achei possvel  respondeu.
	Pois no foi nada disso. Alm do mais, no costumo me envolver em casos passageiros.
	Para ser sincero, achei que isso no seria do seu feitio. E, s para sua informao, esse tipo de relacionamento no faz o meu gnero, tambm. Stephen tentou alguma coisa com voc?
	No. Como voc mesmo disse, ele no faz o meu tipo. E eu no fao o tipo dele.
	Mesmo assim, ele sugeriu que voc se mudasse para o apartamento dele.
	Sim, mas alm de estar me ajudando, Stephen estava ajudando a si mesmo. H anos, o pai dele vem tentando for-lo a se casar com a filha de um vizinho, um juiz muito influente  Cass explicou.  Henry  um esnobe e um casamento assim lhe traria muitas vantagens. Passou a convidar a garota para todos os jantares em sua casa e fez o possvel para atir-la nos braos do filho, mas Stephen no est interessado nela.
	Conhece a moa?  Gifford indagou.
	Uma vez, quando ela foi buscar Stephen no escritrio para lev-lo a uma festa, fomos apresentadas. Ela me pareceu simptica, embora um tanto sem graa. A minha mudana para o apartamento de Stephen deu a ele a oportunidade de insinuar que possua outro relacionamento. E, se insinuasse que eu estava esperando um filho dele, certamente se livraria de vez da garota e da presso do pai.
	Ento, admite que Stephen fez para outras pessoas o mesmo tipo de insinuaes que fez para mim?
	E comum homens e mulheres dividirem apartamentos, sem estarem envolvidos. Quando me mudei para l, imaginei que todos veriam a situao como realmente era. Afinal, eu pagava aluguel para Stephen e tinha meu prprio quarto, alm de uma vida social  parte. 
Mas,  medida que o tempo foi passando, o pessoal do escritrio comeou a fazer comentrios estranhos que me levaram a pensar no que Stephen andava dizendo. Na ocasio, no dei muita importncia  questo, mas agora...  Cass suspirou.  Estou desconfiada de que ele espalhou o boato de que Jack era filho dele, mas pediu s pessoas que mantivessem a informao em segredo.
	Ningum jamais fez algum comentrio direto com voc?
	No. Tudo no passava de insinuaes vagas.
	O sujeito no tem uma namorada?
	Nunca teve, desde que o conheci. Gifford ergueu as sobrancelhas.
	Acha que ele  gay?
	E possvel  Cass admitiu.  Mas, se for, disfara muito bem.
	Por ter medo da reao do pai?
	Sim. E a inteno de esconder alguma tendncia desse tipo pode ter sido outra razo para ele ter me instalado em seu apartamento.
	Seria bom se ele conseguisse deixar a firma e escapar da influncia de Henry.
	Concordo. Stephen precisa crescer e se tornar dono de si. Ele...
Cass parou de falar. Jack tossiu e, .quando ela se virou para ele, o garotinho estava muito vermelho.
	Ele engoliu alguma coisa  declarou, ajoelhando-se ao lado do filho em um movimento relmpago.  Ah, meu Deus! Ele est engasgado!
Na tentativa de retirar o que quer que Jack tivesse na garganta, ela enfiou um dedo na boca do menino, mas ele se contorceu, e impediu que ela atingisse seu objetivo. Jack voltou a tossir, tornando-se cada vez mais vermelho, mas mantendo os lbios firmemente pressionados.
	Por favor, Jack, por favor!  Cass implorou, desesperada, mas foi em vo.
Sem dizer nada, Gifford levantou-se, aproximou-se dos dois e deu um tapa nas costas de Jack. O menino voltou a tossir e, dessa vez, um pedao de papel, parte do rtulo do tubo plstico, aterrissou no carpete.
	Muito bem!  Gifford elogiou.
Ainda aflita, Cass tomou o filho nos braos e apertou-o contra si.
	Ah, Giff, obrigada!  agradeceu, aliviada.  Pensei que ele fosse se asfixiar e...
	E entrou em pnico.
	Sim. Costumo me manter calma na maioria das situaes, mas quando se trata de Jack...
	As mes costumam exagerar em sua preocupao com os filhos. Faz parte da natureza humana  Gifford declarou e beliscou a bochecha de Jack.  Voc deixou o papai preocupado, tambm, rapazinho. Portanto, nada mais de engolir pedacinhos de papel. Compreendeu?
Quando Jack soltou uma de suas risadinhas, Cass foi invadida pela deliciosa sensao de, os trs juntos, formarem uma famlia. Pousou a mo sobre a de Gifford.
	Obrigada por ter me socorrido. Ele levou a mo dela aos lbios.
	s ordens.
O contato dos lbios quentes com sua pele, bem como a profundeza daqueles olhos cinzentos, fizeram o corao de Cass acelerar suas batidas.
Retirando a mo, ela consultou o relgio.
	O tempo voa  concluiu com um sorriso.  Obrigada pelo caf e por ter salvo Jack da asfixia. Agora, preciso voltar ao restaurante para servir os turistas.
	Tem o telefone de alguma companhia de txi?  Gifford perguntou, enquanto a acompanhava at a porta.  Preciso comprar comida e papel para datilografar.
	Para trabalhar no seu guia para idiotas?
	Exatamente. S sei datilografar com dois dedos, mas minha caligrafia  quase ilegvel. Deve se lembrar de que, s vezes, eu mesmo encontro dificuldade em entender o que escrevi.
Cass sorriu.
	Sim, eu me lembro. Temos o nmero de um ponto de txis, no restaurante. No pensou em alugar um carro?
	Sim, mas a locadora no tinha nenhum carro automtico para oferecer e, com minha perna nestas condies,
seria impossvel usar a embreagem para mudar as marchas.
Cass franziu o cenho. Aquele era um problema causado pela perna ferida de Gifford, no qual ela no havia pensado. Certamente, existiam outros.
	Vou at Grand Anse para comprar mantimentos,  tarde. Se quiser, posso lev-lo  ofereceu.  Sairei assim que o grupo de excurso deixar o restaurante, por volta das duas horas. Assim, estarei de volta s cinco e quinze, para conversar com Kirk Weber.
Gifford assentiu em concordncia.
	Est bem.
	Obrigada por ter se oferecido para arcar com as despesas de Jack.  Cass hesitou, escolhendo as palavras.  Est disposto a ser um pai presente,  medida em que ele for crescendo? Pretende v-lo com frequncia?
O semblante de Gifford se fechou, escondendo suas emoes.
	No creio que seja uma boa ideia  ele disse.
Cass ficou confusa. Afinal, os dois pareciam ter se dado to bem.
	Mas voc gosta dele?
	Sim.
	Lev-lo em viagens de frias ocasionais no o prenderia.  claro que o fato de voc viver do outro lado do Atlntico torna as coisas um pouco complicadas, mas...
	No daria certo  Gifford interrompeu.  No seria o melhor para ele.
	Por qu?
	Porque no.
	A ideia de cuidar de uma criana no o agrada? Seria s de vez em quando e...
	Esquea.
Cass reprimiu as lgrimas. Talvez as probabilidades sempre houvessem estado contra Gifford se interessar pelo filho a longo prazo. Afinal, ele prezava sua liberdade acima de tudo. Porm, ouvi-lo negar tal interesse, quase negar a prpria existncia de Jack, era doloroso demais.
Apertando o beb contra si, Cass exibiu um sorriso gelado.
	A escolha  sua  declarou.

CAPITULO V

Gifford guardou a ltima sacola de compras no carro e se acomodou no banco do passageiro.
	Bem a tempo  comentou, apontando os pingos de chuva que comeavam a cair.
	Parece que vamos ter um temporal  Cass previu.
Enquanto faziam suas compras, nuvens escuras e pesadas haviam coberto o cu.
	Esta coisa resiste  chuva?  Gifford inquiriu,  lanando um olhar duvidoso para o carro.
Estavam no velho jipe amarelo e enferrujado do tio de Cass. Alguns dos pinos que prendiam a capota de lona s laterais encontravam-se quebrados, o que impedia que o veculo fosse adequadamente fechado.
	No sei  Cass respondeu, colocando o automvel em movimento.  Nunca dirigi na chuva, desde que cheguei aqui. Mas, se tivermos sorte, chegaremos antes da tempestade desabar.
	Jack gosta de andar de carro?  Gifford perguntou, lanando um olhar para a cadeirinha de segurana, no banco traseiro.
Ao dar-se conta de que havia muito sobre o filho que ele ainda no sabia, Gifford apertou com fora o cabo da bengala que posicionara entre os joelhos. E, pensando que haveria muito que jamais viria a saber, seu rosto tornou-se plido.
	Ele adora  Cass respondeu, pensando no filho que, por estar dormindo, ficara aos cuidados de Edith, no Paraso Perdido.  Jack gosta do balano provocado por buracos e lombadas. Por isso, para ele, passear no jipe  o mximo.
Sorriu enquanto falava em tom alegre. Embora a recusa de Gifford, horas antes, em desempenhar um papel ativo na vida do filho, parecera uma grande catstrofe, ela conseguira recuperar a compostura. Possua fora e determinao. No costumava ceder com tamanha facilidade e no se daria por vencida.
Afinal, Cass refletira, a situao com Gifford era exatamente o que ela havia acreditado ser no incio da semana. Portanto, estava de volta ao incio. Nada mudara e ela no poderia mudar coisa alguma. A recusa dele em sequer conversar sobre o assunto deixava isso bem claro.
	Droga!  praguejou, ao mesmo tempo em que ligava o limpador de pra-brisa.
Poucos minutos depois, a chuva torrencial caa ruidosamente sobre a capota de lona.
Cass franziu o cenho ao examinar a estrada estreita  sua frente. Em Grand Anse, as ruas asfaltadas apresenta-vam-se em boas condies, mas  medida que se afastavam da pequena comunidade, o asfalto ia desaparecendo, at o caminho se transformar em terra vermelha misturada a pedregulhos, com buracos de tamanhos variados. Alguns faziam lembrar o Grand Canyon.
	V devagar  Gifford advertiu quando, ao desviar de um buraco, ela passou perigosamente perto de outro.  Quem pensa que ? Algum piloto de Frmula Um?
Cass pisou de leve no freio. Estivera mesmo em velocidade um pouco alta e a estrada se tornava cada vez pior. Ento, olhou pelo plstico que fazia as vezes de janela. Desde que chegara na ilha, o mar estivera azul e cristalino, mas naquela tarde, a gua se mostrava cinza-chumbo, com grandes ondas a quebrar com violncia na praia. A brisa se transformara em vento forte, que vergava as palmeiras.
Uma lufada fez o jipe balanar.
	Reduza a marcha  Gifford instruiu.
Depois de um momento de hesitao, Cass engrenou a terceira marcha com um gesto irritado.
	Gostaria de saber por que os homens sempre se consideram melhores do que as mulheres ao volante  murmurou em tom cido.
Gifford exibiu um sorriso confiante e machista.
	Porque  a verdade.
Antes que Cass pudesse retrucar, o vento voltou a soprar forte, arrancando a lona dos pinos e deixando-os descobertos sob a chuva pesada.
Gifford praguejou. Estendeu a mo, agarrou a ponta da lona e puxou-a, protegendo-se do mau tempo. Seguindo o seu exemplo, Cass atirou-se para o lado, agarrando sua parte.
	Consegui!  declarou, vitoriosa.
Ele franziu o cenho.
	Dirigir com apenas uma das mos no  aconselhvel.
Bastaria outra lufada como aquela, para o jipe se desgovernar e ir parar na praia.
Irritada, Cass empinou o queixo.
	Obrigada por me alertar sobre as possibilidades, mas estou muito segura do que estou fazendo. Nos dez anos, desde que tirei minha carteira de motorista, nunca sequer recebi uma multa por estacionamento proibido. Voc, por outro lado... Meu Deus!
Outra lufada de vento os atingiu, mandando o jipe para a lateral da estrada. Cass puxou o volante com fora, na tentativa de recuperar o controle sobre o veculo, mas um instante depois, as rodas dianteiras afundaram em um buraco imenso e o motor morreu.
No silncio que se seguiu, Gifford ergueu uma sobrancelha.
	Muito segura  murmurou.
Cass tratou de ignor-lo. Girou a chave na ignio e pisou fundo no acelerador. Embora as rodas girassem, o jipe no saiu do lugar e, segundos depois, o motor voltou a morrer. Ela tentou de novo, s para obter o mesmo resultado.
	No est pensando que pode, simplesmente, ligar o jipe e sair desse buraco, est?  Gifford inquiriu.
Cass lanou-lhe um olhar furioso. Poucos dias antes, acreditara ser incapaz de odi-lo. Naquele momento, porm, seu dio era quase palpvel. Odiava Gifford por ser to calmo e por estar sempre certo. E, tambm, odiava-o por ter rejeitado Jack.
	O que voc sugere?  indagou com voz gelada.
	Sugiro empurrarmos o jipe para fora do buraco.
	Empurrar? Mas est chovendo demais!
	E, quanto mais chover, mais fundo o buraco se tornar e mais difcil para ns sairmos dele  Gifford declarou, certo mais uma vez.  Mas, talvez, voc tenha uma soluo melhor.
	No  ela replicou, mal-humorada.
	Ento, se voc se posicionar ao lado da porta do motorista e cuidar do volante, empurrarei a traseira.  Estendendo a mo para o banco de trs, ele apanhou um guar-da-chuva colorido que havia pertencido ao tio de Cass.  Algumas varetas esto quebradas, mas mesmo assim isto lhe dar alguma proteo contra a chuva. Ponha o cmbio em ponto morto e solte o freio de mo.
	J fiz isso. No sou completamente idiota.
	Possui um certificado que comprove isso?
Cass abriu a porta, saiu para a estrada e abriu o guar-da-chuva, o que no foi fcil sob o castigo do vento. Quando finalmente conseguiu, descobriu que Gifford estava posicionado atrs do jipe, com as duas mos plantadas na lataria.
	No vai ser muito difcil  ele constatou, depois de empurrar o jipe para um lado e para o outro.  Vou contar at trs e, ento, comearei a empurrar.
Cass assentiu e segurou o volante com firmeza. Prendendo o cabo do guarda-chuva debaixo do brao, preparou-se para ajudar Gifford a empurrar o jipe com a outra mo. Por mais irritante que fosse, seu acompanhante estava demonstrando grande boa vontade e tal atitude significava molhar-se na chuva torrencial, alm de correr o risco de forar a perna ferida.
	Um, dois, trs!  ele contou e empurrou.
As rodas dianteiras giraram para fora do buraco e o jipe se moveu para a frente. Cass agradecia mentalmente o sucesso, quando as rodas traseiras passaram rapidamente pelo buraco, fazendo parte da gua se erguer em um arco perfeito, antes de se despejar sobre Cass.
	Ai!
A gua lamacenta e gelada encharcou os cabelos e o vestido de Cass, transformando o ltimo em um verdadeiro trapo. Ora, ela havia ficado o tempo todo debaixo do guarda-chuva e, assim mesmo, estava encharcada. No era justo!
	Meu Deus!  Gifford murmurou.
Piscando os olhos por trs dos pingos de lama que caam de seus cabelos, Cass percebeu que Gifford fora rpido o bastante para evitar o banho indesejado. E, tambm, notou que os lbios dele comeavam a se curvar em um sorriso.
	No foi engraado  protestou.
	Realmente, no foi  ele concordou, embora estivesse encontrando dificuldade para controlar o riso.
Cass afastou os cabelos molhados dos olhos. Gotas marrons escorriam por seu rosto, descendo pelos ombros e desaparecendo sob o tecido do vestido arruinado. Quando ela deu um passo, as sandlias produziram um som engraado.
	J pensou em lutar na lama, profissionalmente?  Gifford perguntou.
	Recentemente, no.
	Talvez deva pensar na possibilidade, em vez de abrir uma pousada.
O olhar que Cass lanou para ele poderia t-lo matado.
	Talvez voc deva manter a boca fechada.
	Sim, senhora  ele respondeu, sorrindo, antes de cuidar do freio de mo. Quando se virou para Cass novamente, o sorriso morreu em seus lbios.  Por acaso, estamos perto de alguma praia de nudismo?
	O que disse?
	Da prxima vez que decidir usar esse vestido, trate de usar um suti  ele reprovou em tom subitamente rude.
	Cass olhou para baixo. Como seu nico suti sem alas era dos tempos anteriores a Jack e, portanto, estava apertado demais, agora, ela decidira que o tecido do vestido era mais que decente. E era... quando seco. Molhado, tor-nava-se muito transparente, aderindo s curvas arredondadas de seus seios e exibindo sombras insinuantes dos mamilos escuros.
    Ao mesmo tempo em que o rubor tomava conta de suas faces, Cass lanou um olhar para Gifford. A chuva havia molhado as roupas dele, fazendo a camisa aderir ao peito musculoso e a cala jeans colar s coxas msculas. De repente, descobriu-se extremamente consciente dele como macho tentador e de si mesma como fmea provocante. O tom tenso em que Gifford se dirigira a ela, um minuto antes, indicara que ele fora atingido pela mesma noo.
	Se entrar no jipe, cuidarei da capota  ele anunciou e, assim que ela tomou seu lugar ao volante, deu a volta no veculo, prendendo todos os pinos.  P na estrada  ordenou ao retomar o banco do passageiro.
Cass deu a partida no motor e ps o jipe em movimento.
	Como foi que bateu seu carro?  perguntou.  Tentou desviar de um animal, ou...
	Tentei desviar de Imogen Sales  Gifford interrompeu em tom cido.
	O que quer dizer?	
	Ela fez uma sugesto muito ertica e colocou a mo na minha coxa. Empurrei a mo dela para longe, mas ela insistiu no contato e, na tentativa de me livrar dela, perdi a concentrao e, consequentemente, o controle do carro.
Cass fitou-o pelo canto do olho.
	Achou que no era o lugar, nem o momento certo?
	Nunca houve lugar ou momento certo com ela. Eu j lhe disse que foi um relacionamento breve. E foi assim porque logo me dei conta de que Imogen estava tentando me usar e... porque nunca gostei muito daquela mulher.
	Ento, por que se envolveu com ela?  Cass perguntou, lembrando-se do que lera e vira no jornal.
	Foi Imogen quem disse isso  imprensa, longe de meus ouvidos,  claro. E estava mentindo, pois nunca me envolvi com ela. A fotografia dava uma impresso errada. Havamos acabado de ser apresentados, quando apareceu um fotgrafo e, quando dei por mim, ela estava me abraando!
	Foi apanhado de surpresa?
	Completamente, assim como fiquei surpreso quando ela me convidou para jantar, na noite seguinte. Sei que, nos dias de hoje,  normal as mulheres assumirem o controle da situao, mas Imogen foi insistente demais.
	E voc se sentiu lisonjeado?
	Nem tanto. Na verdade, eu estava precisando me distrair. Por isso, aceitei. Samos algumas vezes, sempre a convite dela, mas por mais que eu tentasse mudar de assunto, ela sempre dirigia a conversa para quem eu conhecia na televiso, se poderia lev-la s festas do pessoal da tev, se seria possvel apresent-la a este ou aquele diretor, ou produtor.
	Ento, ela esperava que voc a ajudasse com sua carreira de atriz?
	Foi a nica razo pela qual Imogen se interessou por mim  Gifford admitiu com amargura.
	Deve ter se sentido atrada, tambm. Afinal, voc ...  Cass parou de falar no momento em que se deu conta de que estava prestes a descrev-lo com palavras mais que generosas, como elegante, atraente, carismtico.  Imogen deve ter ser sentido atrada por voc  repetiu.
	Um pouco, talvez  ele admitiu , mas a carreira vinha em primeiro lugar para ela. Imogen no estava subindo os degraus para o sucesso com a rapidez que desejava e acreditou que meus conhecimentos a ajudariam. E, tambm, esperava que o fato de ser vista comigo proporcionasse alguma publicidade.
	No que estava certa, pois a fotografia de vocs dois, juntos, foi publicada em um jornal sobre economia.
	A foto tambm foi publicada em meia dzia de revistas, juntamente com a afirmao de que tnhamos um envolvimento  Gifford informou de cenho franzido.  Portanto, ela conseguiu o que queria, ao menos, em parte.
	E voc a apresentou para algum?
	No. Acredito que as pessoas tm de conseguir o sucesso por seus prprios mritos. Alm disso, no me agrada a ideia de ser usado. Expliquei tudo isso a ela e pus um ponto final na histria. Foi ento que Imogen demonstrou suas habilidades dramticas... que no so muitas. Passou do acesso de ira ao papel de vtima e, finalmente, de sedutora. Quando nada disso me impressionou, desistiu.
Cass desligou o limpador de pra-brisa, pois a chuva cessara e as nuvens comeavam a se afastar, dando lugar ao sol e ao cu azul.
	Se s saiu com ela umas poucas vezes, por que Imogen estava em seu carro, no momento do acidente?  perguntou.
	Porque, uma manh, meses depois do nosso ltimo encontro, quando eu me preparava para visitar um cliente, ela entrou em meu escritrio. Eu pensava que estava livre daquela mulher, mas' havia me enganado.
	O que ela queria?
	Um produtor de tev que eu conhecia vagamente estava reunindo elenco para uma nova novela. Imogen fizera um teste, mas fora recusada para o papel. Jurou que se eu conversasse com o sujeito, ele mudaria de ideia. Eu disse a ela que estava enganada e que, de um modo ou de outro, eu no estava disposto a falar com ningum para interceder em favor dela. Ento, pedi desculpas e disse que precisava sair. Infelizmente, ela me seguiu at o estacionamento e entrou no meu carro sem ser convidada. Pedi que sasse, mas ela se recusou a obedecer.
	Voc s pediu?  Cass inquiriu, incrdula.
	Havia mais gente no estacionamento e eu no queria fazer uma cena, atirando-a para fora do carro, o que ela bem merecia. A essa altura, eu j estava atrasado e parti, assim mesmo. Teria de fazer uma viagem de uma hora.
	Imogen sabia disso?
	Sim. Nos primeiros quilmetros, fiquei esperando que exigisse que eu parasse para ela descer, mas acho que Imogen acreditava que com uma hora de conversa me venceria pelo cansao. Tratei de ignor-la at chegar ao meu destino. Achei que assim, quando eu desaparecesse para atender meu cliente, ela tambm desapareceria. Poderia voltar de trem. Mas, quando voltei ao meu carro, l estava ela, esperando.
	Voc ficou furioso?
	E como! Quase perdi a cabea. Como meu nico objetivo era me livrar dela o quanto antes, excedi os limites de velocidade na viagem de volta a Boston. Depois de tentar todos os argumentos verbais para me persuadir a falar com o produtor da novela, Imogen partiu para propostas indecentes.  Gifford fez uma careta de nojo.  Ela se ofereceu para me prestar um servio que, geralmente, deve ser oferecido a astros de rock, no banco traseiro de uma limusine. Quando eu disse "No, obrigado", ela decidiu fazer as coisas do jeito dela. Foi quando o carro desgovernou.
	Imogen deve ter se sentido muito mal por ter sido responsvel pelo que aconteceu com voc  Cass concluiu,
tomando o caminho para a Maison d'Horizon.
Gifford sacudiu a cabea.
	Ela foi ao hospital e se desculpou, mas s estava preocupada com a carreira, como sempre. Implorou que eu no contasse a ningum o verdadeiro motivo do acidente, pois at mesmo Imogen foi capaz de perceber que se algum soubesse do que ela havia feito, a publicidade no seria exatamente positiva. Assim que concordei, ela desapareceu e nunca mais tive notcias.
	Ela nem se interessou em saber como estava a sua perna?
	No.
	Interesseira!
Ele sorriu diante do protesto feroz.
Concordo. Obrigado por ter feito as vezes de chofer falou, quando Cass estacionou em frente ao bangal.  Vou descarregar minhas compras. Ela saiu do jipe.
	Deixe-me ajud-lo.
	No acha boa ideia vestir alguma coisa sobre a roupa molhada?  Gifford indagou, ao entrar na cozinha.
Cass baixou os olhos para o vestido ainda molhado e descobriu que a transparncia continuava como antes.
Estou incomodando voc?  perguntou com ironia.
Teve um impulso de cruzar os braos sobre o peito, mas perturbar o equilbrio de Gifford era uma vingana doce. Embora ele se esforasse para ignorar a aparncia de Cass, sua postura tensa o delatava.
	Um pouco  ele admitiu.
	No sei por qu. Afinal, j me viu completamente nua.
	J faz muito tempo  Gifford murmurou e estendeu-lhe uma toalha.
	Cass secou os cabelos e devolveu-a. Sabia que Gifford esperava que ela a jogasse nos ombros e a fechasse na frente do corpo, mas recusava-se a satisfazer-lhe os desejos, enquanto ele se recusasse a satisfazer os dela... com relao a Jack, claro.
	Pretende trocar de roupa antes da reunio com Kirk Weber?  ele inquiriu em tom sombrio.
	Claro  ela respondeu com um sorriso e, ento, hesitou.  No gostaria de participar da reunio? Nem precisa dizer nada, a menos que queira, mas seria bom contar com uma presena masculina. Com voc l, talvez ele pense duas vezes antes de tentar algum outro golpe.
	Vamos fazer um acordo. Voc esconde essa indecncia e eu assumo o papel de observador na reunio.
	Feito  Cass concordou, escondendo os seios com a toalha.
Gifford assentiu com ar de aprovao.
	Vou vestir roupas secas e, ento, irei para o restaurante.
	Ficarei esperando para lev-lo no jipe.
	Acha que posso cair pelo caminho?  ele indagou de mau humor.
Embora Gifford no houvesse pensado na perna ferida ao empurrar o jipe, pensava nela.agora. Cass sabia que, segundo o ponto de vista dele, ela o estava tratando como a um invlido.
	Acho possvel  respondeu.  O caminho  ngreme e irregular e, a esta altura, est molhado. Portanto, qualquer um pode cair.
	D-me cinco minutos  Gifford pediu, aps uma breve pausa.
Quando chegaram ao Paraso Perdido, o Toyota prateado que Vernica alugara estava estacionado diante do restaurante. A ruiva, usando um vestido turquesa muito decotado, brincava com Jack, enquanto Edith dobrava guardanapos na mesa ao lado.
	O que aconteceu com voc?  a nativa perguntou, surpresa.
Cass explicou como ficara to molhada e perguntou:
	Jack no deu trabalho?
	Ele  um amor  a outra garantiu.
	Nem sentiu a sua falta  Vernica declarou.  Brincamos de cavalinho a tarde inteira.  Balanou o garotinho nos joelhos em demonstrao.  No foi, beb?
Erguendo os olhos para Cass, Jack lanou-lhe um olhar cansado.
	Vernica chegou logo depois de voc sair  Edith informou, tambm parecendo um tanto desgastada.
	Queria ficar longe do Club Sesel e das lamentaes  a ruiva anunciou.  Todos lamentavam a tempestade e especulavam sobre os estragos que faria na estrada. E, tambm reclamavam da praia.
	O que h de errado com a praia?  Cass inquiriu.
	Os folhetos das agncias de turismo no mencionam que a piscina do hotel  minscula e que a praia, l,  muito rasa e repleta de algas. Portanto, os hspedes no tm onde nadar e no param de se queixar disso.
	Quer vir com a mame?  Cass perguntou a Jack, ansiosa para livr-lo das garras de Vernica.
Inclinou-se para pegar o beb, mas a ruiva apertou-o contra si.
	Estou contente em t-lo comigo. Gostaria de ter um filhinho adorvel como ele!  confessou, colando o rosto ao de Jack.
	Ao ver o filho se contorcer, Gifford deu um passo  frente.
	Ele vai ficar melhor no colo da me  afirmou com voz fria.
Vernica fez beicinho.
	Desmancha-prazeres  murmurou, antes de entregar o beb para Cass.
	Jack parecia agradecido, aconchegado ao peito da me, quando o telefone do bar tocou. Edith foi atender.
	Jules s vir  noite  a nativa informou ao desligar.
 Estava planejando vir mais cedo para fazer um inventrio do estoque, como eu disse a voc  acrescentou, olhando para Vernica , mas no poder vir.
A ruiva voltou a fazer beicinho.
	Ento, vou embora.  Levantou-se, despediu-se de todos e, com um olhar terno para Jack, falou:  Nos veremos de novo, beb.
	Vernica deveria voltar para casa no prximo fim de semana, mas decidiu estender as frias por mais dez dias  Edith contou, assim que a visitante se foi.  Quer apostar como vai passar o tempo todo aqui? Bem, vou para a cozinha e adiantar o preparo do jantar, antes que Kirk Weber chegue.
	Pedi a Gifford para participar da reunio e ele concordou  Cass informou.  Voc se importa?
	Acho excelente ideia  Edith declarou e sorriu para Gifford.  Obrigada.
Ele devolveu o sorriso.
	Espero que minha presena ajude.
	Mais dez dias com Vernica... pobre Jules  Cass comentou quando Edith desapareceu.
	E pobre Jack  Gifford acrescentou, franzindo o cenho.
	Quando voc tentou peg-lo, ela pareceu pronta a comear um cabo de guerra.  Acariciou a mozinha do filho.  No foi gostoso, foi, pirralhinho?
Jack fitou-o e soltou um de seus gritinhos deliciados.
	Sei quanto deve ser difcil  Gifford continuou  mas, nos prximos dez dias, tente manter Vernica longe de Jack.
  Cass ficou furiosa. O pai desinteressado estava dando ordens! Como se atrevia?
	Est tentando me dizer como devo cuidar de Jack?  inquiriu com frieza.
	Estou apenas sugerindo que mantenha Vernica longe dele. Voc pode ter pena dessa mulher, mas eu no confio nela. No me parece muito equilibrada.  Lanou um olhar na direo da cozinha.
	Edith sabe que sou o pai de Jack?
	Ningum sabe, exceto minha famlia  Cass respondeu e, vendo Jack bocejar longamente, falou:  Voc parece exausto. Se eu o colocar no carrinho, vai dormir um pouco?
	Posso coloc-lo no carrinho e tomar conta dele enquanto voc troca de roupa  Gifford anunciou.
Aps um momento de hesitao, Cass entregou-lhe o filho.
Kirk Weber s chegaria dentro de uma hora. Assim, depois de tirar o vestido enlameado, Cass tomou banho e lavou os cabelos. Quando os secava, embrulhada em uma toalha, lembrou-se de que a oferta de Gifford para cuidar de Jack a surpreendera. Naquele momento, tivera o impulso de dizer a ele que se no pretendia participar da vida de Jack quando ele crescesse, ento tambm no deveria se envolver com ele agora. Porm, Jack j se inclinava para os braos do pai. O traidor... O inocente...
Depois de secar os cabelos, escolheu uma blusa verde que combinaria com a cala branca. Ora, onde estava a cala branca? Ps-se a procur-la nas gavetas.
	Est procurando um suti?  uma voz profunda indagou.
Sobressaltada, Cass virou-se e deparou com Gifford parado na porta, um ombro apoiado no batente. Os olhos dele pousaram sobre o conjunto de calcinha e suti que ela colocara sobre a cama.
	Vejo que encontrou um  ele acrescentou.  Ainda bem.
Cass encarou-o, furiosa. Embora houvesse entrado no bangal e observado Gifford barbear-se, no gostava de v-lo entrar em seu chal para observ-la.
	No sabe como tocar a campainha?  inquiriu.  Em primeiro lugar, ponha o dedo no boto. Em segundo,
aperte. Assim!
Ela ergueu o brao e ps o dedo em riste, mas o movimento fez a toalha se soltar e cair a seus ps, deixando-a nua. Cass j se abaixava apressada para apanh-la, quando Gifford deu um passo  frente e a segurou pelos ombros.
	Eu toquei a campainha, mas voc no atendeu  ele falou.
	 Quando entrei, ouvi um zumbido.
	Eu estava secando os cabelos.
	Foi por isso que no me ouviu.  Gifford franziu o cenho.  Est fazendo isso de propsito?
	Fa-fazendo o qu?  Cass gaguejou, dolorosamente consciente de sua nudez.
	Tentando me excitar.  Os lbios dele se curvaram em um sorriso irnico.  Parabns! Est conseguindo.
	A toalha caiu por acidente.
	Verdade?
	Claro! E eu gostaria de me vestir  ela declarou, na inteno de soar exigente, mas ouvindo a prpria voz soar como uma splica.
Se Gifford estava excitado, Cass tambm. Se ele decidisse atir-la na cama e fazer amor com ela, seria difcil resistir.
	No h pressa. Como voc mesma disse, j a vi nua, antes. E, como j faz muito tempo, preciso refrescar minha memria.  Os olhos cinzentos passearam com indolncia pelo corpo de Cass.  Est mais madura e isso me agrada.
	Gostaria de me vestir  ela repetiu com voz rouca.
Deixando os braos carem ao lado do corpo, Gifford recuou.
 Ao toc-la, ao examinar-lhe o corpo nu, ao se lembrar da sensao de estar dentro dela, estava se torturando.
	Estarei esperando na sala  declarou e saiu.
Cass suspirou, aliviada.
	Por que est aqui?  perguntou em voz alta, enquanto comeava a se vestir apressada.
	Vim avisar que Jack est dormindo e que Kirk Weber j chegou.
Cass consultou o relgio. Faltavam quinze minutos para as cinco horas. Acabou de se vestir e saiu do quarto.
	Kirk j chegou?  indagou em tom de protesto.
Ainda tinha de pentear os cabelos, passar batom e colocar os brincos.
	Ele disse que foi liberado mais cedo  Gifford explicou e franziu o cenho.  Liberado do qu? Ele tem outros negcios na ilha?
	No que eu saiba.
	Bem, o sujeitinho est esperando, encharcado de colnia, vestindo um de seus ternos da moda.
	E de gabardine cinza-prateado?
Gifford olhou para onde Cass se encontrava parada diante de um espelho, passando batom. No passado, gostava de observ-la em atividades to femininas. E estava gostando agora, tambm.
	Sim  respondeu.  Por qu?
	Porque quando fui ao Club Sesel para cortar os cabelos, vi um homem vestindo terno de gabardine cinza e achei que poderia ser Kirk. Estava saindo do escritrio da gerncia, mas, de repente, virou-se e voltou para dentro.
	Para evitar encontr-la?
	Pode ser.
Gifford esfregou a mo no queixo, pensativo.
	Ser que ele tem alguma ligao com o hotel? Com a gerncia? Isso explicaria as roupas sempre formais. Mas.
se for assim, por que estaria interessado em comprar o Paraso Perdido?
Enquanto colocava os brincos, Cass se aproximou de Gifford.
 Sua mente girava em disparada e ela se lembrou do comentrio de Vernica sobre as queixas dos hspedes do hotel.
	Porque, assim, os hspedes teriam acesso  baa  sugeriu.
Gifford assentiu em concordncia.
	O mar  limpo e profundo, aqui. Voc disse que  a nica praia boa para nadar, neste lado da ilha. Se os hspedes do Club Sesel reclamam entre si da falta de lugar para nadar, certamente tambm se queixam s agncias de turismo, quando voltam para casa.
	E avisam os amigos de que o lugar no  bom para passar frias.
	O hotel estava cheio, quando voc esteve l?
	Muito pelo contrrio. E, segundo Jules, que  ntimo das garonetes, sempre h chals desocupados.
	Gifford sorriu.
	Ento, se pretende manter o hotel aberto e lucrativo, Kirk precisa da baa... a qualquer preo.
	Mas no temos certeza de que ele tem ligao com o hotel  Cass lembrou.
	Apoiando-se na bengala, Gifford encaminhou-se para a porta.
	Vamos descobrir.
	Com um sorriso falso nos lbios, Kirk conversava amenidades com Edith, no restaurante. Parecia feliz e satisfeito, como se sua oferta j houvesse sido aceita.
	Cass cumprimentou-o e foi se certificar de que Jack ainda dormia profundamente. Ento, voltou e descobriu que Gifford j se apresentara.
	Edith e Cass me pediram para participar da reunio  explicou.
	Quando se sentaram, o sul-africano enfiou um dedo no colarinho da camisa. Embora no soubesse nada sobre Gifford, percebera nos olhos cinzentos a astcia que indicava que sua presena no era meramente casual.
	De onde voc ?  Kirk perguntou, sem deixar de sorrir.
	Ele alugou a Maison d'Horizon  Edith respondeu. - Ele nos emprestou duas dzias de copos e permitiu que Cass use a sala de ginstica e...
	Que bom!  o sul-africano interrompeu, impaciente para finalizar sua barganha.  E qual  a sua resposta  oferta que fiz ontem?
	A resposta  no  Cass adiantou-se.  Metade do preo  inaceitvel. Portanto, se quiser desistir...
	No  Kirk falou e, no mesmo instante, franziu o cenho, dando-se conta de que protestara depressa demais.
	Nesse caso, voltaremos a conversar sobre o valor inicial  Cass concluiu.
A expresso pensativa de Kirk deixou claro que o valor total estava fora de questo e que ele faria uma contra-oferta, mas precisava decidir a quantia.
De repente, o sorriso falso voltou a brilhar.
Desculpe, mas no posso...
Pagarei o preo inicial, mais dez por cento  Gifford
interferiu.
Kirk girou na cadeira, seus olhos parecendo prestes a saltarem das rbitas.
	O que disse?  inquiriu, atnito.
	Estou disposto a pagar o preo inicial pedido pelo Paraso Perdido, mais dez por cento  Gifford repetiu, diri-gindo-se a Cass.  Est interessada?
	Eu...  ela hesitou, pois a interveno tambm a apanhara de surpresa. Porm, quando fitou Gifford nos olhos, viu neles o brilho da conspirao.  Ah, sim, estou muito interessada!  Ento, virou-se para Edith.  O que acha?
A mais velha limitou-se a assentir.
	Est mesmo fazendo uma oferta pelo lugar?  Kirk perguntou, ainda incrdulo.
	Claro!  Gifford confirmou.  E tenho a quantia disponvel para pagar  vista.
O silncio tomou conta do restaurante, quebrado apenas pelas ondas que rebentavam na praia.
	Pagarei o preo inicial, mais quinze por cento  Kirk finalmente consentiu.
	Vinte por cento  Gifford aumentou o lance.
	Vinte e cinco. Gifford assentiu.
	A pousada  sua.
O sul-africano piscou repetidas vezes, confuso pela rapidez com que se dera a negociao. Chegara ali esperando fazer um excelente negcio, no acabar pagando mais que a oferta inicial.
	Eu... certo  gaguejou. Gifford virou-se para Cass.
	O valor  satisfatrio?  perguntou.
	Sim, desde que Edith receba o dinheiro dentro de uma semana, no mximo  ela respondeu.
	Ela receber o dinheiro, mas receio que demore um pouco mais que uma semana  Kirk falou, muito sem jeito, alm de um tanto desesperado.  Preciso informar algum sobre o aumento da quantia... Trata-se de mera formalidade e tenho certeza de que essa pessoa vai concordar, mas os vinte e cinco por cento adicionais tero de ser transferidos. Que tal duas semanas, a contar de sexta-feira?
	Parece razovel  Cass falou, sem demonstrar entusiasmo, antes de se virar para Edith, que tinha os olhos arregalados e os lbios curvados em um sorriso.  O que acha?
Mais uma vez, a nativa limitou-se a balanar a cabea em concordncia.
	Manterei meu dinheiro disponvel  Gifford voltou a interferir.  Portanto, se o seu pagamento no for efetuado at meia-noite...
	Isso no vai acontecer. A pousada  minha  Kirk declarou com firmeza e, ento, sorriu para Edith.  Amanh de manh, pedirei aos advogados que redijam um contrato, confirmando a venda do Paraso Perdido pela quantia combinada. Ficarei agradecido se a senhora o assinar  lanou um olhar de canto de olho para Gifford , imediatamente, para que no surja nenhum problema.
De novo, Edith assentiu em silncio.
	Bem pensado  Gifford aprovou, cruzou as mos atrs da cabea e encarou o mais velho.  Uma pergunta. Disse que precisa informar algum sobre a. quantia adicional.  Estaria se referindo  diretoria do Club Sesel?
Kirk empalideceu.
	Club Sesel?
	Ao que me parece, est comprando o Paraso Perdido em nome da companhia que possui o hotel. Trabalha para eles?
	Sou diretor  o sul-africano admitiu.
	E o Club Sesel precisa comprar o Paraso Perdido para ter acesso  baa?  Cass indagou.
	Exatamente  Kirk confirmou, lutando para manter a dignidade ferida.
	Pretendem fechar o restaurante?  Edith perguntou, tendo finalmente recuperado a voz.
	No. Planejamos mant-lo como uma opo mais informal ao restaurante do hotel, bem como para oferecer bebidas e lanches aos hspedes, quando vierem nadar.
	Vo pavimentar a estrada?  Gifford inquiriu.
	Estamos negociando esse detalhe com as autoridades competentes.  Ansioso para escapar ao interrogatrio, Kirk levantou-se.  Bem, tenho muitos telefonemas a dar. At logo.
Assim que ele se afastou, Edith caiu na risada.
	Eu no... sabia o que... estava acontecendo  conseguiu dizer entre gargalhadas.  Vocs viram a cara dele, quando Gifford disse "mais dez por cento"? Pensei que fosse ter um ataque! Vocs fizeram tudo direitinho e ainda conseguiram todo esse dinheiro extra. Muito obrigada  murmurou, apertando a mo dos dois.
	A venda no est garantida, at que o contrato seja assinado pelas duas partes interessadas  Gifford advertiu.
	Eu sei, mas, desta vez, nada vai acontecer. Tenho
certeza - ela afirmou, convicta, antes de voltar sorridente
para a cozinha, a fim de terminar o preparo do jantar.
	Foi muita sorte Kirk no ter desistido da compra  Cass falou.  Se ele recuasse, voc ficaria em maus lenis.
	Conheo lugares piores para se comprar. Se ele desistir...
	Isso no vai acontecer.
	Bem, se Kirk desistir, pagarei o valor mencionado,  vista.
	Est falando srio?
	Claro.
	O que voc faria com uma pousada em Praslin?
Gifford apanhou a bengala e se ps de p.
	Fecharia o restaurante, reformaria o edifcio principal e os chals e usaria o lugar como recanto de veraneio para mim, meus amigos e para os funcionrios da Tait-Hill.
Cass tambm se levantou.
	Obrigada pela ajuda. Foi sensacional!  declarou, colocou-se na ponta dos ps e beijou-o.
Ao sentir os lbios macios e familiares, Cass relaxou. Porm, ao dar-se conta da loucura que estava cometendo, comeou a se afastar.
O brao de Gifford' enlaou-lhe a cintura, impedindo-a de bater em retirada.
	Sensacional  voc  ele murmurou.
Ento, beijou-a com paixo, provocando arrepios de prazer que percorreram todo o corpo de Cass, que se colou a ele, desejando-o com ardor.
No, disse a si mesma. O que desejava era o alvio e o prazer de fazer amor, pois muito tempo havia se passado desde a ltima vez. Ao mesmo tempo em que pensava assim, foi deslizando os braos para cima, a fim de abra-lo, deixando-se mergulhar na magia daquele beijo.
Subjugado pela fora do desejo, Gifford tambm deslizou a mo, mas foi para baixo, a fim de acariciar um seio macio e arredondado, que fez uma corrente eltrica percorrer seu brao e espalhar-se por suas entranhas.
De repente, descolou bruscamente os lbios dos dela.
	Ah, no!
	O que foi?  Cass indagou, atordoada.
	Nosso filho est chorando  ele a informou.
No mesmo instante, como se para confirmar tal informao, um grito se fez ouvir da varanda. Cass respirou fundo e ajeitou a blusa.
	Mais uma vez, ele escolheu o momento perfeito  declarou.
Gifford franziu o cenho.
	Estou comeando a detestar as escolhas de Jack  murmurou, apanhou a bengala e retornou ao bangal.

CAPITULO VI

Cass dobrou um pijaminha azul, colocou-o sobre a pilha de roupas passadas e apanhou outro. As roupinhas de Jack quase no lhe tomavam tempo algum, mas as suas enchiam um cesto de tamanho considervel. E, ainda, havia tolhas de mesa e guardanapos. O domingo era, geralmente, um dia bastante calmo no restaurante, e ela estava aproveitando a folga para pr em dia as tarefas de lavanderia, enquanto Edith cuidava da cozinha.
Enquanto trabalhava, pensava em Gifford e em como o beijara, trs dias antes. Embora o beijo houvesse sido inspirado por um sentimento de gratido, fora tambm instintivo. Uma necessidade bsica a impelira. Por qu? Porque ainda o amava.
Dezoito meses antes, Cass havia se apaixonado por Gifford e, apesar da maneira casual como ele a abandonara e de sua recusa em agir como um verdadeiro pai para Jack, ainda o amava. Ao longo desse tempo, ela acreditara ter superado o sentimento e teria rido se algum insinuasse que ele existia. Mas, ainda assim, era essa a verdade.
Olhando o vapor que se erguia do ferro de passar, concluiu que s podia ser louca, ou masoquista. Deveria pensar com a cabea, no com o corao. Decidiu que faria isso. Trataria de esquecer Gifford. No podia ser to difcil.
Virou-se para Jack, que dormia profundamente no carrinho e refletiu que, se concentrasse sua ateno na traio de Gifford para com o filho e se lembrasse de quanto ele era egosta e...
Ora, ele tambm tinha qualidades, insistiu uma voz interior. Muitas. Por exemplo, ajudara Edith a dobrar Kirk Weber. No dia seguinte  reunio em que o preo pelo Paraso Perdido fora elevado, o sul-africano levara um contrato j assinado por ele, como procurador do Club Sesel, e implorara que Edith acrescentasse sua assinatura.
Por coincidncia, Gifford encontrava-se no restaurante e Cass lhe pedira que examinasse o documento.
	Est tudo em ordem  ele havia assegurado, depois de ler o contrato.
Agora, enquanto esperava pelo dinheiro, Edith planejava com entusiasmo as cores de tapetes e cortinas para sua nova casa. Tais detalhes de decorao s seriam possveis porque ela ia receber bem mais do que havia imaginado. Graas a Gifford, a quem a nativa passara a tratar como a um deus que havia cado na terra por engano.
Quando terminou de passar a roupa, Cass desligou o ferro e levou o carrinho para a varanda, ao lado da porta da cozinha. Embora continuasse de olhos fechados, Jack comeava a mover os bracinhos, o que indicava que logo despertaria.
	Vou levar minha roupa para o chal  ela informou Edith , mas voltarei em seguida para preparar o almoo de Jack.
	Est bem  a mais velha concordou.
Depois de guardar a roupa, Cass voltou  cozinha, preparou a papinha de Jack e, ento, foi at a varanda, mas o carrinho no estava l. No ouvira o choro do filho, mas sabia que se ele se mostrasse agitado, Edith o levaria para um curto passeio.
	Edith?  chamou.
	J vou  a outra respondeu de dentro do restaurante e logo apareceu na porta.
	Jack est com voc, l fora?
	No. Ele est na Maison d'Horizon.
O que no deveria surpreend-la, uma vez que, nos ltimos dias, Gifford levara o beb para passear diversas vezes, passara horas brincando com ele e, quando o encontrava dormindo, contentava-se em observ-lo em silncio. Embora no estivesse disposto a assumir um envolvimento a longo prazo, no momento, a novidade de ser pai parecia fascin-lo.
E, apesar de se sentir gratificada por tal fascinao, pois tambm considerava o filho uma criatura fantstica, Cass ficava perturbada a cada vez que encontrava Gifford. Sempre que o via, uma forte tenso tomava conta dela. Depois de cada encontro, descobria-se imaginando como a vida teria sido boa para os trs se...
	Gifford chegou quando voc estava no chal  Edith explicou.  Quando viu que Jack estava acordado, ofereceu-se para ficar com ele at a hora do almoo. Ia esperar para pedir permisso a voc, mas eu disse a ele que no havia problema. Voc no se importa, no ?
	No  Cass respondeu, aps um breve momento de hesitao.
	Ele disse que bastaria voc telefonar quando quisesse Jack de volta.
	Vou at l para busc-lo.
	No tenha pressa de voltar. No temos nenhuma reserva para o almoo e se algum fregus aparecer, Jules e eu damos conta. Pode aproveitar para fazer um pouco de exerccio, enquanto estiver l  Edith sugeriu.
Nos ltimos dias, com tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, Cass acabara se esquecendo dos exerccios. Bem, a verdade era que ela havia preferido no ficar sozinha com Gifford, a fim de evitar ser assaltada de novo por aquele desejo insano que a impelia para ele.
Ou o contrrio. Embora Gifford se mantivesse distante, os longos olhares que lanava para Cass, bem como a tenso visvel em seu corpo, indicavam que continuava a desej-la.
	Preciso dar o almoo a Jack  ela argumentou.
	Pode fazer isso no bangal e, ento, exercitar-se. Nem precisa trocar de roupa.
Cass baixou os olhos para o short e a camiseta que usava.
	Tem razo.
	Ento, at mais tarde  Edith despediu-se com um sorriso.
Cass assentiu. Tentar se manter longe do bangal e de seu ocupante era uma atitude infantil. Queria usar a sala de ginstica e no havia motivo para no se exercitar. Se algum instinto traidor despertasse, ela trataria de abaf-lo. Afinal de contas, era capaz de se controlar. Quanto a Gifford atac-la, o perigo parecia remoto e valeria a pena arriscar.
	At mais tarde  respondeu.
	Voc poderia levar Gifford para um passeio pela ilha, depois do almoo  Edith sugeriu, j se virando para sair.  Bem que est precisando tirar uma folga do Paraso Perdido.
	Vou pensar nisso.
Quando voltou para a cozinha, Cass sorriu. A nativa parecia determinada a dar um empurrozinho para que o casal se envolvesse. Deveria contar a ela que Gifford era pai de Jack? Ou Edith j adivinhara? Talvez fosse por isso que se esforasse tanto em seu papel de alcoviteira.
Com um suspiro, refletiu que deveria contar a verdade a Edith. O problema era que a verdade inclua o fato de Gifford se recusar a assumir o papel de pai e no era nada fcil admitir isso para quem quer que fosse.
Enquanto colocava a comida de Jack na sacola do beb, Cass admitiu que a ideia de aliment-lo no bangal era muito boa. Tomar contato com as atividades cotidianas do filho poderia aproximar Gifford, o que s traria vantagens para o futuro de Jack.
Talvez no, refletiu, enquanto se encaminhava para a Maison d'Horizon. Seria mais sensato deixar de lado o que desejava e ser mais realista. A verdade era que, em Seychelles, Gifford no tinha muito o que fazer. Assim como as anotaes para o tal guia para idiotas, Jack tambm ocupava, o lugar de passatempo.
Quando voltasse para Boston, Gifford retomaria seu posto na Tait-Hill. Mais uma vez, seria absorvido pelo trabalho, com negociaes, viagens e visitas a clientes, que lhe tomariam todo o tempo e energia. O filho deixaria de intrig-lo. Por mais doloroso que fosse, Cass tinha de admitir que a atrao que Jack provocava no pai era temporria.
	Sou eu  anunciou ao entrar pela porta da frente, que fora deixada aberta.
	Estamos aqui  Gifford gritou da sala de estar.
Descalo, vestindo short e camiseta, ele estava sentado no tapete, as pernas esticadas. Jack tentava engatinhar por sobre elas. Desde que chegara na ilha, Gifford se tornara mais bronzeado e ganhara peso. Parecia em boa forma, alm de extremamente viril e atraente.
	Sequestrador  Cass falou.
Ele sorriu.
	Jack parecia querer companhia, assim como eu. Veja isso  falou e estalou os dedos.
Apoiado na perna do pai, Jack virou-se, ergueu a mozinha e tambm estalou os dedos. Cass caiu na risada.
	Nunca o vi fazer isso antes!
	Acabei de ensin-lo. Quantos garotos da idade dele voc conhece, que so capazes de fazer o mesmo?  Gifford perguntou como o mais orgulhoso dos pais.
Crianas eram novidade para ele. Nunca antes se dera conta de quanta alegria elas podem dar, nem como podem absorver um adulto... embora Jack fosse especial.
	Nenhum  Cass respondeu com um sorriso, partilhando o orgulho do filho.  Admite que ele  um gnio?
	Sem a menor sombra de dvida.
	Como est na hora do almoo de Einstein, eu trouxe a comida. Quer aliment-lo?
	Eu?
	Ele pode fazer um pouco de sujeira, mas no morde. E, caso morda, s tem dois dentes.
Gifford franziu o cenho.
	Nunca dei de comer a uma criana.
	Tudo tem uma primeira vez.
Ele considerou a ideia por um momento. Ento, assentiu.
	Um dia desses, quando entrei na despensa, vi um cadeiro que Jack poder usar.
	Uau!
	Este lugar parece equipado para todo tipo de contingncia  ele continuou. Ento, entregou Jack para Cass e foi at a despensa.
Como nunca fora usado antes, o cadeiro estava envolto por um plstico grosso, que Cass usou para forrar o cho da cozinha.
	Para facilitar a limpeza, depois  explicou, enquanto
amarrava um babador em torno do pescoo de Jack. Abriu
os recipientes plsticos, retirou da sacola uma colher e                    estendeu-a para Gifford.   toda sua.
Sentando-se junto a cadeiro, ele ofereceu uma colherada de papinha para Jack, que abriu a boca e comeu. Na terceira colherada, Gifford sorriu.
	J estou pegando o jeito da coisa. No estou, pirralhinho?
O garotinho riu.
	Acha que ainda pode mudar de ideia com relao a um envolvimento maior com Jack, no futuro?  Cass perguntou, animada pelo prazer que eledemonstrava obter da companhia do filho.
	No.
A resposta foi seca, direta e definitiva. Depois de permanecer algum tempo em silncio, ela voltou a falar:
	Foi at o Paraso Perdido de short?
	Sim. Por qu?
	Foi a primeira vez. Mesmo com a temperatura passando dos trinta graus, voc sempre veste cala jeans.
	E da?
	Usa cala para esconder a perna.
	A escolha das minhas roupas diz respeito somente a mim.
	Se comear a sair de short, as pessoas vo olhar. Mas, qual  o problema? Se ficarem impressionadas, ento, elas  que tm uma deficincia, no voc. Alm do mais, uma perna atrofiada chama a ateno por trs segundos. No  grande coisa. Jack demonstrou alguma aflio, ainda h pouco?
	Claro que no  Gifford respondeu com impacincia.
	Voc tambm no deveria se incomodar  ela continuou.  Nem deveria considerar um problema o fato de usar uma bengala e mancar.
	Como um aleijado?
	At certo ponto,  exatamente o que voc .
	Ora, obrigado pelo estmulo!
	Por outro lado, no est em uma cadeira de rodas, nem usa muletas.
Gifford lanou-lhe um olhar gelado e hostil.
	Acha mesmo necessria esta conversa?  inquiriu.
Cass manteve-se impassvel, recusando-se a se deixar intimidar. Era bvio que Gifford ainda no havia superado a mudana infeliz em sua vida e que precisava de ajuda. E ela estava disposta a ajudar, ou. ao menos, tentar.
	Ao que parece, quando voltou a trabalhar cedo demais, voc estava fingindo que j havia se recuperado, quando isso no era verdade. E, ao escolher uma ilha distante para se recuperar, acho que est se escondendo. Est se recusando a admitir sua... nova situao. Isso se chama negao.
	Parabns pela perspiccia!
	Precisa aceitar que jamais voltar a fazer coisas que, antes, fazia to bem, como por exemplo, esquiar, jogar tnis, correr. Um dia, voc falou sobre voltar ao normal, mas isso  apontou a perna atrofiada   a normalidade, agora.
	Se acha que vai conseguir alguma coisa com esse seu sermo barato, pode esquecer.
Cass respirou fundo. No gostava de dizer aquilo mais do que ele gostava de ouvir. Porm, era necessrio.
	Com o tempo, sua perna vai se fortalecer e voc poder praticar alguns esportes  insistiu.
	O que a faz ter tanta certeza disso?  Gifford indagou com sarcasmo.
	Sei que voc possui o tipo de determinao e dedicao que garantiriam a melhor recuperao possvel, se tiver a motivao adequada.
Ele exibiu um sorriso cnico.
	E ser um aleijado ativo  uma boa motivao?
	.
Gifford fez uma careta.
	Obrigado pela lio de moral. Pode ficar tranquila, pois eu sei que existe uma poro de gente em condies muito piores que a minha e tambm sei que deveria estar agradecendo aos cus pela minha sorte.
	Voc deveria, isso sim, encarar os fatos. E verdade que alguns aspectos de sua vida ficaram limitados e, por isso, voc sofre e sente raiva e frustrao. Mas est na hora de superar tudo isso. J  tempo de exorcizar os seus demnios e levar a vida adiante.
	 tempo de voc pr um ponto final nessa conversa.
Embora falasse em voz baixa, a linha dura de seus lbios indicava que, se no estivesse alimentando o beb, j teria berrado a sua fria. Ou sado dali.
	Bravo!  aplaudiu, quando Jack comeu a ltima colherada.  Agora, vamos  sobremesa.
Cass franziu o cenho, percebendo que Gifford focalizara a ateno no filho, a fim de escapar do assunto desagradvel.
Jack aceitou a primeira colherada, fez uma careta, como se houvesse engolido uma vespa, e cuspiu tudo fora.
	Ele costuma gostar  Cass comentou, limpando os bocados de pur de manga que haviam aterrissado na bandeja do cadeiro.
	Vamos tentar de novo  Gifford falou e, recolhendo com a colher o restara do pur em torno dos lbios de Jack, enfiou na boca do filho.
Dessa vez, Jack engoliu.
	H muitas coisas que voc ainda pode fazer  Cass voltou ao assunto inicial.  A vida  curta demais para...
	Chega!  Gifford sibilou.  Deixe-me em paz. Se precisar de conselhos, procurarei um profissional.
Cass assentiu, demonstrando compreenso. Com a mudana do tom de voz do pai, o garotinho se encolhera e, agora, exibia expresso assustada. Ela no queria ver o filho aflito. Alm disso, sua lio de moral parecia uma grande perda de tempo.
	Se fizer o favor de dar a mamadeira a Jack, poderei fazer um pouco de exerccio  falou, resignada.
; Faa isso  Gifford respondeu de boa vontade. Quando saa, Cass hesitou.
	Edith sugeriu que eu o levasse para um passeio pela ilha, hoje  tarde  falou, sabendo que a mais velha faria questo de mencionar sua ideia, quando o encontrasse.
	Eu adoraria. A que horas quer sair?
	Duas e meia  ela respondeu, surpresa por ele ter aceitado o convite, depois de ter ficado to irritado com a conversa.
	Se gosta de nadar, poderamos acabar o dia em uma praia qualquer.
	Pedirei a Edith que nos recomende uma.
Gifford tirou Jack dos braos de Cass e suspendeu-o no ar.
	Que garoto mais elegante!  disse.
O beb, que usava uma roupinha parecida com o uniforme da Legio Estrangeira, exceto pelas cores vivas, riu alto, sacudindo bracinhos e perninhas.
Com Gifford no banco do passageiro e Jack na cadeirinha de segurana, presa ao banco traseiro, Cass dirigiu pela estrada costeira, at Baie St. Anne, a capital de Praslin. Tratava-se de uma cidadezinha tranquila, com um porto natural.
Ali, passearam  beira-mar, viram pescadores trabalhando e subiram ao mirante para observar ilhas menores espalhadas no oceano.
Depois disso, seguiram por uma estrada que serpenteava pelas montanhas, atravessando vilarejos pitorescos, antes de voltar  costa. Beberam refrigerantes em uma barraquinha de praia e, ento, seguindo a indicao de Edith, tomaram uma estrada de terra, repleta de lombadas e buracos, para felicidade de Jack, chegando a Uma baa deserta.
Enquanto Cass passava filtro solar em Jack, Gifford tirou a roupa que usava por cima do calo de banho e entrou no mar. Quando ela finalmente se despiu e, de maio preto e Jack nos braos, tambm entrou no mar, Gifford j atravessara a baa a nado e voltara.
	Vi uma poro de peixinhos, enquanto nadava  ele disse, tomando Jack dos braos de Cass e mergulhando-o na gua lmpida e morna at a cintura. Ento, empurrou-o de volta para a me.  Eles nadavam assim.
O garotinho riu e Cass girou-o e empurrou-o para Gifford. Continuaram a empurr-lo de um para outro, enquanto as risadas de Jack tornavam-se mais altas e deliciosas.
	Por que no vai nadar um pouco, enquanto cuido do pirralhinho?  Gifford sugeriu, aps alguns minutos.
	Boa ideia  Cass aceitou e mergulhou, afastando-se.
	Embora Gifford fosse boa companhia, a atitude dele com relao a ela havia se tornado um tanto formal e remota. O que indicava que ainda restava algum resqucio de sua irritao com a conversa da manh. 
Depois de nadar, ela voltou a se juntar aos dois. Brincaram mais um pouco com Jack, que manifestava sua adorao pela gua com gritinhos alegres. Mais tarde, sentaram-se na areia para se secarem.
Cass apanhou uma toalha da sacola.
	Est na hora de enxugar esse...  comeou a falar.
Jack havia conseguido virar-se sozinho e tentava, desajeitado, engatinhar de volta para o mar.
	Veja isso!  Cass exclamou. Gifford riu.
	Eu disse que ele  um gnio!
	Tem razo.
O pai seguiu o garotinho e tomou-o nos braos antes que alcanasse a gua.
	Voc  um garotinho muito esperto  disse.  Sua me pensa assim e eu tambm.
Quando Gifford sorriu para Cass, ela foi invadida por uma onda de calor e voltou a sentir uma profunda alegria pelo senso de famlia que os envolvia. Viu no brilho dos olhos de Gifford que ele sentia o mesmo, mas a alegria durou um breve momento, pois ele logo desviou o olhar, franzindo o cenho e retomando sua atitude distante.
Cass fechou o livro de contabilidade e guardou-o na gaveta. Estava tudo em ordem.
	O que vou fazer agora?  perguntou ao filho, que, depois de engatinhar por todo o escritrio, havia se sentado aos ps da me.
Era uma bela tarde de domingo, uma semana depois do passeio pela ilha. Encerradas as tarefas do almoo, Edith fora visitar a irm. Jules voltara para casa. Cass completara as anotaes de contabilidade.
	Voc est exausto  concluiu, ao ver as plpebras pesadas do filho.  Enquanto estiver tirando o seu cochilo, vou tomar sol e ler um livro. Ou, quem sabe, eu aproveite para limpar o bar. Sim,  isso mesmo o que vou fazer.
Depois de acomodar Jack no carrinho e deix-lo a um canto do restaurante, apanhou os produtos de limpeza. Retirou as garrafas das prateleiras de vidro e comeou a limp-las.
O almoo daquele domingo fora mais movimentado que de costume. Quatro mesas haviam sido ocupadas: duas reservas de turistas, uma famlia local que fora comemorar o aniversrio de um de seus membros e Gifford, que decidira saborear o delicioso peixe ensopado de Edith.
Cass esfregou com fora uma mancha resistente. Embora o encanto de Gifford por Jack o mantivesse na condio de visitante dirio, ele continuava frio e distante com ela. A conversa do domingo anterior deixara suas marcas. Gifford se recusava a reconhecer a verdade das palavras de Cass e a perdo-la por sua interferncia, embora permitisse que ela continuasse usando a sala de ginstica.
Deu um passo para trs e observou o prprio reflexo na parede de espelho do bar. Nos ltimos sete dias, havia se exercitado religiosamente e, segundo Edith, cuja opinio no era das mais confiveis, perdera mais um quilo. Virou de lado para o espelho. Estaria mesmo mais magra? Sua barriga, mais lisa? Sim!
Depois de limpar as prateleiras de vidro e todas as garrafas, comeou a arrum-las nos seus lugares. Como no soubesse exatamente como estavam dispostas antes, decidiu deixar que Jules cuidasse disso quando chegasse, mais tarde.
Ao pensar em Jules, os lbios de Cass curvaram-se em um sorriso maroto. O jovem passara os ltimos dez dias tentando escapar ao assdio cada vez mais ardente de Vernica. Evitara a ruiva sempre que possvel, falara sobre suas numerosas namoradas e comeara a fazer referncias repetidas e esperanosas sobre o fato de que a divorciada logo deixaria Seychelles.
Vernica, que pegaria o avio naquele domingo, mostra-ra-se impermevel s tentativas de Jules de ser deixado em paz. Tambm parecera nem sequer cogitar que o rapaz poderia no estar interessado em uma mulher vinte anos mais velha.
Na noite de sbado, conforme Jules contara no almoo de domingo, quando voltava para casa a p, Vernica parara o carro ao lado dele, na estrada.
	Ela ficou de tocaia para me surpreender sozinho  Jules contara a Cass, com uma careta de horror.
	Vou lhe dar uma carona  Vernica dissera e, quando Jules recusara com delicadeza, desligara o Toyota e sara do carro.  Isto  para voc  havia declarado, mostrando uma passagem de avio.  Assim, voc poder voltar comigo para a Inglaterra. No precisa se preocupar em procurar emprego. Poder me ajudar na butique. E, depois de algum tempo  acrescentara com um risinho infantil , poderemos nos casar.
	A mulher ficou maluca!  Jules dissera, sacudindo a cabea.  Eu disse a ela que casamento  a ltima coisa em que pretendo pensar e que no havia a menor chance de eu ir com ela para a Inglaterra. Ela quis saber por que e comeou a me parecer muito agitada. Ento, eu lhe disse que Doris, uma de minhas namoradas, est grvida.
	 verdade?  Cass perguntara, uma vez que, em se tratando de Jules, era mesmo uma possibilidade.
	No, mas eu precisava dizer alguma coisa. Bem, Vernica declarou que era ela quem deveria estar esperando um filho meu, entrou no carro e se foi.  Jules estremeceu.  Quanto antes essa maluca deixar a ilha, melhor. Vou me sentir bem mais seguro.
Cass colocou mais uma garrafa na prateleira. Vernica realmente exagerara em sua perseguio a Jules, alm de ser por demais egocntrica, mas quando estivesse fazendo as malas para partir, certamente sentiria o peso da solido. E da tristeza. Em meio a um suspiro solidrio, ouviu o som de passos na entrada do restaurante. Virou-se e deparou com Vernica.
A ruiva vestia um conjunto de saia e blusa beige, com meias de seda pretas e sapatos altos. Estava cuidadosamente maquiada e penteada. Era bvio que suas malas estavam prontas, no porta-malas, e que ela se encontrava a caminho do aeroporto de Praslin, de onde voaria para Mah. Dali, pegaria o avio para a Inglaterra.
	Jules est?  Vernica perguntou, sem se dar ao trabalho de cumprimentar Cass.  
	Ele saiu h mais ou menos uma hora.
Teria Vernica decidido aparecer para se desculpar com o rapaz pelo comportamento da noite anterior? Ou pretendia fazer ainda um ltimo apelo para que Jules a acompanhasse na viagem?
	Ontem  noite, sugeri a ele que fosse comigo para a Inglaterra, mas falei muito em cima da hora. S depois me dei conta de que ele no poderia simplesmente partir e deixar vocs sem algum para substitu-lo. Alm disso, ele certamente tem outros... compromissos a resolver.
	Jules no quer deixar Praslin  Cass falou com voz gentil.
	No? Bem, eu poderia comprar uma casa aqui... Sim,  isso mesmo o que vou fazer! Comprarei uma casa e abrirei uma butique e...
	Est sonhando acordada  Cass insistiu.
A ruiva fez beicinho.
	No estou! Voc no quer que Jules e eu...  parou de falar quando o telefone tocou.
	Com licena  Cass falou, antes de atender.  Al?
	Eu gostaria de falar com Oscar  disse uma voz masculina com forte sotaque estrangeiro.  Meu nome  Wilhelm. Sou um velho amigo dele.
	Infelizmente, Oscar faleceu h alguns meses. Houve um momento de silncio.
	Que notcia triste... Com quem estou falando?
	Meu nome  Cass. Sou sobrinha de Oscar.
	Ora, ento, voc sabe que ele era um sujeito espetacular. Oscar e eu tivemos muitos bons momentos, juntos.
Lembro-me de quando viajamos para...
	Adeus  Vernica despediu-se. Pousando a mo sobre o fone, Cass replicou:
	Adeus. Faa uma boa viagem.
A ruiva nem sequer olhou para trs.
	Visitei Oscar uma vez, no Paraso Perdido  Wilhelm continuou.  Como vo os negcios?
	A pousada est sendo vendida  Cass respondeu, voltando a se concentrar no telefonema.
	E o fim de uma era. Quando estive a, com Oscar, ns...
Embora os rudos na linha indicassem que a ligao era
internacional, ele continuou falando do amigo por mais cinco minutos.
Quando finalmente desligou o telefone, Cass decidiu dar uma olhada em Jack, pois o garotinho estava quieto havia muito tempo. Aproximou-se do carrinho e parou, de olhos arregalados, o sangue gelando nas veias. O carrinho estava vazio! O que acontecera a Jack? Onde ele estava?
Ordenou a si mesma que mantivesse a calma. Provavelmente, Gifford a vira ocupada ao telefone, apanhara Jack e o levara para ver o mar, os papagaios... qualquer coisa. Sim, fora isso o que acontecera. Gifford j fizera isso antes... embora jamais sem a sua permisso.
Foi at a varanda e olhou em volta. Onde estariam pai e filho?
	Gifford?  chamou em voz alta.  Giff?
Como no obtivesse resposta, foi at a praia. Estava deserta. Ento, dirigiu-se ao bangal. Embora continuasse repetindo que no havia motivo para se assustar, uma necessidade de estar perto do filho, de se certificar de que ele estava so e salvo a fez correr.
Deu a volta na casa, constatando que a sala de ginstica, a sala de estar e a cozinha encontravam-se vazias. Ao passar pela janela do escritrio, viu Gifford inclinado sobre uma mquina de escrever porttil, datilografando com um s dedo.
Cass franziu o cenho. No viu Jack em lugar algum.
Ainda correndo, voltou  porta da cozinha e entrou sem bater. Ao se ver na porta do escritrio, foi logo perguntando:
	Onde est Jack? No acha que deveria falar comigo,
antes de lev-lo com voc?
Gifford parou de datilografar e virou-se para fit-la.
	No vi Jack, hoje.
	No estou achando a menor graa nessa brincadeira! Alis, quero que saiba que no vejo graa nenhuma em voc dar tanta ateno ao seu filho, agora, se no pretende fazer parte da vida dele no futuro. Na verdade, acho sua atitude lamentvel!
Gifford pareceu prestes a reagir ao ataque inesperado, mas limitou-se a dizer:
	No estou brincando. Jack no est comigo.
Cass empalideceu, ao mesmo tempo em que um tremor intenso tomava conta de seu corpo.
	Mas... o carrinho est vazio... Jack no est onde o
deixei.
	Talvez Edith o tenha levado para um passeio  ele sugeriu.
	No. Ela foi visitar a irm. Saiu logo depois do almoo e, desde ento, estou sozinha. Deixei o carrinho em um canto do restaurante, enquanto limpava o bar e... Algum deve ter entrado sorrateiramente, quando eu estava de costas e... levado Jack.
Gifford ps-se de p, dando-se conta de que estava diante de uma verdadeira emergncia.
	No ouviu nenhum barulho? Nenhum carro se aproximou? Voc no viu ningum?  inquiriu, nervoso.
	Vernica passou por l, mas...
	Ela o levou.
Cass sacudiu a cabea.
	Vernica estava a caminho do aeroporto, para tomar o avio para Mah. No levaria um beb...
	Levaria, sim. Ela deixou claro quanto gostaria de ter um filho e  louca o bastante para fazer qualquer coisa  Gifford insistiu e, pegando Cass pelo brao, levou-a para fora da casa.  Vamos ao aeroporto. Corra na frente e v manobrando o jipe. Alcanarei voc em um instante. Depressa!

CAPITULO VII

Cass correu de volta ao Paraso Perdido, entrou no chal, apanhou as chaves e saiu. Mal dera a partida no motor, quando Gifford saltou para o banco do passageiro.
	Vamos!  ele ordenou.  Eu avisei que voc no deveria deixar Jack sozinho com Vernica.
	No o deixei com ela! Vernica apareceu e, quando conversvamos, o telefone tocou. Fui atender, ela se despediu e saiu. Deve ter apanhado Jack quando saa e eu estava de costas. Tudo aconteceu em segundos.
	Desculpe  Gifford falou, pousando a mo no brao de Cass.
A crtica fora injusta e ele tambm estava muito aflito.
	Como ela pde levar Jack no Toyota, se no tem cadeirinha de segurana?  Cass especulou, reprimindo as lgrimas.	
	O carro tem cinto de segurana. Ela certamente o prendeu entre as malas. Tente se acalmar. Jack  um garotinho forte. Vai ficar bem.
	Estou rezando por isso.
	Quanto tempo faz que Vernica foi embora?
	No mais que quinze minutos  Cass respondeu, pisando fundo no acelerador.  Ela queria falar com Jules.
Ento, contou o que o rapaz lhe contara sobre a noite anterior.
Gifford franziu o cenho.
	Ele disse que a namorada est grvida? Sem querer, deve ter detonado em Vernica a necessidade insana de ter um filho... mesmo que seja o filho de outra mulher.
	Ela falou em comprar uma casa na ilha, para ficar com Jules...
	Pelo que vi e ouvi, ele s iria morar com ela amarrado e amordaado!
	Eu disse a ela que estava sonhando acordada e ela no gostou.  Cass lanou um olhar preocupado para Gif-ford.  Pode ter levado Jack para se vingar de mim, por eu ter sugerido que Jules no est interessado nela.
	Bem, voc no teve culpa de nada. Qualquer um tem o direito de expressar suas opinies. Especialmente em se tratando de uma opinio sensata. Vamos encontrar Jack  ele afirmou, convicto.  Sabe a que horas parte o vo para Mah?
	No, mas pode j ter decolado.
Cass lutou com todas as foras para no se desfazer em lgrimas. No poderia se dar a esse luxo. Embora a estrada estivesse tranquila, precisava estar atenta para ultrapassar um carro ocasional, bem como para desviar de possveis animais.
	Se o avio houver decolado, pediremos  polcia de Praslin para telefonar s autoridades de Mah  Gifford declarou.  Afinal, ela deve se apresentar no aeroporto de l duas horas antes do vo para a Inglaterra.
Cass assentiu em concordncia.
	O que significa que podero deter aquela maluca... seqestradora, antes do embarque.
	Mas... e se ela embarcar em outro avio, para outro lugar? Vernica pode viajar para qualquer pas, em qualquer continente. Ou, ento, pode deixar o aeroporto e desaparecer em Mah... com Jack!
	Mah no  uma cidade grande e no ser nada difcil localizar uma mulher com uma criana, mas sem roupas ou alimentos adequados ao beb. Especialmente uma mulher faladeira como ela.
	Tem razo  Cass admitiu.
	Vernica deve ter levado Jack por impulso, sem planejar nada. Ela no tem um passaporte para ele, mas ter de apresentar um para deixar Mah. Portanto, ser detida no departamento de imigrao. No ter a menor chance de...
Gifford parou de falar, pois haviam entrado no estacionamento do aeroporto e, na pista, um avio j tinha os motores funcionando, enquanto funcionrios da companhia area fechavam o compartimento de bagagem. O que significava que o avio estava prestes a decolar.
	Aquele  o avio que parte para Mah?  inquiriu.
	Acho que sim, mas  melhor nos informarmos.
Cass mal estacionou ao lado do terminal, e os dois j se encontravam fora do jipe, rumo ao saguo. L, avistaram uma moa com o uniforme do aeroporto, parada junto a uma porta aberta para a pista, observando o avio. Correram at ela.
	Aquele  o avio para Mah?  Gifford perguntou.
	Sim, senhor.
	Pode fazer o favor de pedir ao pessoal do controle de trfego areo, ou a quem quer que seja, que ordene ao piloto desligar os motores e permanecer exatamente onde est?
	O qu?
	Faa isso, imediatamente! E uma emergncia.
	Tem esperana de pegar aquele avio?  a moa perguntou com um sorriso simptico.  Sinto muito, senhor, mas o vo est lotado. E eu jamais poderia pedir que...
	Tarde demais. O avio est partindo  Cass falou com um fio de voz, sentindo um aperto doloroso no peito.  Jack est naquele avio... Posso nunca mais voltar a ver meu filho.
	No se preocupe. Eu o trarei de volta  Gifford afirmou e, passando pela funcionria do aeroporto, atravessou a porta e se ps a correr pela pista.
Usando a bengala como apoio extra, Gifford agitou ou brao livre e gritou, mas estava atrs do avio.
	No adianta!  Cass chamou da porta.  Ningum est vendo voc e, tambm, no podem ouvi-lo...
As palavras morreram no ar. Gifford atirou a bengala no cho e, correndo ao lado do avio em movimento, gritava como louco para que o piloto parasse.
Cass ficou petrificada. S podia ser uma grande fora de vontade que permitia a Gifford correr naquela velocidade. A presso sobre a perna atrofiada era, com certeza, imensa. Ele poderia estar estragando todo o trabalho dos mdicos, arriscando-se a sofrer danos permanentes ainda maiores do que aqueles ocasionados pelo acidente.
	O que aquele sujeito pensa que est fazendo?  perguntou um policial que havia se aproximado de Cass.  S um louco corre desse jeito, debaixo de um sol de quarenta graus.
	Nosso filho foi raptado e ele est tentando impedir o avio de decolar  Cass informou-o.  Por acaso, viu uma ruiva, de roupa beige, com um garotinho nos braos, embarcar?
O policial assentiu.
	Sim. O beb tentava agarrar-lhe o brinco e ela no estava gostando nada disso.
	Espero que ele lhe arranque as orelhas! O beb  meu filho, Jack. Ela o pegou e...
	Seu companheiro conseguiu  o policial interrompeu.
Quando virou, Cass descobriu, surpresa, que o avio diminura a velocidade. Disparou pela pista, apanhando a bengala de Gifford no caminho, e foi parar ao lado dele.
	Voc est bem?  perguntou.
	Eu... acho que sim  ele respondeu, ofegante.
	No pensei que voc fosse conseguir, mas...
	Nem eu. Traga a escada!  Gifford gritou para um homem uniformizado, que o obedeceu de pronto, ao ver o avio parado.
	Fiquei impressionado com a sua velocidade  disse o policial, que havia se juntado a eles.  Sua esposa deve estar satisfeita por ter se casado com um atleta como voc.
Esposa? Cass esperou que Gifford corrigisse o policial, mas ele estava ofegante demais para falar.
	Estou, sim  ela replicou, decidindo que aquele no
era o melhor momento para discutir tamanha banalidade.
Ento, a porta do avio foi aberta. Ao ver Vernica parada no topo dos degraus, com Jack nos braos, Cass foi invadida por uma onda de alvio. Agarrado a um dos brincos da ruiva, o garotinho parecia alegre e animado.
Gifford passou um brao em torno dos ombros de Cass.
	Ele est so e salvo!
Cass fitou-o com olhos cheios de lgrimas.
	Graas a voc  murmurou, antes de correr para tomar o filho nos braos.
	Vamos esclarecer essa histria  Gifford falou.  Voc pegou Jack porque ele sorriu para voc?
Vernica assentiu.
	Ele estava acordando e sorriu e ergueu os bracinhos, como se quisesse vir comigo... embora, agora que estou re-fletindo melhor, acho que estava apenas se espreguiando.. Bem, ele pareceu gostar de mim, quando ningum mais se importava.
	Ento, decidiu rapt-lo?
	No foi uma deciso consciente. Simplesmente, deixei-me levar pelo momento. Sinto muito  ela se desculpou, entre lgrimas. Jack estava se divertindo no carro, dando gritinhos de alegria, cada vez, que passvamos sobre uma lombada. Mas, quando chegamos no avio...
	Jack chorou?  Cass perguntou, furiosa.
	Muito pelo contrrio  disse a senhora francesa, que ocupara o banco ao lado de Vernica, no avio.  Ele parecia feliz e satisfeito.
Estavam em um escritrio, no terminal. Quando o policial, acompanhado por outro mais jovem, fora verificar junto ao piloto o que realmente acontecera, ficara esclarecido que a decolagem no fora cancelada por causa de Gifford, pois o piloto nem sequer o vira. A francesa idosa ouvira a admisso de Vernica sobre ter raptado o beb e, prontamente, informara a cabine de comando.
E, quando os policiais informaram os passageiros curiosos de que a ruiva seria retirada do avio para interrogatrio, a francesa insistira em acompanh-los, alegando ser capaz de fornecer informaes importantes. Assim, o avio partira sem as duas.
	Quando estvamos na fila de embarque, o garotinho no parava de se revirar nos braos dela, tentando agarrar tudo o que via pela frente  a senhora contou.
	Ele babou na minha blusa  Vernica complementou.
	E voc no gostou?  Gifford indagou, erguendo uma sobrancelha.
	Claro que no! Este conjunto foi desenhado por um estilista italiano e me custou uma fortuna!
	No tinha se dado conta de que crianas podem dar muito trabalho?  Cass inquiriu.
A ruiva sacudiu a cabea.
	Jack sempre foi to bonzinho, to bem-comportado, mas hoje, simplesmente no conseguia ficar quieto um segundo.
	Talvez ele no tenha gostado de ser raptado e tenha decidido fazer voc pagar por isso  Gifford sugeriu.
Vernica corou.
	 possvel  admitiu.
	Voc deveria ter pensado no que estava fazendo Cass passar!  ele repreendeu.
	Tem razo. Eu... eu sinto muito.
	Sente muito?  ele repetiu com uma risada sarcstica.  Pode imaginar como Cass se sentiu, quando se deu conta de que o filho dela havia desaparecido? Tem ideia do desespero, do terror que voc provocou?
Vernica soluou.
	Sim, e estou muito arrependida.
	J raptou alguma criana, antes, em seu pas?  inquiriu o policial mais jovem, ansioso para assumir o controle do interrogatrio.
Afinal, semanas e semanas se passavam, sem que nada significativo acontecesse por ali. Aquele episdio representava uma excitante mudana de rotina.
	Ora, claro que no!  Vernica respondeu, horrorizada.
	Est dizendo a verdade? Podemos investigar se a senhora possui uma ficha criminal  o jovem ameaou.
	Juro que estou dizendo a verdade. Nunca em minha vida estive metida em qualquer tipo de encrenca.
	At agora  o policial mais velho acrescentou.
	Peguei Jack por impulso. Por favor, me perdoem!  ela implorou entre lgrimas e soluos.
	Quando comentei que  comum as crianas ficarem agitadas durante viagens  disse a francesa , ela confessou que o garotinho no era filho dela, mas jurou que, assim que aterrissssemos em Mah, ia telefonar para a verdadeira me e combinar uma maneira de devolv-lo.
Vernica balanou a cabea com vigor.
	E verdade. Eu pretendia pegar o primeiro avio de volta para Praslin.
	Ao que parece, ficou aliviada quando o avio parou e voc viu a chance de se ver livre de Jack  Gifford arriscou em tom seco.
	Eu diria que ela no faz o tipo maternal  a velha senhora concluiu.
Vernica franziu o cenho.
	No fao, mesmo. Sou uma mulher de negcios.
	E o comportamento de Jack curou voc da vontade de ter um filho?  Cass perguntou.
	Para sempre  a ruiva respondeu, secando as lgrimas que haviam borrado sua maquiagem.
	A senhora deu um susto horrvel nos pais do beb  o jovem policial acusou-a em tom rspido.
	Pais?  Vernica repetiu, confusa.
	Sr. e sra...  o rapaz falou, olhando para Gifford.
	Tait  ele completou.
	Embora o sr. e a sra. Tait tenham recuperado o filho, terei de prend-la e...
	Vai me... prender?  Vernica gaguejou.
	E mesmo necessrio?  Cass inquiriu.
Esperava que Vernica protestasse contra o uso de "sr. e sra.", mas ao que parecia, estava preocupada demais com os prprios problemas. Quanto a Gifford, ele parecia satisfeito em deixar as coisas como estavam.
	A priso seria o procedimento normal  o jovem po
licial explicou , mas tudo vai depender de vocs registra
rem ou no uma queixa.
Cass aproximou-se de Gifford e sussurrou:
	Se Vernica for presa, poder permanecer na priso por algum tempo. No quero que isso acontea. Afinal, ela no planejou raptar Jack e, na verdade, j estava decidida a devolv-lo e...
	Voc tem um corao mole demais. De minha parte, gostaria de ver esta maluca atrs das grades, mas sei que o processo poderia se arrastar por meses.  Virou-se para o policial.  No temos a inteno de registrar queixa contra ela.
Os dois policiais trocaram um olhar relutante. Ambos haviam acalentado a esperana de serem chamados a testemunhar no tribunal, bem como de serem citados nos jornais.
	Sendo assim, o caso est encerrado  decretou o mais velho.
	Obrigada! Muito obrigada!  Vernica agradeceu em meio a mais uma crise de choro.  Vocs so muito bondosos e compreensivos. Estou profundamente arrependida do que fiz.
A francesa, que havia erguido as sobrancelhas ao ouvir o comentrio teatral, voltou a ateno para a pista, onde outro avio se preparava para decolar.
	Se conseguirmos embarcar agora, para Mah,  possvel que ainda haja tempo de pegarmos nosso avio, l  declarou, esperanosa.
Um dos policiais adiantou-se.
	Telefonarei para o aeroporto de Mah, pedindo que dem prioridade s senhoras.
Assim que Vernica e a francesa encaminharam-se para a pista, Cass tomou Jack nos braos e, ao lado de Gifford, foi para o estacionamento, onde deixara o jipe.
	Como est sua perna?  perguntou, ansiosa, ao perceber que Gifford mancava mais que o normal.
	Dolorida e fraca, como se eu tivesse corrido uma maratona.
	E no foi o que voc fez? O que acha de pararmos no hospital de Grand Anse?
	No ser necessrio.
	Um mdico poderia examin-lo e... Gifford sacudiu a cabea.
	Vou esperar at amanh  insistiu.
	Fiquei surpresa quando vi voc atirar a bengala e correr daquele jeito  Cass confessou, enquanto acomodava Jack na cadeirinha de segurana.
	Eu tambm  ele admitiu.  O avio ia devagar e achei que, se conseguisse me colocar  frente...
	Se o piloto no o visse, seria esmagado! Ele riu.
	Acho que eu no ia gostar disso.
	Nem eu  Cass falou com um sorriso, antes de se atirar nos braos dele.  Tive tanto medo... por voc, por Jack, por mim.
Percebendo que ela finalmente dava vazo s lgrimas que conseguira conter a custo, por tanto tempo, Gifford abraou-a com fora. Afagou-lhe os cabelos e beijou-lhe a testa, murmurando palavras de conforto. Quando Jack se mostrou preocupado com a me, Gifford acalmou o garotinho tambm.
Aps alguns instantes, Cass secou as lgrimas.
	Est se sentindo melhor, agora?  Gifford perguntou.
	Muito melhor  disse, e deu a partida no motor.  Pouco antes de voc disparar na sua maratona, estava me dizendo que seria impossvel Vernica deixar Mah com Jack, por no ter o passaporte dele. Ento, como num piscar de olhos, saiu correndo para recuper-lo.
	Percebi o seu desespero e decidi que faria o possvel para impedir que Jack deixasse esta ilha. Nunca pensei que fosse capaz de voltar a correr, mas...  virou-se para trs, onde Jack parecia prestar ateno  conversa  ...voc e sua me me fizeram descobrir o contrrio.
	Deve ter chegado perto de quebrar o recorde dos cem metros rasos!  Cass provocou e, ento, ficou sria.  Espero que o esforo no traga maiores problemas para a sua perna.
		O que est feito, est feito. Vou precisar de um ou dois dias para saber se a corrida ter algum efeito malfico.
 Gifford voltou a virar para o banco de trs.  Voc  mesmo uma causa perdida, pirralhinho.  raptado, mas nem chora. Muito pelo contrrio, parece se divertir!
Jack bateu palmas.
	Voc deve se achar o mximo  Cass falou, olhando pelo espelho retrovisor , mas Vernica no te aguentou!
	Graas a Deus!  Gifford murmurou.
Cass assentiu, retomando a expresso sria. Pelo resto
da viagem, permaneceu em silncio, agradecendo a Deus por seu filho no ter se comportado bem, por Vernica ter se dado conta do erro que cometera e, mais importante, por Gifford estar ali para ajud-la. Vernica parecera sincera ao dizer que havia decidido devolver Jack, mas, se o garotinho houvesse se comportado melhor...
Quando se aproximavam do Paraso Perdido, avistaram Edith entrando no restaurante. A nativa acabara de voltar da casa da irm.
Cass buzinou e comentou com Gifford:
	Ainda bem que estamos chegando agora. Se Edith encontrasse o lugar deserto, ficaria muito preocupada.
	Por onde andaram?  perguntou, curiosa, quando eles saram do jipe.
	Fomos buscar Jack  Cass respondeu.
	Vernica o raptou  Gifford explicou. Edith arregalou os olhos.
	Raptou?
	Sim, mas Gifford correu na velocidade do vento, o avio parou e...
	isso foi cortesia daquela senhora francesa  ele a corrigiu.
	E conseguimos ter Jack de volta.
	Que avio? Que senhora francesa?  Edith parecia completamente confusa.
	Vamos entrar e, ento, contaremos a histria desde o incio  Gifford sugeriu.
Edith continuou a fit-lo.
	Voc correu como o vento porque...  pai de Jack?
	Sim, eu sou, mas voc j sabia.
Ela soltou uma de suas risadas gostosas.
	Sim, percebi j faz algum tempo. Ele  a sua cara e, alm disso, voc no ia babar desse jeito pelo filho de outro homem.
Gifford sorriu.
	Eu babo?
	Muito! E, tambm, baba pela Cassie, quando ela no est olhando.
	Verdade?  ele resmungou, antes de mudar de assunto.  A corrida me deu sede. Ser que posso beber uma cerveja?
	E para j : Cass falou e, depois de entregar-lhe Jack,   desapareceu na cozinha.
Se Edith havia percebido que Gifford babava por ela, certamente tambm percebera que ela babava igualmente por ele. E, claro, no queria que a mais velha a delatasse.
Cass bocejou. Depois de um dia to agitado, sentia-se exausta. Saiu do banho, secou-se em uma toalha felpuda e vestiu a camiseta enorme que usava como camisola. Embora ainda no fossem dez horas, no via a hora de se deitar.
Com cuidado, abriu a porta do quarto de Jack. O garotinho, depois de teimar em ficar acordado at quase nove horas, finalmente dormia profundamente. Olhando para ele, Cass sentiu um aperto no peito. Felizmente, seu filho estava so e salvo.
Quando se encaminhava para seu quarto, ouviu uma leve latida na porta. Suspirou, calculando que fosse Edith.
Depois do almoo movimentado, no haviam tido nenhum fregus no jantar. Enquanto Cass tentava fazer Jack dormir, Edith e Jules haviam se sentado no restaurante, falando de Vernica e dando graas a Deus por a ruiva j estar a caminho de casa.
Quando Cass fora inform-los de que Jack pegara no sono, Edith dissera:
	Aparentemente, no teremos mais nenhum fregus hoje e, por isso, Jules foi embora. Fiquei me perguntando se Gifford apareceria para jantar, mas imaginei que a corrida no aeroporto deve t-lo deixado exausto.
	Sim, ele deve estar descansando  Cass concordara.
Quando se encaminhava para a porta, ela franziu o cenho. J era muito tarde para servir algum jantar, mas provavelmente, algum aparecera pedindo drinques e Edith estava precisando de sua ajuda. Embora no costumasse recusar nenhum cliente, naquela noite Cass o faria de bom grado.
Porm, quando abriu a porta, deparou com Gifford.
	O que aconteceu? Sua perna est doendo? Quer que eu o leve para o hospital?  perguntou, alarmada.
	No, obrigado. Minha perna est doendo, mas no muito. E veja isso  ele ergueu as duas mos espalmadas.  Sem bengala. Decidi que, enquanto a usasse, precisaria dela. Por isso, estou fazendo um teste e me locomovendo sem ela.
	Agora? Poucas horas depois de correr a maratona? E veio no escuro? Voc poderia ter cado!  Cass protestou.
	Trouxe uma lanterna e tomei bastante cuidado. Ainda assim, se cair, basta me levantar novamente. Estou aqui porque preciso lhe dizer uma coisa.  Os olhos de Gifford baixaram para os trajes de Cass.  Mas, se estava indo se deitar...
	No, ainda no  ela mentiu, pois sentia-se grata emais por ele ter recuperado Jack de Vernica.  Entre.
	Obrigado.
Na sala, Cass convidou-o a sentar-se no sof, enquanto ela mesma se acomodava em uma poltrona.
	O que precisa me dizer?
	Preciso explicar por que, quando voc perguntou se eu estava disposto a participar da vida de Jack, no futuro, eu disse que no era boa ideia.
	Cass cerrou os dentes. Era de se esperar que o susto daquela tarde o fizesse pensar melhor no relacionamento com o filho, mas ela estava cansada demais para ouvir argumentos e desculpas.
	Desculpe, mas...  comeou a protestar.
	Eu disse isso porque sou um... deficiente.
	Jack no vai se importar  Cass retrucou com impacincia.
	Talvez no, mas eu me importava. Pensei nele crescendo com um pai incapaz de ensin-lo todos os esportes comuns, como um pai deve fazer e... bem, eu me senti muito mal. Achei que, se ficasse longe dele, eu o pouparia de tal infelicidade.
	Cass sacudiu a cabea.
	Giff, ele...
	Por favor, oua o que tenho a dizer. Achei que, se no podia ser um pai adequado, perfeito, para Jack, ento, simplesmente no poderia ser um pai para ele. Mas, nenhum pai  perfeito. O meu, com certeza, no . Ento, duas coisas aconteceram. Em primeiro lugar, o que voc disse sobre eu ter de dar fim  autopiedade me fez pensar.
	Cass fitou-o, incrdula.
	Verdade?
	No incio, disse a mim mesmo que voc estava errada, que no fazia ideia de como eu me sentia, mas, gradualmente, comecei a me perguntar se voc no estaria certa. Lembra-se de que eu disse que voc tinha o direito de expressar sua opinio para Vernica?
Ela assentiu.
	Uma opinio sensata.
	Exatamente. Dei-me conta de que voc estava expressando uma opinio sensata sobre mim e sobre a maneira como eu estava lidando com a minha deficincia.
	E qual foi a segunda coisa que aconteceu?
	Hoje  tarde, eu corri. Pela primeira vez, desde o acidente, eu me esqueci da minha perna, esqueci da injustia do que me aconteceu... e corri.
	Por desespero e pura fora de vontade.
	Sim, mas consegui e posso conseguir muito mais. Posso caminhar sozinho, mesmo que manque um pouco. Esta noite, fiquei descansando e pensando. Aceito que jamais voltarei a ser gil como era. Reconheo que, como voc disse, sempre serei limitado, at certo ponto. Por outro lado, isso no me impede de ser um pai para Jack e eu quero ser um pai para ele. Quero estar por perto,  medida que ele for crescendo. Tudo bem?
A alegria fez Cass levantar-se da poltrona e ir se juntar a Gifford, no sof.
	Sim, Giff! Claro que sim!
	Obrigado. Antes, eu s pensava em tudo o que no podia fazer, mas agora...  tomou-lhe a mo e beijou-a. 
Agora, sei que tudo  possvel.
	E a vida voltou a lhe parecer boa?
Gifford sorriu.
	A vida me parece muito boa  ele murmurou e inclinou-se para ela.
As palavras soaram como eco daquelas ditas mais de dezoito meses antes, quando haviam feito amor pela primeira vez. Cass hesitou. Gifford estava prestes a beij-la, mas os beijos costumavam levar a uma intimidade maior. Queria fazer amor com ele. Depois de um dia to conturbado, precisava daquela proximidade, de conforto, mas...
	Gosto de voc  Gifford declarou, como se percebesse f os medos dela e precisasse bani-los.
	Eu tambm  ela falou.
Com um sorriso, ele roou os lbios nos dela.
No momento em que seus lbios se tocaram, Cass deixou a cautela de lado. Passou um brao em torno do pescoo de Gifford, colou o corpo ao dele e retribuiu o beijo com ardor. Embora a voz da razo insistisse em que ela poderia se arrepender, suas emoes venceram a batalha.
O cansao desapareceu, cedendo  presso do desejo. Cass sentiu o corpo latejar de prazer.
	Voc parece feita de seda  Gifford murmurou, deslizando uma das mos por sua coxa.
Segurou a bainha da camiseta e puxou-a para cima, at tir-la. Com olhos faiscantes de desejo, examinou-lhe o corpo cheio de curvas, antes de acariciar-lhe os seios.
	Gloriosa  sussurrou-lhe ao ouvido e enterrou o rosto em seus cabelos, beijando-lhe o pescoo.  Seu cheiro  to bom quanto a sua aparncia.
Cass sorriu.
	 sabonete para beb.
	Alm do seu perfume natural.
Gifford continuou a acariciar-lhe os seios at arrancar dela gemidos de prazer. Ento, suas mos deslizaram pela pele macia do ventre, dos quadris, e alcanaram o tringulo dourado na juno de suas coxas.
	Preciso tomar alguma precauo?  ele perguntou.
	No. Estou tomando plula.
	Bom, embora eu tenha vindo preparado.
Cass pousou as mos no peito de Gifford e empurrou-o.
	Veio preparado? Tinha tanta certeza de que eu... sucumbiria?
Ele sorriu.
	Digamos que eu sabia que, se eu sucumbisse, voc tambm sucumbiria. E as chances de eu no resistir eram muito altas, mas no queria cometer o mesmo erro duas vezes.
	Voc  to... arrogante!
	No se trata de arrogncia, mas sim de realismo. Voc e eu sempre soubemos que voltaramos a fazer amor.  inevitvel.  o destino.  Deitou-a no sof e beijou-a.  No concorda?
		Sim, concordo  Cass falou com voz rouca.
Em seguida, ps-se a desabotoar a camisa de Gifford, a fim de sentir-lhe a pele em contato com a sua.
	Cass...  ele murmurou, ao mesmo tempo em que se punha de p, a tomava nos braos e levava para o quarto.
Com mos trmulas, acabaram de se despir e atiraram-se na cama, onde trocaram carcias ternas e ousadas, determinados a proporcionar um ao outro o mximo prazer.
Gifford precisou de todo o seu autocontrole para no apressar as coisas. Quando j estava prestes a explodir de desejo, certificou-se de que Cass estava pronta para receb-lo e penetrou-a com paixo quase reverente.
Depois de tanto tempo sozinha, Cass no demorou a atingir o clmax, mas, nos poucos minutos que antecederam aquele momento, sentiu-se envolta por uma magia nunca antes experimentada. Perguntou-se se isso acontecia pela certeza inquestionvel de seu amor por Gifford.
Ento, o mundo deixou de existir. Eram somente eles dois em meio ao fogo da paixo e do xtase.
	Ah, como eu te queria!  Gifford confessou, quando finalmente recuperou o flego, tendo Cass aconchegada em seus braos. Com um sorriso maroto, acrescentou:  Outro dia, quase a agarrei e atirei sobre a mesa do restaurante!
	Seria um verdadeiro escndalo  ela zombou.
	Ora, onde est o seu esprito de aventura?  Ento, o sorriso de Gifford desvaneceu.  Desde que a encontrei aqui, tenho sentido uma forte vontade de fazer amor com voc, mas tinha medo de que minha perna deformada pudesse interferir e estragar tudo. Eu me sentia... esquisito.
	Esquisito, voc? Nunca! Por acaso, pensou em sua perna agora, enquanto fazamos amor?
	Nem uma vez.
	Eu tambm no.  Foi a vez de Cass exibir um sorriso maroto.  Estava ocupada demais, pensando em outras partes do seu corpo, que se encontram na mais perfeita forma!
Gifford tomou-lhe a mo e guiou-a at a prova viva de sua masculinidade.
	Em forma mais que perfeita  comentou, malicioso. Cass riu alto.
	Sou obrigada a concordar com a sua afirmao.
	E?
	Voc  insacivel!
	Faz muito tempo que no fao amor com ningum.
	Desde o acidente?
	No. Desde a ltima vez em que fiz amor com voc. Ela o fitou com expresso de surpresa.
	So dezoito meses  concluiu.
	O que no  nada bom para a minha imagem de macho viril, no  mesmo?
	Tem razo.
	Acontece que no conheci nenhuma outra mulher que me despertasse o desejo como voc consegue.
Cass sorriu, gostando muito do que estava ouvindo.
	No se sentiu tentado a discar um desses telefones para conhecer pessoas do sexo oposto? Nem pensou em publicar um anncio em uma coluna de "encontros"?  perguntou com um brilho divertido no olhar.
	Solteiro, trinta anos, no fumante, apartamento prprio e todos os dentes em perfeito estado procura loura esbelta para diverso? No!  Apertou-a contra si.  Mas, tambm, no tenho a menor inteno de manter o celibato por um perodo to longo novamente.
	Eu no tenho inteno de permitir que voc mantenha o celibato por tanto tempo  ela afirmou, subitamente sria. invadida por uma necessidade desesperada de t-lo junto de si.
Seus lbios se encontraram e, sedentos de prazer, eles se embriagaram nas sensaes que proporcionavam um ao outro. E voltaram a fazer amor com paixo renovada.
	Voc no se incomoda com o fato de nosso filho ser ilegtimo?  Gifford perguntou, mais tarde, quando desansavam lado a lado, na cama.  Sei que, hoje em dia, essa condio no  exatamente um estigma, mas...
	 claro que me importo... e muito.
	Eu tambm. Ento, por que no consideramos a ideia de um futuro juntos?
Cass fitou-o com ar desconfiado.
	E o que isso significa?
	Casamento.
A surpresa fez com que ela se sentasse de um pulo.
	Est sugerindo que devemos passar a ser sr. e sra. Tait?  indagou.
	Sim, como o policial nos chamou,  tarde. Algum problema?
	Sim, um problema enorme. Para usar as suas palavras, voc tem "verdadeiro pavor de se ver amarrado e no nasceu para a vida domstica".
A expresso de Gifford tornou-se sombria.
E voc tem excelente memria.
Aquele foi um momento inesquecvel.
Ele tambm se sentou.
	Digamos que eu tenha mudado de ideia e que, de repente, a vida domstica me parece extremamente atraente.
	Digamos que o "de repente"  muito relevante e que voc deveria pensar melhor.
No ser necessrio. Por favor, Cass, case-se comigo.
O corao de Cass ameaou parar de bater. No passado, teria vendido a prpria alma em troca daquelas palavras, teria sentido que seus maiores sonhos haviam se realizado. Agora, porm...
A inteno de Gifford era dar seu nome a Jack, reconhec-lo como seu filho, tornando-o respeitvel. Tratava-se de uma inteno admirvel e ela se sentia grata e at mesmo comovida por isso. No entanto, pouco antes, ele dissera que gostava dela, mas no mencionara amor. Cass mordeu o lbio, pensativa. Amar era mais profundo, mais forte e mais intenso do que gostar. O amor fazia uma grande diferena na vida de uma pessoa.
As evidncias indicavam que, se viessem a se casar, certamente se dariam bem e a parte sexual seria fantstica. Alm disso, Jack cresceria em uma famlia normal, o que tambm seria timo. Ainda assim...
Ainda assim, ela estaria sempre consciente de que o amor no fazia parte da equao de Gifford. E tal conscincia parecia destinada a corroer sua paz de esprito, at destru-la por completo.
Ou no? A mente de Cass girava em disparada. Uma vez que Gifford amava o filho, poderia vir a am-la tambm, com o passar do tempo. Sendo assim, deveria correr o risco? Ah, como gostaria!
Mas ele poderia se apaixonar por outra mulher e decidir ficar com ela somente pelo senso de dever e responsabilidade, argumentou sua imaginao frtil. Seria capaz de suportar tal situao?
	No  Cass respondeu.
	Prefere continuar sozinha, com Jack?  ele inquiriu.
	Sim, mas... Bem, gostaria que ns dois fssemos amigos. Tudo bem?
	Tudo bem.
	E quero que v visitar Jack sempre que tiver vontade.
	Obrigado  Gifford agradeceu, levantou-se da cama e vestiu a roupa.  Boa noite.
Cass esforou-se para sorrir. Acabara de recusar a proposta de casamento de um homem gentil e carinhoso, um poo de integridade... o homem que ela amava.
	Boa noite  replicou.
CAPITULO VIII

Jules estava atrasado. As mesas estavam arrumadas, os pratos frios haviam sido dispostos na longa mesa ao fundo do restaurante e os pratos quentes encontravam-se na cozinha, semi-prontos. Cass consultou o relgio. Os turistas da excurso chegariam a qualquer momento. Onde estava o barman?
A agncia de turismo responsvel pela excurso informara que o grupo daquele dia era bem maior que o habitual, pois um navio atracara em Baie St. Anne e vrios passageiros haviam decidido fazer parte do grupo. Isso significava que, enquanto Edith cuidava da cozinha, Cass e Marquise trabalhariam como loucas no restaurante. Repor os pratos frios do bufe e retirar a loua suja das mesas j seria difcil, sem ainda terem de servir as bebidas.
Quando foi verificar se Jack ainda dormia profundamente no carrinho, o nibus da excurso estacionou em frente ao restaurante.
	Acho que Jules perdeu a hora de novo  Cass comentou com Marquise, que j retirava a proteo das bandejas de salada.
A adolescente fez uma careta.
	Tambm acho, mas por que ele tinha de escolher  justamente hoje para dormir at mais tarde?
Quando recebia os turistas na porta do restaurante, Cass ouviu uma voz masculina na cozinha.
	J era tempo!  murmurou consigo mesma e correu at l.  Ora, o que voc...  comeou a protestar, mas parou ao descobrir que a voz que ouvira pertencia a Gifford. Ele sorriu.
	Ol. Fui nadar e, quando me secava ao sol, senti o cheiro delicioso do curry. Ento, vim persuadir Edith a guardar um prato para mim.
	E ela disse que voc pode comer quantos pratos quiser?  Cass inquiriu.
	Claro!  Edith respondeu com uma gargalhada.
Persuadir a eternamente grata Edith a fazer-lhe a vontade seria fcil demais, Cass pensou. Ora, seria igualmente fcil para Gifford persuadir qualquer mulher. Vestindo camisa de mangas curtas, aberta no peito, e short colado ao quadril, ele era um dos mais belos exemplares de sua espcie!
E, com todos aqueles atributos masculinos, certamente no encontraria a menor dificuldade em persuadi-la a ir para a cama com ele novamente.
Com um gesto nervoso, Cass afastou uma mecha de cabelos do rosto. Ao mesmo tempo em que no seria capaz de lamentar a intimidade que haviam partilhado, pois fora definitivamente maravilhosa, preferia evitar uma repetio daqueles momentos. Continuar fazendo amor com Gifford partiria cada vez mais seu corao, alm de torn-la ainda mais vulnervel.
Havia passado o dia todo, na vspera, perguntando-se se voltaria a partilhar a cama com ele. Porm, tal preocupao havia se revelado desnecessria, quando ele aparecera apenas para levar Jack para um passeio e jantar no Paraso Perdido. Gifford fora gentil e amigvel, nada mais. A noite, Cass adormecera aliviada por ele ter concordado em permanecer seu amigo. Porm, sentira uma decepo irracional.
	Onde est o pirralhinho?  Gifford perguntou.
	Est dormindo no carrinho, no fundo do restaurante, com Marquise como guarda-costas.
	Voc verifica se ele est mesmo ali a cada trinta segundos?
	No, a cada quinze.
	Foi o que pensei.
	Como est a sua perna?
	Totalmente recuperada  ele garantiu, dando uma palmadinha na coxa.
	Parece muito bem-disposto, hoje  Edith comentou.
	E estou.
Desde que sara do hospital, Gifford adquirira o hbito de passar suas noites bebendo usque e olhando para o vazio. Agora, porm, ouvia discos de Cole Porter e estava lendo um livro de Somerset Maugham. No teria escolhido nenhum dos dois, mas as obras encontradas no bangal faziam as noites passarem com facilidade e o faziam despertar pela manh com energia renovada.
Bem, na noite anterior, a leitura fora deixada de lado e Gifford passara o tempo pensando em Cass. Ela fora a nica mulher que ele pedira em casamento, a nica com quem jamais desejara se casar. E ela recusara sua proposta sem pensar.
A proposta repentina fora uma surpresa para ambos. O casamento nunca lhe parecera atraente. Agora, no entanto, quanto mais pensava a respeito, mais certo de sua deciso se sentia. Gostava de estar com Cass e com Jack. Agradava-o a ideia de viverem, os trs, como uma famlia. Sentira-se satisfeito e orgulhoso quando o policial os tratara como tal, no aeroporto.
Quando concordara em serem apenas bons amigos, mentira, pois queria muito mais de Cass. Queria seu corao, sua alma, seu corpo...
	Pensei que fosse Jules  ela falou.
	Ele no chegou at agora?
	No. E hoje teremos fregueses extras e precisamos dele para servir as bebidas.
	E se eu servir?  Gifford se ofereceu.
	Voc?
	Sou perfeitamente capaz de abrir uma garrafa de cerveja.
	Sim, mas...
	Mas o qu?
	Mas sua perna poderia falsear quando voc estivesse carregando uma bandeja, Cass pensou. Ento, voc cairia, os fregueses se apressariam em se levantar para ajud-lo, com expresses de simpatia e piedade, e voc se odiaria por isso.
	Voc no sabe o preo de cada bebida  falou em voz alta.
	Consultarei a carta de vinhos e, se precisar de ajuda, perguntarei a voc  ele decidiu.  Vamos!
Enquanto Cass distribua os fregueses nas mesas, Gifford se posicionou atrs do balco. Em questo de segundos, fez um inventrio mental das bebidas disponveis, abriu a carta de vinhos sobre o balco e, ento, armou-se de caneta e bloco de pedidos.
	Algum aceita um aperitivo?  ofereceu com um                        sorriso cordial, ao se aproximar das mesas.
A maioria dos homens pediu Seybrew, a cerveja local. As mulheres preferiram sucos e refrigerantes. Enquanto repunha os pratos frios, servia os quentes e, mais tarde, ajudava Marquise a servir a sobremesa, Cass mantinha-se atenta a Gifford, que no parava de se movimentar de um lado para outro. Uma coisa era ouvi-lo dizer que, finalmente, aceitara sua deficincia. Outra bem diferente era colocar aquela aceitao em teste diante de aproximadamente trinta pessoas. Por favor, meu Deus, no permita que ele caia, rezou consigo mesma.
	Olhe, mame, olhe!  uma voz estridente se fez ouvir acima de todas as outras.  Voc precisa ver isso!
O grito partiu de uma garotinha de uns seis anos de idade, bonitinha, com seus cabelos loiros e cacheados. Era a nica criana no grupo. Pouco antes, ela havia gritado ao ver um macaquinho subindo em uma palmeira. Ento, fizera outra pequena cena quando um besouro entrara voando no restaurante. Todos haviam parado de comer, virado para fit-la e sorrido com indulgncia.
Mais uma vez, a menina gritava e apontava, mas desta vez, sua ateno se focalizava em Gifford, que servia a mesa ao lado.
	Mame, veja a perna daquele homem!  ela ordenou.
Cass sentiu o sangue gelar nas veias. O grupo todo estava em silncio. Gifford parecia tenso.
	Sim, querida  a me resmungou, sem jeito. Agora, tome o seu sorvete.
	Mas ...
	Becky, fique quieta  rosnou o pai.
	Mas  uma perna nojenta!  a menina insistiu, para quem quisesse ouvir.
O estmago de Cass fez uma reviravolta. Todos os olhos estavam fixos em Gifford, que havia se endireitado, bem no meio do restaurante. Os pais de Becky pareciam querer amordaar a filha, mas Cass gostaria de estrangular a garotinha. Assim como gostaria de passar um brao protetor em torno de Gifford e tir-lo dali.
	Nojenta, mas mgica  ele falou com um sorriso.
A menina fitou-o nos olhos, ento olhou para a perna atrofiada, antes de voltar a encar-lo.
	O que voc quer dizer?  perguntou com ar desconfiado.
	Minha perna  capaz de sapatear sozinha.
	Como?
	Assim  ele falou, deixou a bandeja de lado e bateu com os dedos e o calcanhar, alternadamente, no cho.
Como estivesse calando alpargatas, o movimento produziu um som musical no cho de tbuas.
Cass relaxou. Gifford no precisava de sua proteo. Podia enfrentar a situao com invejvel tranquilidade.
Becky riu.
	E mgica mesmo!  concluiu.
	Talvez voc tambm tenha uma perna mgica  Gifford sugeriu.  Quer tentar?
	Sim!
A menina pulou da cadeira e foi se juntar a ele, que continuou a repetir o movimento. Becky logo conseguiu imitar.
	 verdade! Tenho uma perna mgica como a sua!  festejou.
As pessoas riram e gritaram elogios. Outros ps comearam a bater no cho. Algum assobiou.
	Vamos l, Gene Kelly!  um homem gritou.
Gifford continuou com a brincadeira por mais alguns minutos. Ento, abaixou-se para sussurrar algo ao ouvido de sua parceira. Quando os dois se curvaram em uma reverncia, o restaurante explodiu em aplausos animados.
Cass tambm bateu palmas, com um sorriso de gratido. Gifford conseguira transformar o que prometia ser um momento constrangedor na mais pura diverso.
	Voc no s cuidou muito bem do bar, mas tambm proporcionou um espetculo digno do melhor cabar!  falou com um sorriso, meia hora depois, quando acenavam para o grupo que se afastava.
	Cheguei a pensar em cantar, mas no consegui me lembrar de nenhuma letra completa  ele declarou, fingindo seriedade.
	Bem, como as gorjetas foram bem maiores que o habitual, sugiro que dance para o prximo grupo.
	E arriscar ser descoberto por um caador de talentos, receber uma oferta de' um milho de dlares para estrelar meu prprio show na Brodway?  Gifford fez uma careta.  No faz o meu estilo.
Cass suspirou profundamente.
	Algumas pessoas simplesmente no possuem esprito de aventura  resmungou.
	Algumas pessoas esto desesperadas para comer seu prato de curry  ele corrigiu, antes de desaparecer na cozinha.
Jack estava sentado na banheira, brincando com um patinho de borracha amarelo, enquanto Cass lavava seus cabelos.
Quando a campainha tocou, ela sentiu o pulso acelerar. Gifford perguntara a que horas ela costumava dar banho no filho e, portanto, s poderia ser ele.
Entre!  gritou e, segundos depois, Gifford apareceu na porta do banheiro.
	Posso assistir?  perguntou. Cass indicou o espao a seu lado..
	Fique  vontade  disse.
Apoiando-se no ombro dela, ele se ps de joelhos a seu lado.
	Obrigado  agradeceu, sem tirar a mo.
O contato suave ps os nervos de Cass  flor da pele. Ela se tornou subitamente consciente de que estavam juntos no chal, onde haviam feito amor. A lembrana funcionou como um afrodisaco potente.
	O fundo da banheira  escorregadio e, s vezes, Jack cai  falou, afastando-se.  Pode segur-lo, enquanto vou apanhar as roupas dele?
Gifford retirou a mo de seu ombro para pous-la nas costas do filho.
	Pode deixar.
Ao abrir a gaveta da cmoda e apanhar um pijama limpo, Cass se perguntou se Gifford fora at ali s para ver o filho tomar banho, ou tambm para fazer amor com ela novamente. Tanto o sorriso viril, quanto o calor de sua mo revelavam segundas intenes.
Cass mordeu o lbio, pensativa. No queria fazer amor com Gifford. Ou melhor, queria muito, mas quanto maior a intimidade que partilhasse com ele, maior tambm seria o seu sofrimento quando ele partisse.
Quando voltou ao banheiro, Gifford segurava Jack, tirando e pondo o garotinho na gua. Agitando braos e pernas, o filho gritava de alegria.
	Este  um jogo de meninos  Gifford declarou, ao v-la.
Cass ajoelhou-se, pensando que a cena de pai e filho brincando juntos era mesmo tocante. Talvez, pensou, devesse dizer a ele que havia mudado de ideia e que aceitaria sua proposta de casamento. Afinal, a vida de Jack seria muito melhor se tivesse o pai ao seu lado todo o tempo e, quem sabe, o fato de Gifford no am-la no fosse realmente importante. Ento, sacudiu a cabea como se quisesse despertar de um sonho. Ora, a quem estava tentando enganar? Animado, Jack bateu com as duas mozinhas na gua, dando um verdadeiro banho no pai.
	Ora, ora!  ele exclamou. Cass  riu alto.
	Isso  o que se chama "aprendizado pela experincia".
	Para mim ou para ele?
	Os dois  ela respondeu, sorrindo.
Cass entregou uma toalha a Gifford e, enquanto ela segurava o filho, ele se enxugou.
	Que tal secar Jack?  ela sugeriu.
	Boa ideia, mas voc precisa me ensinar como fazer.
	Certo. Primeiro...
Poucos minutos depois, o beb encontrava-se seco e perfumado, deitado em uma toalha no cho do banheiro. Agitava braos e pernas e sorria, como se tivesse a certeza de que o pai e a me estariam sempre a seu lado, como agora. Cass sentiu um aperto no peito ao pensar que o filho poderia estar redondamente enganado.
	Agora, ponha a fralda  instruiu.
	Eu?  Gifford inquiriu, surpreso.
	Tem de fazer o servio completo  ela explicou, estendendo-lhe a fralda descartvel. - Essas gotas de suor que vejo em sua testa so de ansiedade?
	Pode apostar que sim  ele confirmou, prendeu a fralda e, um tanto desajeitado, vestiu o pijama em Jack.  Hora de dormir  decretou, ao ver o filho bocejar.
	No antes de ele tomar a mamadeira.
Jack bocejou mais uma vez, antes de seus olhos se fecharem.
	Tarde demais  Gifford concluiu.
	Tem razo. A brincadeira de enfi-lo e tir-lo da gua deve ter deixado o pobrezinho exausto. Se ele acordar com fome, no meio da noite, vou...
	Fingir que no ouviu?
		No. Vou lev-lo para que voc lhe d a mamadeira!
 Cass replicou, carregando o beb para o quarto.
Enquanto o acomodava no bero e cobria, o beb nem se mexeu.
	Ele no vai acordar to cedo  comentou ao voltar para a sala. Ento, deu-se conta de que Gifford havia tirado a camisa.  Sua camisa ficou molhada demais?
	No.
	Ento...
Ele estendeu a mo e segurou a dela.
	Achei que, se tirasse a roupa, voc talvez ficasse excitada e se animasse a tirar a sua, tambm.  Com um sorriso, puxou-a para si.  E ento? Est excitada?
Cass respirou fundo. A imagem de Gifford seminu, na penumbra, trazia lembranas mais que erticas.
	Um... um pouco  gaguejou.
O sorriso dele tornou-se mais largo.
	Mentirosa.
	Est bem. Muito!
	E est furiosa consigo mesma por ser to vulnervel.
	Adivinhou!
	No fique zangada, pois sinto o-mesmo  ele confessou e inclinou-se para beij-la nos lbios.  Venha comigo.
No quarto, despiram-se sem jamais deixar de beijar e tocar um ao outro.
	Pensei que fosse capaz de ficar longe de voc, mas descobri que estava enganado  Gifford admitiu com voz rouca, ao mesmo tempo em que suas mos traavam caminhos de fogo pelo corpo de Cass.
Ela estremeceu e gemeu baixinho.
	Voc est tremendo  ele murmurou.
	Voc tambm.
	Verdade, mas sou um invlido e, por isso, tenho permisso para tremer.
	Desculpas, desculpas...
	No consegui engan-la?
	Nem... nem um pouco  ela gaguejou.
Caram na cama, os lbios colados em um beijo apaixonado. Atordoada de desejo, Cass abandonou-se s carcias experientes de Gifford, que a levavam rapidamente a um mundo mgico, onde nada mais existia, exceto eles dois e o fogo da paixo. Como se tivessem vida prpria, suas mos buscaram os pontos mais ntimos e sensveis do corpo dele, a fim de retribuir-lhe o prazer que ele lhe proporcionava.
	Ainda tremendo  Gifford constatou.
	Voc ou eu?
	Ambos.
Encorajada pelo tom de voz enrouquecido, Cass tornou-se mais ousada em suas carcias e, ao sentir que Gifford se aproximava mais e mais da perda total do controle, posi-cionou-se sobre ele.
	Seja boazinha comigo  Gifford pediu, em um misto de divertimento e xtase.
Ela comeou a movimentar os quadris lentamente, em movimentos sensuais.
	Mas no boazinha demais?
	Exatamente.
Cass debruou-se sobre ele, roando os seios no peito musculoso. Ento, voltou a erguer-se, cavalgando em um ritmo cada vez mais alucinante, sentindo o desejo crescer juntamente com o de Gifford, at que ambos explodiram em clmax.
	A ligao foi de algum fregus querendo fazer reservas?
	Edith perguntou ao entrar no restaurante, na manh seguinte.
	No  Cass respondeu, recolocando o fone no gancho.
	Eu estava falando com a companhia area sobre o meu vo. Decidi voltar para casa no prximo sbado.
	J?  a outra indagou, franzindo o cenho.
	Estou aqui h mais de seis semanas. Eu disse que ficaria at o Paraso Perdido ser vendido e a negociao ser encerrada dentro de dois dias, na sexta-feira, que tambm ser o seu ltimo dia no restaurante. Voc no vai mais precisar de mim.
	No vou precisar, mas esperava que voc estivesse aqui no dia da minha mudana.
Cass exibiu um sorriso constrangido. Sabia que Edith acalentava tal esperana e sentiu-se mal por desapont-la.
	Tenho certeza de que voc e sua irm ficaro muito bem e... Bem, preciso voltar para casa.
	E quanto a Gifford?
	Manteremos contato e ele ir visitar Jack de vez em quando.
	O que ele acha da sua partida, to cedo?
Cass franziu o cenho.
	Ele ainda no sabe. Eu pretendia contar, mas no tive oportunidade  mentiu e, ento, mudou de assunto:  Estive pensando e acho que devemos colocar um anncio no jornal local, avisando que o Paraso Perdido est sendo vendido. Tambm poderamos colocar uma placa na entrada, informando os fregueses e passantes que o restaurante estar fechado, a partir de segunda-feira e que, em breve, ser reaberto sob nova direo. O que acha?
	Boa ideia.
Cass telefonou para a redao do jornal de Mah e providenciou o anncio. Ento, apanhou um velho quadro negro que costumava ser usado para exibir o cardpio do dia aos fregueses e, com giz, escreveu a informao sobre o fechamento do restaurante.
	Pode cuidar de Jack, enquanto vou colocar este quadro na entrada do restaurante?  pediu a Marquise, que j terminara a limpeza e, agora, brincava com o beb.
A adolescente exibiu um sorriso luminoso, pois adorava crianas. Ouvira falar de uma famlia residente no outro lado da ilha, que estava precisando de uma bab e decidira se candidatar  vaga.
	Claro  respondeu.
Carregando o quadro negro, Cass dirigiu-se  estrada. Embora se sentisse culpada por abandonar Edith, decidira que deveria deixar a ilha o quanto antes, pois precisava colocar a mxima distncia entre si e Gifford.
Na noite anterior, haviam feito amor e ela no tinha a menor dvida de que, naquela noite, Gifford apareceria no chal e o mesmo aconteceria. Afinal, bastava que ele a beijasse, ou melhor, que tirasse a camisa, para deitar por terra qualquer resistncia que ela houvesse conseguido reunir a duras penas.
Ficou a olhar a estrada, pensativa. Vinha adiando o momento de contar a Gifford sobre a sua deciso de partir, pois temia que ele tentasse persuadi-la a mudar de ideia. E, dado o seu estado de esprito atual, no seria nada fcil resistir a ele. Sabia que, se ficasse, estaria se submetendo a um sofrimento ainda maior. Ainda assim, teria de contar a ele, mais cedo ou mais tarde.
Apoiou o quadro negro no tronco de uma palmeira. Antes de partir, teria de combinar a quantia com que Gifford contribuiria para a manuteno de Jack. Ajudaria se ela soubesse com que frequncia ele pretendia visitar o filho. Seu corao apertou-se, pois isso significava saber quantas vezes por ano seria obrigada a v-lo.
Assim que se visse livre da presena dele, seria capaz de recuperar a compostura e voltar a raciocinar com clareza e, assim, quando se encontrassem no futuro, ela poderia resistir  tentao representada por Gifford. Garantiu a si mesma que conquistaria tal condio e que sua vulnerabilidade era um problema temporrio.
Quando virou-se para retornar ao restaurante, Cass deparou com Gifford, que se encaminhava para ela. Nos dois dias que passara sem a bengala, ele havia adquirido maior firmeza em seus passos e j comeava a se tornar difcil perceber que ele mancava.
	O que pensa que est fazendo?  ele perguntou.
Cass apontou para o quadro negro.
	Pensei em avisar os fregueses sobre o fechamento do restaurante. Acha que  prematuro, que eu deveria deixar que soubessem na semana que vem?
	No  prematuro. Se os fregueses souberem que essa  a ltima oportunidade que tm para saborear a comida deliciosa de Edith, certamente vo lotar o restaurante, no fim de semana. Quando perguntei o que voc pensa que est fazendo, estava me referindo ao fato de estar planejando fugir sem me avisar.
	Edith lhe contou?
	Sim, e foi muito decente ao faz-lo. Cass empinou o queixo.
	Eu ia lhe contar.
	Quando?
	Na primeira oportunidade. No pretendia fugir. 
	No? No planejou manter a sua partida em segredo at o ltimo minuto para, ento, fazer as malas, dizer adeus e partir?
As faces dela coraram. Era verdade que tal ideia lhe ocorrera, mas ela a descartara de pronto.
	Claro que no!  declarou, deu meia-volta e se encaminhou para o restaurante.
	Precisamos decidir algumas coisas  Gifford lembrou-a, seguindo-a de perto.
Cass assentiu.
	Como por exemplo quanto voc vai mandar para Jack, mensalmente. J calculei quanto costumo gastar com...  Forneceu detalhes de seu oramento com o filho e sugeriu uma quantia.  Est bem, assim?
	Discutiremos isso mais tarde  ele respondeu com ar casual, guiando-a para dentro do restaurante, onde Marquise encontrava-se abaixada entre mesas, brincando de esconde-esconde com Jack, que ria s gargalhadas.
A menina ergueu os olhos e cumprimentou-os:
	Ol.
	Voc poderia tomar conta de Jack por mais, digamos, meia hora?  Gifford perguntou, retirando do bolso algumas notas e depositando-as sobre a mesa.  Pagarei pelo seu trabalho como bab.
Marquise sorriu ao ver o dinheiro.
	Posso ficar por quanto tempo quiser Por uma hora, duas ou o dia inteiro.
	Jack costuma almoar por volta de meio-dia  Cass protestou.
	Posso dar o almoo a ele  a menina ofereceu.
Gifford sacudiu a cabea.
	Estaremos de volta antes disso. Se ele chorar, leve-o at ns, no bangal  disse e, segurando a mo de Cass, levou-a para fora.
	No precisa segurar minha mo! No vou fugir!
	No at sbado?
	No sbado, tambm no estarei fugindo. Simplesmente, chegou a minha hora de partir.
Ele lhe lanou um olhar ctico.
	Tem certeza?  indagou, mas soltou-lhe a mo.
Quando chegaram  Maison d'Horizon, Gifford conduziu-a at a sala de estar.
	Outra questo que precisamos discutir so as suas visitas  Cass declarou, ao se sentar no sof.  Com que frequncia...
	No quero visitas  ele interrompeu, franzindo o cenho.  Quero viver com voc.
	Viver comigo?  ela repetiu.  Quer dizer... em carter permanente?
	Claro! Voc disse que no quer se casar comigo, mas... que tal vivermos juntos? Ns nos entendemos bem e o sexo  fantstico. Mas, alm da boa companhia e da paixo... Ora, Cass, eu te amo!
Embora as palavras provocassem uma torrente de emoes em Cass, ela se recusou a se deixar enganar.
	Desde quando?  perguntou.  Desde que se apaixonou por Jack?
	Muito antes disso, quando nos conhecemos, em Londres.
Cass sacudiu a cabea.
	No  o que mostra a nossa histria. Se estou bem lembrada, voc terminou nosso relacionamento.
	E voc ficou magoada?
		Sim, muito - ela respondeu, decidindo que havia chegado o momento de ser inteiramente honesta.  Pode ter parecido que no, mas eu estava apenas fingindo.
Gifford sentou-se na outra ponta do sof.
	Tive essa impresso, mas no havia como me certificar. Acabei com tudo porque, embora s nos conhecssemos h algumas semanas, nosso envolvimento j era profundo... muito profundo. E isso me assustou.
	Ento, voc fugiu  Cass concluiu.
	Sim. E errei. Uma vez, eu lhe falei de meu pai, seus casamentos e divrcios. Enquanto crescia, vi de perto a confuso que ele criava em seus relacionamentos, a dor que causava para suas esposas e filhos.
	Voc tem irmos?  Cass inquiriu, surpresa.
	Um irmo e duas irms, todos mais novos, por parte de pai. Toda vez que nos encontramos acabamos falando de papai e de como ele nos enganou.
	Enganou?
	Exatamente. Meu pai  um sujeito simptico e espirituoso, de boas maneiras e boa aparncia. D a impresso que se interessa pelas pessoas e que gosta delas, mas a nica pessoa que realmente importa  ele mesmo.
	Ele no se importava com voc e seus irmos?
	No dava a mnima. Assim como a maioria dos garotos, eu idolatrava meu pai. Quando era jovem, tinha certeza de que ele tambm me amava, mas papai s me via, ou a qualquer de seus filhos, quando nossas mes insistiam. E elas tinham de fazer muita presso. Demorei a perceber isso e, quando me dei conta da verdade... Ah, como sofri! No entanto, quando papai vivia com minha me e se queixava de que ela limitava a vida dele, que se sentia sufocado, e depois, quando acusava suas outras esposas de fazerem o mesmo... Bem, acho que eu acreditava.
	E, por isso, voc acabou se tornando avesso ao casamento?
	Sim e no. Por um lado, toda vez que via casais felizes, eu os invejava. Acredito que o casamento deve ser para sempre e possuo valores antiquados, como fidelidade e resonsabilidade para com esposa e filhos. Por outro lado, sempre tive medo de ser sufocado. Acho que, no fundo, tinha medo de me tornar to irresponsvel quanto meu pai.
	Ento, em vez de correr o risco, preferiu ficar sozinho?
	Sim, mas viver sozinho traz um profundo sentimento de solido. Cheguei  concluso de que o verdadeiro motivo pelo qual eu me dedicava tanto ao trabalho era que precisava preencher as longas horas que tinha de ficar sozinho.
	Nunca viveu com ningum?  Cass perguntou.
	Uma vez, h alguns anos, mas ela comeou a insistir para que nos casssemos e eu acabei fugindo. Depois disso, jurei que nunca mais viveria com ningum.
	E, agora, mudou de ideia?
	Sim. Quando pus um fim ao nosso relacionamento e voltei para os Estados Unidos, fiquei perdido, sentindo muito a sua falta. Foi por isso que aceitei os convites de Imogen. Acreditei que, saindo com ela, eu pararia de pensar em voc.
	E no parou?
	De jeito nenhum. Eu havia decidido nunca mais voltar a v-la, mas no conseguia tirar voc da cabea. Eu disse que telefonei porque me sentia mal pelo modo como havia terminado nosso relacionamento, mas tambm queria descobrir se voc tinha um novo namorado, ou no.
	Por qu?
	Porque, quela altura, se voc estivesse disponvel, eu estava disposto a voltar para a Inglaterra e propor um recomeo para ns. Mas, ento, Stephen insinuou que vocs estavam juntos e, por isso, desisti de procur-la. Durante os meses que fiquei no hospital, passei muito tempo pensando em quanto eu te amava, que poderamos ter tido uma boa vida juntos, e como eu havia posto tudo a perder.
	Voc me amava? Por que usou o verbo no passado?
	No meu modo de ver, se voc estava envolvida com Stephen, eu estava perdendo o meu tempo. Disse a mim mesmo que j tinha esquecido voc, mas estava me enganando.  Acho  que,  inconscientemente,  escolhi  Seychelles como lugar para convalescer porque as ilhas tinham uma ligao com voc.
	Mas no calculou que me encontraria aqui?
	Nunca. E quando a encontrei, fiquei muito perturbado. Eu acreditava que voc tinha um filho de Stephen, mas... Nossa! Foi um golpe descobrir que Jack era meu filho. O fato  que eu te amo e, talvez, com o tempo, voc aprenda a me amar, tambm.
Cass sorriu. A medida em que ele falava e se explicava, a felicidade fora crescendo dentro dela. A princpio, fora um sentimento cauteloso, mas que acabara tomando conta de todo o seu ser.
	Acha possvel?  indagou.
	Sim, acho. Cass, voc no faria amor comigo se no gostasse de mim, pelo menos um pouco. Se passarmos a viver juntos...
	No, obrigada.
	No quer viver nos Estados Unidos? Tudo bem. Viveremos na Inglaterra. Viveremos aqui.  Gifford ergueu as mos em um gesto de rendio desesperada.  Viveremos em qualquer lugar que voc queira.
	No quero viver com voc.
	Acha que posso me tornar um pssimo marido, como meu pai? Cass, posso garantir que...
	No penso isso. Sei que voc se importa de verdade com as pessoas, com Jack, comigo.
	Ento, por que...  ele comeou a perguntar, evidentemente confuso.
	No quero viver com voc, Gifford. Quero me casar com voc porque eu tambm te amo.
Um sorriso curvou os lbios dele.
	Verdade?
	Eu te amo desde a primeira vez em que o vi.
	Graas a Deus!  ele murmurou, antes de beij-la. Quando finalmente descolou os lbios dos dela, franziu o cenho e perguntou:  Por que recusou o meu pedido de casamento?
	Porque voc no havia mencionado a palavra vital: amor.
	Voc no me deu tempo!  ele protestou.  Como voc mesma disse, fiz a proposta por impulso. Concordo que foi um tanto... repentina, mas pensei que voc soubesse que eu a amava. Alm disso, estava me preparando para fazer uma declarao de amor eterno, quando voc disse no. Sei que deveria ter insistido, mas voc parecia to segura de si e eu me senti rejeitado e... Ora, Cass, eu te amo e sempre te amarei  declarou em tom solene, antes de voltar a beij-la.
	Que tal voltarmos ao restaurante para dizer a Jack que, daqui por diante, ele ter um papai e uma mame em perodo integral e que, ainda por cima, ser filho legtimo?  Cass sugeriu, quando recuperou o flego.
	Assim que tivermos comemorado.
	Com champanhe? Gifford sorriu.
	O champanhe vem depois.
	O que voc tem em mente?  ela perguntou com um sorriso maroto.
	Algo muito mais excitante, que costuma nos fazer tremer.  Ele se ps de p, puxou-a para si e abraou-a.  O que acha?
	Acho voc irresistvel.
CAPITULO IX

	D-me um ltimo abrao  Edith pediu, sorrindo para Jack, que se atirou dos braos de Gifford para os dela.  Vou sentir sua falta, nen.
	Vai voltar a v-lo dentro de dois meses  Cass lembrou.
	No seu casamento  a nativa falou, satisfeita.  Mal posso esperar.
Gifford sorriu.
	Nem eu. Ligaremos assim que marcarmos a data.
	E eu farei a reserva do vo. imediatamente  Edith garantiu e beijou Jack.  Verei voc quando sua me e seu pai voltarem para a Maison d'Horizon para passar a lua-de-mel. Como voc j est craque em engatinhar, imagino que, at l, vai estar andando.
	 possvel  Cass concordou.
	E, quando nos dermos conta, vai estar flertando com as garotas, frequentando danceterias e querendo ter o seu prprio carro. Ser uma Ferrari, ltimo tipo  Gifford falou, beliscando as bochechas do filho.
Jack soltou uma de suas risadas deliciosas.
Estavam no aeroporto de Praslin, de onde seguiriam para Mah e, de l, para Londres. Depois de se desmanchar em agradecimentos, Edith passara s despedidas.
Cinco semanas antes, Cass havia cancelado sua partida apressada da ilha.
Paguei o aluguel de dois meses, adiantado, pelo bangal Gifford dissera.  Por que no ficamos aqui, em frias?
	Boa ideia  Cass concordara de pronto.
Assim, quando Edith se mudou para a casa nova, Cass e Jack foram para a Maison d'Horizon. As duas primeiras semanas, quando Gifford e Cass ajudaram Edith e a irm com a mudana, foram um bocado atribuladas. As duas seguintes, porm, foram mesmo de frias.
Depois de tanto tempo limpando, lavando e servindo mesas, Cass adorou os inmeros passeios que fizeram. Gifford, por sua vez, abandonou as anotaes do guia para idiotas.
Quando estavam em Praslin, nadavam, tomavam banho de sol e conversavam muito. E, em meio a tudo isso, faziam amor com paixo.
	Vo se hospedar na casa do pai de Cassie?  Edith perguntou, no aeroporto.
	Sim  Gifford respondeu.  Assim, poderei pedir a mo da filha dele e, assim que ele concordar, tomaremos as providncias para a cerimnia.
	Ento, retiraremos os meus pertences do apartamento de Stephen, guardaremos tudo na casa de meu pai e voaremos para Boston  Cass acrescentou.
	E, l, ficaro hospedados no apartamento de Gifford? 	a nativa perguntou.
Ele assentiu.
	Como pretendemos morar em Boston, depois que nos casarmos, compraremos uma casa nos arredores da cidade.
	Com um jardim para Jack brincar, quando estiver maior  Cass completou.
	Ento, voltaremos para a Inglaterra, nos casaremos e viremos para c, para ficar trs semanas  ele concluiu.
	E, depois do casamento de vocs, ficarei na casa do pai de Cassie por uma semana. Foi muita gentileza dele me convidar  Edith comentou com um sorriso satisfeito.
		Sinto-me to grata por voc ter conseguido aquele salrio
de Kirk, Gifford.
Uma vez concludas as negociaes de compra e venda do Paraso Perdido, Kirk Weber perguntara a Edith se ela estaria interessada em cozinhar no restaurante, nos fins de semana. Tambm convidara Jules a manter seu posto de barman.
	Ouvi falar que a comida de Edith  deliciosa  ele dissera aos trs.  E havia uma hspede no Club Sesel que no parava de elogiar o seu barman.
	Uma ruiva?  Cass perguntara.
Kirk assentira em resposta.
	O que acha de trabalhar aqui nos fins de semana?  Gifford perguntara a Edith.
	Eu adoraria.
	Vai pagar a ela o mesmo salrio que paga aos cozinheiros internacionais do hotel?  ele inquirira, virando-se para o sul-africano.
	Salrio internacional? Bem, eu...
Embora Kirk protestasse, Gifford conseguira persuadi-lo. Quando Jules aceitara o emprego, Gifford conseguira um aumento para ele, tambm.
Quando os passageiros comearam a se encaminhar para a pista de pouso, Edith deu mais um beijo em Jack e devolveu-o ao pai. Ento, deu um abrao apertado em Cass.
	Faa uma boa viagem  falou, com olhos cheios de lgrimas.
	Obrigada.
Gifford beijou a nativa no rosto.
Cuide-se.
Acenando, entraram no avio e se acomodaram em seus lugares. Minutos depois, sobrevoavam o oceano. Gifford sorriu para Cass, que levava Jack no colo.
	Solteiro, trinta e seis anos, com todos os dentes em perfeito estado, encontrou loira esbelta e vai se casar com ela  disse.  Viver com ela e com os filhos de ambos.
	Filhos?
	Acho que devemos providenciar um irmozinho, ou irmzinha, para Jack, dentro de uns dois anos.
	Boa ideia.
	Ele vai viver com ela e seus filhos para sempre, na mais perfeita felicidade.  Sorriu para Jack.  O que voc acha, pirralhinho?
Jack ergueu as mos e estalou os dedinhos.
	Ele acha timo!  Cass traduziu.
Gifford tomou-lhe a mo.
	Eu tambm  declarou, ftando-a nos olhos.  Eu tambm.

FIM

DICAS

PERGUNTAS E RESPOSTAS NA GESTAO

 possvel influenciar o sexo do beb?
O sexo do beb  determinado pelo espermatozide, que pode ser masculino ou feminino. Estudos indicam que o espermatozide masculino nada mais rpido, mas vive menos do que o feminino. Assim, se voc engravidar durante o perodo frtil (por volta do 14 dia do seu ciclo menstrual)  mais provvel que tenha um menino. J a chance de ganhar uma menina  maior se a fecundao ocorre at trs dias antes do perodo frtil.

Como ter certeza de que est tudo bem com o beb?
As chances de anormalidades so bem poucas. A maioria delas ocorre nas primeiras semanas e acaba em aborto prematuro. Por volta da 13a semana, o beb j est formado, e pouca coisa pode acontecer de errado. Se no h nada em seu modo de vida que o prejudique, os riscos ficam reduzidos.
Uma viagem longa  aconselhvel?
Geralmente no existe razo alguma para que voc deixe de viajar na gestao. De preferncia no o faa sozinha, especialmente de carro e fazendo trajeto longo. Use uma roupa bem folgada e confortvel. Pare a cada duas horas e ande a p por alguns minutos, para ajudar na circulao. No se esquea de levar com voc o carto de assistncia mdica.

Qual o melhor tipo de suti?
Escolha um que seja confortvel, de preferncia de tecido de algodo, com a tira inferior mais alta, alas largas e fecho ajustvel nas costas. Aumente de nmero  medida que os seios crescem. No fim da gestao, voc estar usando pelo menos dois nmeros acima do normal. Se seus seios comearem a ficar muito pesados, use suti mais folgado  noite para dormir.

Tenho medo de machucar o beb durante as relaes sexuais. Existe esse risco?
Esta  uma preocupao comum de toda gestante. Mas, se sua gravidez est normal, no h motivo. O beb  protegido pela bolsa de gua que o envolve e funciona como um amortecedor. Portanto, ele no  afetado quando voc faz amor. Seu mdico lhe dir se h algum risco especial, como placenta baixa.
	
 verdade que fazer vrias ultrassonografias prejudica o bebe?
Seu mdico  quem ir orient-la da necessidade do nmero de ultrassonografias que voc deve fazer. Se tudo correr bem com sua gravidez, o normal  que sejam feitas apenas trs ultrassonografias.

Meu marido deve ficar comigo durante o parto?
A companhia do marido na sala de parto  estimulada por alguns hospitais. Se o trabalho de parto se prolongar, voc vai se sentir s, a menos que tenha algum ntimo por perto. E o escolhido natural  seu marido. Mas se ele realmente no quiser ficar com voc, no convm pression-lo. Aceite outra pessoa de sua confiana para acompanh-la. Afinal, muitos homens sentem-se amedrontados e inseguros diante do nascimento de um filho.



ELIZABETH OLDFIELD comeou sua carreira de escritora como um hobby de adolescente, quando teve alguns artigos publicados. Porm, quando se casou, seu instinto criativo foi desviado para a produo de um filho e uma filha. Uma dcada depois, quando o trabalho de seu marido levou a famlia para Cingapura, ela voltou a escrever e teve seu primeiro romance aceito em 1982. Agora, adepta ao gnero, produz em mdia trs livros por ano. A famlia vive em Londres e Elizabeth viaja muito, a fim de tornar autnticos os cenrios de seus livros.

